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sábado, 13 de junho de 2015

O QUE QUEREMOS NA POLÍTICA É O NOVO, MAS O NOVO DE VERDADE



                   De escândalo em escândalo, cada vez ficamos mais abismados com o nível das relações incestuosas entre os poderosos e os donos do capital tanto no Brasil quanto alhures. O futebol é um poço de corrupção, afirmam os inquisidores da FIFA, cujas artimanhas vão muito além dos já conhecidos esquemas de combinação de resultados entre times; o Instituto Lula recebeu doações milionárias de certa empreiteira envolvida no escândalo da Lava Jato; nada demais, porque o Instituto de Fernando Henrique também foi beneficiado por doações da mesma empresa. E aí parece que o jogo acaba empatado, pois a nova ética que tentam nos empurrar goela abaixo é a de que todo mundo rouba igual, sendo as diferenças simples questão de oportunidade. O cidadão comum não desvia milhões dos cofres públicos porque não pode, mas tendo oportunidade suborna sem escrúpulos o guarda de trânsito que flagrou seu carro irregular; o policial civil não dá mole a traficante, porque nele vê a escória e os piores males à nossa sociedade, mas ao mesmo tempo é servil com o pequeno contraventor eleitor de seu amigo político; o Prefeito da pequena cidade nordestina milagrosamente não pratica atos de corrupção, mas se cala diante da exigência do Deputado que lhe liberou a verba para a construção da grande obra de sua administração para dirigir a licitação para uma empresa escolhida, pois do contrário a verba será destina a outro Município; o Maluf rouba, mas faz.
                   Ao mesmo tempo em que o senso comum se indigna com a grande corrupção em escala cada vez maior, se cria uma certa tolerância aos pecadilhos cometidos cotidianamente por nós outros, sem escrúpulos, arrepios ou dores de consciência. E é aí onde encontramos tanto a raiz quanto a consequência da falta de prática de ética por cada qual de nós. Tanto faz analisar o problema do macro para o micro ou vice-versa, pois a conclusão acaba sendo a mesma. Hobbes, o inglês que foi um dos grandes teóricos do Estado, cria o Leviatã, que vem a ser o monstro sob o qual os seres humanos depositaram parte de sua liberdade em troca de segurança. O monstro a que nos referimos é o próprio Estado e seu dever é garantir a todos os seus súditos, que somos nós os cidadãos, segurança tanto física quanto jurídica, em troca do que abrimos mão de parte das nossas liberdades e ainda pagamos impostos, na esperança de que nos retornem em serviços relevantes à nossa existência. A corrupção, no entanto, não permite que a realidade se alinhe à bela teoria. Não temos segurança nenhuma, seja porque a polícia não protege e tantas vezes nos oprime, seja porque os juízes não tutelam de fato as liberdades, seja porque as autoridades públicas não prestam serviços minimamente de qualidade. O orçamento da saúde é milionário; aumentando a cada ano, mas ainda assim quem não pagar um plano de saúde privado não terá acesso regular à saúde; o fomento visando o desenvolvimento social das camadas mais miseráveis da população se impõe como política de justiça social, mas o bolsa família acabou virando a última trincheira para a manutenção no poder dos que exploram a pobreza como arma política, seja entre os coronéis do passado, seja entre os progressistas do presente.
                   De outro lado, desde crianças somos rigorosamente treinados a fazermos parte de um mundo cada vez mais competitivo, onde o colega ao lado é o adversário que perigosamente poderá nos tomar a vaga no emprego, a promoção na empresa ou mesmo a simpatia no grupo social. O próximo não é o irmão a quem devemos acalentar na necessidade e buscar auxílio na precisão, mas tantas vezes se transforma no adversário e até no inimigo. Esta forma de ver o mundo a que somos instigados tanto pela escola quanto pela mídia nos ensina que é certo querer vantagem em tudo; ser o vencedor é ser o melhor, porque vergonhoso é perder. O consabido jeitinho brasileiro e a lei de Gérson, que relegam a ética face ao resultado traduzem de maneira emblemática as consequências dessa distorção do dever pedagógico tanto da mídia quanto da educação. Sob esse ângulo, a mentira e a corrupção, desde que praticados em escala razoável é algo tolerável, porque tanto é uma contingência para a sobrevivência quanto aparentemente não faz mal a ninguém.
                   Mas já dizia Hermes Trimegistro, na famosa Tábua de Esmeralda: como é em cima é como é embaixo e como é embaixo é como é em cima. Logo, o mesmo modelo reconhecido tacitamente pela moral comum é necessariamente repetido pela prática dos poderosos. E é assim que se justificam os mal feitos da República: Lula precisou pagar o mensalão, porque do contrário não governaria (afirma expressamente o livro do ex-Presidente do Uruguai, José Mujica); foi necessário permitir que se montasse um esquema de corrupção em várias empresas estatais (não somente na Petrobrás) porque novamente não teria a maioria necessária à governança; tudo bem, porque os tucanos, quando foram governo se valeram das mesmas práticas, inclusive comprando a emenda da reeleição; os políticos, mesmo os bem intencionados, que não compram voto ou praticam outra forma de abuso de poder jamais se elegerão; o pequeno Prefeito que não ceder à máfia das licitações que se espraiou por todo o país não consegue realizar obras; o parlamentar da situação que não tiver um razoável número de empregos públicos para distribuir entre seus correligionários não se reelege; e assim por diante pelos séculos dos séculos, como se essas práticas fossem uma necessidade e não uma espúria deturpação.
                   É nisso que precisamos dar basta. A questão não é somente guarnecer as trincheiras do combate à corrupção, mas igualmente dar cabo às falhas reincidentes de nosso caráter coletivo; de como nos vemos e a que práticas nos permitimos enquanto povo, nação e humanos; em uma palavra, é preciso definir de maneira clara e transparente qual é o nosso conceito de ética e até que ponto seremos capazes de tolerar como normais práticas viciosas e vergonhosa que nos acompanham desde os primeiros anos do chamado descobrimento do Brasil.
                   E o caminho para essa mudança necessariamente encontraremos na educação e somente nela.


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

sexta-feira, 5 de junho de 2015


MACHUPICCHU
                  
                   Todos os dias, junto com os primeiros raios de sol, milhares de turistas curiosos e ávidos por descortinar diante de si um tempo que não mais existe; um povo que foi cruelmente devastado pela ignomínia do poder e do ouro, adentram ao portal que acessa à cidade da velha montanha, mundialmente conhecida por Machupicchu, que na língua Quéchua significa exatamente a velha montanha, que protege e testemunha o cotidiano da esquecida cidade Inka já a tantos séculos. O nome mesmo daquele lugar; a palavra pronunciada pelos Inkas para designá-la restou perdida junto com centenas de outros mistérios daquele povo, permanecendo irrevelados para cada uma das milhares de pessoas que diariamente, como em uma romaria perpétua, adentram àquele sagrado lugar.
                   Para chegar aos portões de Machupicchu não é uma tarefa fácil, propícia aos obesos turistas que visitam outros lugares famosos do mundo. Ou se arrisca a embrenhar-se na velha trilha Inka, subindo e descendo montanhas por quatro longos e extenuantes dias, ou se colhe um trem em Ollantaytambo e guiado pelas rodas de ferro do comboio de vagões adentra-se em floresta cerrada, beirando o caudaloso rio sagrado dos Inkas, o Urubamba. Não há como se chegar de carro ou outro meio de transporte. Porém, ao termo da extravagante aventura o trem enfim desembarca a todos no singelo povoado de Machupicchu, criado exclusivamente para recepcionar os milhares de turistas que buscam conhecer as velhas ruínas da cidade perdida. Daí se toma um micro-ônibus que subirá uma íngreme montanha até que enfim estacione diante da entrada da cidade perdida. Poucos passos adiante se encontrará as primeiras ruínas. Ruínas porque se trata de uma cidade abandonada misteriosamente em data desconhecida, que remonta por certo a alguns séculos, talvez mais próximo, talvez mais remoto aos últimos reis Inkas. Mas sem dúvidas uma construção genial, de ímpar resistência, que sobreviveu a séculos de abandono, tomada já por densa floresta e irretocável a tantos terremotos que já abalaram toda aquela região. Tudo, sem falar na inexplicável arquitetura, composta por blocos gigantescos de pedras trazidas de dezenas de quilômetros de distância cujas técnicas de locomoção são até hoje desconhecidas. Com a tecnologia avançada do século XXI ainda não é possível repetir o bravio feito daquele povo.
                   O que mais impressiona, contudo, é o enorme número de visitantes que a cada dia faz a temível travessia entre Cusco, antigo centro do mundo Inka até Machupicchu, por um dos meios possíveis. Tão mágico quanto admirar a arquitetura única daquele lugar, vasculhando as dezenas de mistérios, alguns perdidos outros escondidos ao longo da cidade, é mirar o formigueiro humano que devassa suas entranhas, formado por estrangeiros dos mais longínquos rincões planeta adentro. A cada dia podem adentrar à cidade no máximo duas mil e quinhentas pessoas, sendo que duas mil viajam por trem e as demais quinhentas a pé, pela citada trilha Inka, que na época do império era o exclusivo meio de acesso à misteriosa cidade. Naquele lugar mágico, parece, em todos os dias se falam todas as línguas conhecidas pela humanidade, fazendo dali o verdadeiro centro energético de todo o planeta.
                   Mas o que buscam tantos forasteiros, de tantas culturas e costumes diferentes? Que teriam em comum um gigante negro africano, um desalinhado e parrudo americano, uma frágil e dócil coreana e um outro antipático alemão, senão o mesmo olhar sereno, fascinado e cheio de incompreensões diante da deslumbrante vista panorâmica de Machupicchu, do alto da Casa do Vigilante? Que passaria em seus espíritos senão sentimentos da mais pura e sublime inspiração ao ver a montanha gigante e velha, que pela própria arte da natureza desenha a face de um sábio índio, pintada logo abaixo pela genialidade do homem, que desenhou os contornos da cidade como a um condor, em pleno voo. A genialidade de Deus poderia ser aperfeiçoada pela maestria de sua criatura? O homem, assim, no seio dessa harmonia perfeita com a natureza se torna tão divino quanto seu próprio Criador? Diante daquela maestria, que por tão bela e perfeita não merece adjetivos, como então duvidar que há um Deus criador e que o fruto maior dessa criação, o homem caído, não possui em seu âmago a potência de sua Divindade criadora?
                   Diante da vista panorâmica de Machupicchu, do alto da Casa do Vigilante, onde nos tempos dos reis Inkas era a única chegada àquela misteriosa cidade, desconhecida mesmo de muitos dos antigos quéchuas, em qualquer língua que seja; fundado em quaisquer das muitas culturas humanas; inspirados em todos os conceitos de divindade; somente esta poderá ser a conclusão a que qualquer ser desta espécie, a nossa; a humana, poderá chegar com honestidade.
                   E depois dessa mirada, é praticamente irresistível não seguir a trilha Inka até a Porta do Sol, que anuncia com precisão absoluta os solstícios de inverno e verão. A caminhada é íngreme, que pelo esforço exigido de densa subida em ambiente de ar rarefeito convida o caminhante a refletir sobre sua pequenez individual diante da magnanimidade da natureza, mas ao mesmo tempo o conscientiza que ele, o pequeno caminhante que tropegamente arrisca acanhados passos nos sagrados degraus do caminho, é potencialmente tão grande e perfeito quanto a própria natureza, desde quando consiga se fazer parte dela. Não se domina a natureza; se integra a ela, deixando de existir enquanto indivíduo e passando a ser uma porção de consciência no todo da criação. A cada passo menor ficamos diante de nós mesmos e mais altos nos tornamos diante de Deus.
                   Verdadeiros iniciados nos tornamos ao termo desse caminho, e no final da visita à cidade perdida, suas lembranças muito longe estarão de ter sido de um simples e despretensioso passeio de um domingo ensolarado. Ensolarada estará nossas vidas depois daquele iniciático solstício...


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

domingo, 10 de maio de 2015










CARTA EXTRAVIADA




                            Uma conversa tão adiada quanto esta; de tantos assuntos pendentes e de tantos fatos desconhecidos mutuamente, certamente deveria se iniciar por amenidades. Como estaria o tempo aí onde te encontras? Pelo que imagino do sol refletido em teu aberto sorriso, não duvido tenha estado firme e límpido por todos estes anos. Aqui a coisas foram mais enevoadas, cheias de alternâncias. Às vezes boas, outras nem tanto. Até lamento dizer, mas os momentos difíceis foram maioria. Bem... mas falemos primeiro das amenidades. Se tivesses a curiosidade de reaver nosso país, acharia tudo por aqui mudado; as coisas mais modernas, as pessoas melhor vestidas; as cidades mais apinhadas de gente. Mas seria pura ilusão. Na verdade tudo continua exatamente igual. O ano somente começa depois do carnaval, que continua sendo exatamente como sempre foi: cheio de pessoas vazias, exultantes de transbordante alegria de nada; céticos crentes de que deve festejar enquanto razão suficiente de viver, em embriagante esquecimento de todas as coisas e de todos os valores que realmente pesam. Ah, também pulei meus carnavais, e embora não me arrependa deles, também não lhes nutro saudade. Também todos os anos há a mesma comoção no futebol. Os mesmo times se engalfinham em campo, os mesmos idiotas se matam nas arquibancadas. A diferença é que agora acho que eles se matam de verdade. A violência urbana continua crescendo. Os personagens da política são outros, bem diferentes dos que conhecestes, mas os discursos mentirosos continuam os de sempre. Claro, temos uma mulher na presidência, que ante tua tez feminista me parecerá ser motivo de orgulho pessoal a ti. Parabéns, então, pois alguém do teu cioso gênero chegou ao poder por aqui. Por aí terá havido algo semelhante? Participastes neste movimento? Pergunto até como meio de me perquirir de que te ocupas por aí. Se deixastes todos os que amas aqui, então haverás de ter tempo para atividades extraordinárias, uma ocupação habitual que te serviria não somente de sustento, mas sobretudo de amparo emocional. Ou terias encontrado algum amor por aí? Afinal já fazem tantos anos. Claro, claro! Voltemos às amenidades, pois compreendo que os assuntos que realmente nos movem à corresponder-nos deverão ficar para pouco depois. Sei que é mais fácil assim.
                            Certo dia fui ao cinema. Sozinho, como é do meu costume. O enredo do filme não me lembro bem, mas sei que falava sobre o amor, este tema que tem de estar presente em todas as formas de criação humana, em todos os momentos das nossas vidas, em todos os nossos níveis de relação. Esse amor, enfim, que é o combustível que move o mundo conhecido e desconhecido. Pois foi diante desse sublime sentimento que me lembrei repentinamente de ti. Senti saudades, claro. Porém, ainda mais que isso, senti uma necessidade quase física de ter a ti ao meu lado; de segurar tua mão; por minha cabeça sob o teu ombro; de dizer que desde que partiste, ninguém mais pus em teu lugar. Não que a vida não me tenha oferecido outras companhias, porque de fato reneguei muitas oportunidades, mas por fiel e zeloso amor, persisti sozinho, alimentando a inarredável certeza de que haveríamos ainda de nos avistar um dia. Por todos os dias da minha vida alimentei esta certeza e assim será até o fim. Mas especialmente neste dia em que fui ao cinema, a necessidade de ti foi maior que a de todos os outros dias. Foi algo tão forte, que tive vontade de chorar; espernear; gritar em plena sessão quanta falta sentia de ti; tive o desejo de praguejar a Deus, por permitir tamanho sofrimento. Porém, como sempre, reservei-me ao silêncio, discretamente limpei as lágrimas, respirei fundo por várias vezes e ao final da exibição ninguém foi capaz de perceber absolutamente nada. Saiba, contudo, que não sou dado a estas exteriorizações. Busco reservar o sofrimento e a angústia dentro do meu silêncio. É ao mesmo tempo uma forma de tentar sofrer menos e também reservar este sentimento (para mim tão sublime) exclusivo teu. Perceba, logo, quão especial foi aquele dia no cinema. Na época do acontecimento estavam se passando coisas pavorosas em minha vida, nem sei se devo dizê-las. Mas, já que toquei no assunto, é porque quero revelá-las. Farei-o aos pouco, no entanto se a conveniência se apresentar. Estava solitário na época. Extremamente solitário, como penso jamais haver estado antes. Solitário, porém não sozinho, veja quanto paradoxal se apresenta a vida tantas vezes. Haviam até alguns do teu tempo, a quem sei, também dedicastes teu amor. Mesmo eles, no entanto, não me serviram de amparo. Sim. Eu os denuncio a todos, e conforme corra a inspiração da pena, quiçá até não lhes conte os pecados. Mas é sobre mim que quero falar. Da minha extrema solidão. Solidão tão abismática aquela, que de todas as pessoas do mundo, somente tu poderias me salvar dela. Depois de sair do cinema, iniciei passeio pelos corredores do shopping me pondo a imaginar que estavas ao meu lado. De que lojas gostarias? Que produtos te chamariam atenção? Que conversas entabularias? Será que gostarias da novela da moda? Ah, tinha que te fazer correr ao meu lado as prateleiras daquela grande livraria, disso não abriria mão, afinal ali encontrarias títulos imperdíveis! Mas então pus-me a perguntar se tu realmente gostarias de ler... não saberia a resposta... como não saberia qual tua cor preferida... qual teu estilo de roupa... qual ator de cinema a ti pareceria o mais belo... teu prato preferido... que bijouterias te apeteceriam mais... enfim, pus-me a questionar quão pouco te conhecia, e passados já tão longos anos, quanto menos te conheço no presente. Antes de tudo assim é para uma desconhecida que escrevo, assim como era uma desconhecida aquela personagem imaginária que corria as lojas comigo àquele dia. Ainda assim, não posso duvidar do amor que nutro. Que estranha essa sensação. Simplesmente inexplicável! Mas é assim o que sinto.
                            Tudo bem... não fujamos ao enredo e voltemos às amenidades. Perdoe o carrego dos sentimentos. Não quero, afinal, que esta carta te pareça piegas. Seria como uma morte que esta impressão te alimentasse. Contudo, hás de perdoar-me por simplesmente não deletar o parágrafo pretérito. Mesmo que posto fora de lugar, no momento da nossa conversa onde supostamente estaríamos ainda estreitando a reaproximação, logo, onde não se comportariam exageros dos tipos mesmo que cometi, ainda assim ali as deixarei incólumes, porque me seria impossível redizê-las em parágrafos futuros. O que escapuliu foi espontâneo demais para poder ser repetido. Mas tudo bem... tentarei retomar as amenidades. Para isto, talvez fosse útil falar do cotidiano depois de tua partida. O país modificou-se bastante, já te disse. Mas eu e todos aqueles com quem convivias mudaram muito mais ainda. Fizeste mal em não ter mais dado notícias. Ainda assim, houve uma certa noite que sonhei contigo. Lembro-me perfeitamente de tuas palavras, teus gestos, teu sorriso e teu olhar. Foi algo tão marcante que não posso qualificá-lo de mero fenômeno onírico. Não. Aquilo foi a mais pura realidade. Algo muito distante de um simples sonho. Logo, presumo que também tenhas consciência desta passagem e que aquela tenha sido tua singela maneira de alimentar-me de esperanças. Por isto exatamente jamais desisti de ti. És rara demais para isto. Aqueles que deixastes inocentes cresceram, como não poderia ser diferente. Porém, cresceram mau, cheios de necessidades não supridas, dores irreveladas, humilhações não defendidas, escárnios engolidos a seco, e tantas mais provações. Não fosse meu incondicional amor, à vista de tantos sofrimentos, até acusar-te-ia de omissão, por silentemente haver permitido tamanho degredo de almas, até então tão bondosas. Mas sei de teus sentimentos e por isto perdoo incondicionalmente qualquer falta que tenhas praticado, tanto quanto pretendo que perdoes as minhas, que afinal não foram tão poucas. Independente de culpas, o fato é que tua partida os tornou frios, secos, insensíveis às dores dos próximos, incapazes de ajudar a outrem, senão por razões egoísticas. Tento perdoá-los. Juro. Ao mesmo tempo que diuturnamente luto bravamente para não me tornar igual a eles. Às vezes sinto que estou ganhando a batalha, sempre árdua, e concebo a possibilidade de a vontade suplantar o trauma; a vibração se sobrepor à fria realidade. Mas nem sempre é assim. O fato é que tua partida deixou feridas nada fáceis de cicatrizar. Pois que esta epístola nos sirva a todos de bálsamo, é o que desejo.
                            Me repreenderás novamente, sei, porque teimo em fugir das amenidades. É irresistível para mim não agir assim. Perdoe, mas mesmo tendo cuidadosamente traçado os caminhos da aproximação, alimentando os indispensáveis cuidados para não cair no sentimentalismo barato, nem muito menos pretendendo te levantar qualquer libelo, coisa que somente nos afastaria, teimo em adentrar de vez nas razões verdadeiras destas linhas. Não te magoes se assim faço. Como disse, é algo irresistível. Quantos bites de informações já não emprenhei neste documento digital, que por simples tradição ainda chamamos de carta, sem que tenha enfocado a essência desta correspondência? Então, penso, seja melhor abandonar o plano original e ir direto ao assunto. Espero que consintas. Falando em bites de informações, percebo que estas maquininhas engraçadas, cada vez menores e mais potentes simplesmente não existiam no tempo em que partiste. Se esta carta fosse escrita nas pretéritas condições, o seria a mão ou à máquina de datilografia. Se assim fosse, já haveria de ter rasgado bastante folhas de papel nesta difícil empreitada de abrir meu coração a quem hoje me é uma estranha. Naqueles idos até houve uma ocasião em que escrevi tal carta. Jamais a enviei a ti, como afinal de contas não sei bem se enviarei a presente. Antes de por timidez, porque temo severamente qual seria tua reação. Ponho-me a imaginar a ti, hoje já uma senhora, de ar grave, abrindo a epístola, pondo os óculos de leitura, lendo com ar grave o conteúdo da mesma. Neste ponto, tenho dúvidas sobre como colocar em funcionamento minha imaginação, se pondo-te a chorar, a sorrir ou a meditar serenamente. Se a opção for pelo choro, se esse choro seria compulsivo ou cândido. Opto pela candura, porque é a lembrança mais certa que tenho de ti: a da candura nas ações, mas sobretudo no olhar. Enxergo assim na tela mental da imaginação teus olhos voltados para o vazio, refletindo serenamente sobre tudo o que aqui te digo. Serena, como é essa lembrança que o tempo não apagou de ti. O resultado de tuas reflexões, prefiro não imaginar, deixando-os a teu prudente juízo. Rogo, contudo, que peses o sofrimento, a angústia e o tamanho do desespero que me legaste com tua partida, e logo sejas parcimoniosa, mas não injusta, ao sentenciar estes meus pobres e desgastados sentimentos, ainda plenamente humanos, contudo. A meu favor, revelo que mutei a dor da despedida em coragem para lutar contra esta desterrante vida de agruras e martírios. Com tal bravura venci muitas batalhas. Em teu honor, quis ser grande e em tua memória travei duelos quase suicidas. Antes de por qualquer outro motivo que te possam apontar, confesso aqui sem temor algum que o mote de tão desdenhosas ações foi a esperança de que algum dia regressastes e pessoalmente testemunhasses a vitória que teria sido capaz de construir a partir da ausência e da saudade. Queria que tivesses orgulho da minha capacidade, mas também provar que a grandeza se constrói da dor. Foi a ti, confesso, a quem dediquei todas as minhas vitórias. Das pequenas e irrisórias às grandiosas e inimagináveis. Sempre foram para teu pessoal deleite que lutei. Sem este mote, é certo que não haveria sequer lutado.
                            Mas houve também o desterro. Se muitas dificuldades foram vencidas, outras tantos, no entanto, não. E as derrotas foram ainda mais amargas pela tua ausência. A verdade é que se te fiz presente nos momentos felizes, te acusei a triste ausência nos amargores da existência. Se te cantei no sorriso, te chorei na dor. Se de ti lembrei na alegria, de ti não consegui me esquecer no sofrimento. Tal qual naquela tarde do cinema, em todas as vezes que enfrentei a solidão e o padecimento (e percebas que não foram poucas) foi em tua ausência real, que a todo custo quis transmutar em uma presença imaginária, que me apeguei como a única tábua de salvação da esperança. Agora mesmo, convalescente como estou, sozinho como os teus me deixaram, é ainda em ti que me apego não somente como companhia, mas sobretudo enquanto motivo para desejar viver. Porque se não sou grande ainda; se não fui capaz de te legar a homenagem da minha vitória, logo é porque preciso continuar vivendo até o dia em que a tua inspiração seja capaz de me legar esta suprema superação, pois que será a ti a quem dedicarei o opúsculo de minha pobre existência. No epitáfio de meu túmulo pretendo mandar gravar algo mais ou menos assim: Foi por um instante somente. Fugaz e descuidado. Mas foi porque, quando nasci, o bebê que eu era não poderia compreender que seria a primeira e talvez última vez que poderia mirar aqueles olhos verdes de cândido encanto, já mortos, mais ainda assim transbordantes de amor, com o qual se alimentou pelo resto da sua existência. Pois que é a ti, mãe, a quem dedico o pobre livro de minha vida.

                          Não sei bem a que endereço enviar-te esta carta. Onde te encontras, se existe, desconheço a direção. Pois então, na esperança de te encontrar, envio, como faziam os antigos marujos, a epístola guarnecida em uma garrafa que será lançada ao mar. Também postarei na internet e, quem sabe até, faça publicar em algum livro estas palavras de amor, saudades, mas também de esperança.

sexta-feira, 13 de março de 2015


FUTUROS PARALELOS

                   Aconteceu naquele dia, como poderia ter acontecido em qualquer dia pretérito ou futuro de sua existência. Mas foi naquele momento preciso que as condições cósmicas e pessoais se conjugaram fazendo surgir em sua frente, de desopino, sem qualquer aviso prévio, sem nenhum sinal de que seria naquele instante. Simplesmente, diante de si surgiu a encruzilhada quântica de dois futuros paralelos e antagônicos entre si.
                   De um lado a vida mansa e certa, perene de um cotidiano que de tão repetitivo pareceria uma verdadeira eternidade. Acordar cedo, com o sol ainda escondido pela antecedência da aurora, já iminente, correr à padaria, comprar quitutes, voltar para casa, preparar o café da manhã, iniciar o trabalho já mecânico pela repetição, parar para o almoço, dormir a rápida sesta, seguir para novo expediente de trabalho, retornar à casa, tomar o merecido banho, cear a merecida refeição e gozar do merecido descanso até a hora pontual da chegada do sono, para mais uma serena e brilhante noite de regozijados sonhos, para tudo exatamente igual repetir por anos e décadas seguidos, até que a justa e bondosa morte o alcançasse em sua já cansada monotonia. Aquele futuro seria apaziguante, calmo, sem desacertos e imprevistos, regalado por uma bela mulher e carinhosos filhos que o acompanhariam até a última hora, chorosos e firmemente segurando suas mãos, quando diriam que, mesmo pesadas as saudades, tudo teria valido à pena pela simples graça de tê-lo acompanhado na existência. Uma vida perfeita, apesar de passada no âmago das incertezas da matéria.
                   De outro lado um turbilhão de experiências e aprendizados, uma busca quase insana à procura do sentido da vida, da razão das coisas e dos motivos da existência. Uma nova vivência a cada instante de existência, a cumulação de conhecimentos e da matéria à cata do conteúdo último de todos os saberes, na esperança, na maioria das vezes tênue, de que tal saber seria a chave da verdadeira felicidade. Busca de tal quilate, verificou, não era para muitos, pois como tudo na vida há um preço para a ciência das coisas. O sofrimento, a dor, a incompreensão e por fim a solidão seriam o valor cobrado. Verificou o quanto é dorido buscar a verdade e que este caminho necessariamente conduz à injustiça e à incompreensão. Compreender que no mundo da matéria não há jamais estabilidade, que esta é uma pueril ilusão alimentada pelos tolos e que leva ao sentimento de solidão com relação ao mundo, que na verdade significa uma consciência do estado de solitude em que vivem todos os humanos. Ao termo dessa existência estaria sozinho, isolado e mal avaliado por seus pares, porém seria um sábio. Como seria cônscio de sua posição ante as coisas do mundo visível e invisível, na hora final de sua existência não se auto apiedaria nem alimentaria qualquer sentimento de arrependimento. A solidão mesma que se lhe apresentaria seria também relativa e ilusória pois se auspiciaria do auxílio de invisíveis mestres. Não teria, porém, em sua companhia aquela terna mulher e aqueles adorados filhos e por isso precisamente sua memória seria legada ao infinito esquecimento.
                   Sabia que teria pouco tempo para avaliar e escolher por quais dos portais iria enveredar, assim como que a decisão haveria de ser irretratável. Não mais teria aquela oportunidade na existência. Logo, apesar de apressada, sua decisão deveria ser muito bem pesada e medida. A estabilidade do primeiro futuro lhe agradava, porque é para livrar-nos dos sofrimentos que vivemos; é para o mesmo propósito que acumulamos ao longo da existência as experiências. O que elas em última instância nos instruem é para buscarmos sempre o caminho melhor pavimentado, mais largo, iluminado e reto, pois são nas íngremes curvas da caminhada; nas pedras que se espalham por seu percurso e nos descaminhos e obscuridades que aparecem onde encontramos o sofrimento. Gozar sem dores as excelências da existência significa uma vida perfeita e feliz.
                   A consciência das coisas é que produz a infelicidade. Compreender as injustiças do mundo, as dores que alimentam a alma, as limitações tanto da matéria quanto do caráter humano é a principal fonte da infelicidade. Saber que existe a fome, que há a enfermidade e que a fortuna de poucos é construída desde a sofreguidão de muitos extirpa qualquer esperança de um mundo harmonioso e feliz. Não basta construir a felicidade própria, egoísta, privada. O destino de uma alma deverá ser compartilhado por todos e a única forma de reparar esta ausência de equidade é através do conhecimento, pois é ele que adequadamente informa a respeito de o que há a reparar e do que se precisa construir.
                   A felicidade deve ser um sentimento coletivo, para ser plena e verdadeira. Tudo o mais é egoísmo ilusório e vão.
                   Mas na hora derradeira, caso viesse a enveredar pelo futuro da sabedoria, seria triste, fria e longa. Não teria aquele apalpar na sua mão, firme e amoroso; não existiria as lágrimas de saudades nem uma descendência a lhe homenagear a memória; não haveria o calor do amor fraterno e incondicional dos amigos. E isso, nas horas de desprazer da existência é mais valioso que a pedra filosofal ou o elixir da longa vida, busca perpétua de todos os sábios alquimistas de agora e de alhures. Uma felicidade privada, ensimesmada ou uma consciência solitária, triste e desiludida de que se é impotente diante da grandeza do Universo...
                   Se enveredasse pelo futuro de paz e regozijo, no tempo da doença que lhe encerraria a existência, além do afeto familiar, seria regado pela atenção de complacentes médicos, a alimentar sua esperança na cura e na longevidade. Se escolhesse o futuro da sabedoria, não teria fé nos médicos, pois seus conhecimentos o informariam do quanto é relativo seus saberes; que a doença é antes de tudo o reflexo do estado da alma, que interagindo com a matéria compromete os órgãos e sistemas do corpo humano; que cada pessoa sofre de uma doença única e exclusiva, proveniente de fontes imateriais; que os remédios zelosamente administrados pelos médicos mais comprometem que ajudam na cura do doente; que a verdadeira cura é a espiritual. Mas de que valeria tanto conhecimento, se diante do desânimo da enfermidade a única coisa que se pretende de verdade é alimentar a esperança na tecnologia clínica e a fé na Onipotência Divina?
                   Lhe pareceu que talvez a busca verdadeira da humanidade não seja pela sabedoria, pelo conhecimento efetivo das coisas; mas a da esperança de realizar o que racionalmente seria impossível. O homem médio, diante da mesma encruzilhada, sem dúvidas preferiria o caminho da ilusão, porque mesmo que relativo e falacioso, o sentimento de paz, felicidade e completude que alimentaria na vida de regozijos seria tão realístico quanto se de fato fosse completo e realista. Não se importaria em se estar enganado, mas na fé que alimentaria na força da ilusão. Para ele, contudo, a consciência de o quanto poderia aprender da verdade; crescer em si mesmo e a simples alegria que sentiria em contemplar a verdadeira face do Universo e seu Criador seria suficiente recompensa para as dificuldades que a procura lhe impingiria. Mas seguia preso em sua consciência a revelação de que o segundo caminho o privaria do aperto de mão e das lágrimas amorosa dos que, mesmo antes de conhecer, já sentia tanto bem.
                   Não seria possível um caminho do meio; uma terceira via, que conciliasse a busca da sabedoria com o amor da família. Àquilo não teria direito. Haviam apenas dois caminhos possíveis e o tempo da reflexão já se tinha esgotado. Era preciso dar o passo seguinte, de imediato.
                   Deu um suspiro, cerrou os olhos. Em sua mente ultimou as derradeiras reflexões e inconcebivelmente decidiu que um futuro certo, inequívoco, inevitável e sabido de antemão não lhe aprazaria jamais, fosse ele um futuro de prazeres e paz com os outros, consigo mesmo e com todo o Universo; fosse ele frenético, de grandes conquistas e inconvenientes preços, mesmo que lhe revelasse a misteriosa verdade pretendida por todas as gerações humanas que o precederam. A graça e o sentido da vida está exatamente na incerteza do porvir, na possibilidade do fracasso e na esperança do sucesso. Não importa propriamente as coisas que venham a ser conquistadas pela luta do cotidiano, porque o verdadeiro valor se encontra na humana e tênue pretensão da incerta conquista. A incerteza, em si, é o valor da vitória. Então, para que enveredar seja por um caminho, seja pelo outro, se em ambos já estariam pré-determinadas as veredas e conquistas que alcançaria?
                   Logo, não era por nenhum dos caminhos que trilharia. Diante da inarredável certeza do que lhe ocorreria no futuro, a atitude mais digna que poderia ter seria preferir a morte imediata.

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto.

quarta-feira, 4 de março de 2015


A CAIXA PRETA DO PODER JUDICIÁRIO

                   É algo esdrúxulo ao senso comum que um magistrado, após haver no bojo da sua potestade de império, apreendido bens de um réu, utilizá-los para uso privado, como aconteceu no conhecido caso do Juiz Federal que foi flagrado dirigindo o possante auto de luxo do empresário Eike Batista. O caso em questão ganhou repercussão nacional exclusivamente porque o réu se trata de pessoa famosa e encontra-se assistido por renomado e diligente causídico. O que de fato frustra a sociedade brasileira, entretanto, é verificar que abusos praticados por magistrados são bem mais comuns e corriqueiros que o estapafúrdio exemplo divulgado pela imprensa.
                   Todos os dias, nos fóruns desse país, nossos magistrados, incumbidos Constitucionalmente de distribuir a justiça dando a cada um o que lhe pertenceria por direito, praticam absurdos atos claramente constituídos como exemplos de abuso de poder, improbidade administrativa e crimes das mais diversas ordens. Há réus que não conhecem os fatos que se lhe imputam, pois seus processos encontram-se acobertados por abusivo segredo de justiça, como se o processo penal não devesse ser público por natureza e como se aos advogados não fosse assegurado por lei federal a consulta aos respectivos autos dos processos crimes. Há exemplo de juízes que useira e vezeiramente praticam contravenções penais, afetos que são a rinhas e outros ilícitos, e o fazem sob o cúmplice silêncio de seus colegas magistrados e os membros do Ministério Público, seus colegas, que pela força do corporativismo fingem nada ver; nada saber. Existem inúmeros exemplos de juízes que praticam atos de corrupção, para em troca de favores ilícitos garantirem a impunidade de infratores das mais diversas ordens e ainda mais outros tantos de irregularidades são cotidianamente praticados nos luxuosos palácios que, ao revés, deveriam praticar equitativamente a mais lídima das justiças.
                   Na condição de seres humanos, que rinhosamente evitam em se reconhecer, os magistrados estão sujeitos a todas as fraquezas próprias da nossa espécie. Não é absurdo presumir-se que os juízes, assim como todos os agentes públicos desse país, encontram-se sujeitos às mesmas tentações de todos os outros e por isso são passíveis de praticar atos de corrupção e outros delitos do gênero. O que não se suporta é o energúmeno corporativismo praticado pelos seus colegas, que quando simplesmente não se calam, transmudando-se em cúmplices pela omissão, são absolutamente letárgicos na apuração e punição dos ilícitos. O juiz do caso Eike Batista foi afastado por suspeição da presidência do feito, porém não foi preso em flagrante por crime de peculato e muito menos denunciado pelo Ministério Público por esta ou qualquer outra infração penal. O costume forjado pelos casos precedentes é que quando os magistrados cometem faltas gravíssimas são severamente punidos pelos Tribunais respectivos com rigorosa pena de aposentadoria compulsória, mas raríssimamente são presos ou mesmo por outras formas apenados. Dessa forma o Poder Judiciário nos ensina que o crime compensa sim, mas somente quando praticado por altas autoridades, revestidas pelo sagrado mando do foro privilegiado. Enquanto isso, esses mesmos magistrados superlotam os nossos presídios, condenando com rigidez milhares de ladrões de galinhas e pequenos traficantes, coincidentemente todos pobres e alijados de serem defendidos pelos grandes e ricos escritórios de advocacia criminal.
                   É preciso se praticar uma séria faxina nas dependências do Poder Judiciário brasileiro, a começar pelo reconhecimento pelos Tribunais de que seus juízes são agentes públicos, passivos de cometer não apenas crimes próprios e impróprios contra a administração pública, como também atos de improbidade administrativa; bem como que o Judiciário somente possuirá a independência e autoridade moral imprescindíveis à moralização dos demais poderes da República, quando ele mesmo houver extirpado de seus quadros os maus exemplos que pululam de suas próprias fileiras. Não basta mudar a lei, como é a pretensão do novo Código de Processo Civil. É preciso, antes, mudarem os nossos juízes.


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

domingo, 1 de fevereiro de 2015


NUM LONGÍNQUO ANO DO PASSADO - CONTO

                   Aconteceu no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1983 que aquele garboso capitão do exército brasileiro, em plena forma física e psicológica; que já àquele quase esquecido tempo já se glorificava da boa forma física, dos bons hábitos alimentares e do rigoroso programa de educação física ao qual se submetia. Embora pertencesse ao glorioso exército, cuidava de algo a mais que da forma física e dos assuntos políticos que emprenhavam os quarteis naqueles idos. Gostava de ler e foi nessas empreitadas quase clandestinas pelo universo literário, das quais fazia questão de não dar contas a seus companheiros de farda, fossem os subordinados, fossem os superiores, que descobriu a idílica visão grega a respeito de saúde e por onde se deparou com o inusual conceito de dieta, que seria mais que a prescrição de certos hábitos alimentares, mas também de exercícios do corpo e da mente. Era para manter a higidez mental que lia assim como era para manter a saúde física que se exercitava.
                   Diariamente vinha à praia praticar no já então movimentado calçadão da praia de Boa Viagem sua cota diária de exercícios, momento que aproveitava para deleitar-se dos mínimos trajes das frequentadoras do local e até mesmo tentar construir novas amizades. Sempre que cruzava com alguém que lhe parecesse interessante incontinente puxava conversa, querendo saber onde morava, com que frequência visitava aquele lugar e impreterivelmente tentava impressionar sua interlocutora com seus conceitos a respeito da saúde e do bem estar. Isso, num tempo em que o conceito de beleza sediado na boa forma física começava a entrar em moda sempre chamava a atenção das mulheres, ávidas incansavelmente pelo atingimento da beleza perfeita.
                   Só depois de cultivar seu ego, voltava para seu simpático apartamento na orla para treinar um pouco suas capacidades mentais. Fazia a higiene, comia adequadamente e se dedicava pelo menos por duas horas aos livros que tanto o impressionavam. Desde as valiosas lições que aprendera na caserna, era extremamente rígido na seleção de suas leituras, excluindo de sua meticulosa lista todos os autores que manifestassem a mínima que fosse das ideias comunistas. Esse método o privou na verdade de muitas leituras essenciais na visão de mundo moderna. Jamais leu Kundera, Foucault, Zola e mesmo autores nacionais como Amado. Preferia as obras clássicas, de um tempo em que o comunismo não havia sido inventado pelo caquético Marx. Ah, como odiava os comunistas e seus terríveis feitos, que obrigaram os milicos brasileiros a saírem de seus confortáveis postos de comando para pôr ordem nessa desgraçada nação, obrigando-os ainda a reagir com violência diante dos nefastos atos terroristas praticados depois da gloriosa revolução de março de 1964.
                   Acompanhava com interesse o desdobramento das perigosas ideias de redemocratização que enuviavam toda a nação. Que perigo seria se o Brasil fosse irresponsavelmente entregue àquele bando de barbudos comunas de ideais deslocadas e quase suicidas, muitos dos quais já haviam aparecido na televisão, um ano antes daqueles dias, na campanha para governador dos Estados. Compreendia que tudo aquilo fora uma permissão indesejável feita pelo comando da nação, que porém logo, logo retrocederia. Os militares no poder eram o verdadeiro sinônimo de ordem e progresso, símbolo último da nossa pátria. Os ideais positivistas não seriam derrotados pelas anárquicas ideias dos subversivos. Logo, acreditava que as coisas retornariam a ser como antes, sem eleições e sem badernas nas ruas. Piamente acreditava que aquele era somente um mau momento, um instante de fraqueza do comando militar e nada além.
                   Por isso era melhor cuidar do que lhe parecia serem os verdadeiros problemas, que seriam suas conquistas amorosas. Como se poupara da leitura das obras que o poriam a par dos intricados movimentos da  dialética, não compreendia que a história é um caminhar para a frente; que nesse processo não existem retrocessos; nem muito menos que as concessões do governo eram consequência de sua falta de força e não de equívocos. As engrenagens da história já haviam sido postas em movimento e agora era absolutamente impossível a qualquer que fosse barra-la. Seria para ele um absurdo completo imaginar que aquele repugnante barbudo que comandara uma série de greves em São Paulo alguns anos antes; que para ele merecia ser amansado ao velho estilo do pau de arara, ainda seria eleito, aclamado e reconhecido como o Presidente do Brasil. Para ele, felizmente as coisas aconteceram aos poucos, mudando paulatinamente ano a ano, de maneira que pôde com o tempo se acostumar, ou talvez apenas aceitar com reservas aquela esdrúxula ideia de ver as forças armadas batendo continência a um pueril operário, que nem formação superior possuía. A qualquer interlocutor que acaso o abordasse naquele esquecido ano de 1983, diria com absoluta veemência e convicção que seria impossível algo como aquilo vir a acontecer no Brasil em qualquer tempo que fosse. Sobretudo, porque confiava na competência das elites nacionais.
                   Então melhor mesmo seria se dedicar às mulheres, cada vez mais belas na exata medida em que melhor se dedicavam ao cuidado com o corpo, mais desenvoltas se tornavam nas práticas sexuais, havendo abandonado definitivamente o tabu da virgindade. Foi das suculências da carne do que tratou em todos os anos seguintes, conhecendo mais e mais mulheres que cada vez se tornavam mais libertinas, selvagens e animalescas. A carreira era algo burocrático, do que precisava cuidar apenas como meio de subsistência. Mal percebeu as profundas mudanças que se deram nas casernas. Aos poucos foram sendo evitadas as conversas a respeito de política, os milicos cada vez mais foram se excluindo da vida nacional até que compreendeu que havia mesmo era uma espécie de vergonha em pertencer às forças armadas. Os civis no poder traíram a confiança dos salvadores da pátria e então a memória da revolução que salvou o país dos comunistas foi sendo substituída pela dos torturadores que usurparam o poder; que mataram friamente parlamentares, jornalistas e cidadãos comuns. Indenizações foram pagas às vítimas que antes eram o terrível e subversivo inimigo, até que resolveram falar de uma tal comissão da verdade, que cuidou de denigrir ainda mais a imagem dos que no ano de 1983 eram a síntese do poder, do desenvolvimento e da ordem nacional.
                   Ainda naquele tempo gostava de sair na rua de farda mesmo quando não estava de serviço, exibindo seu orgulho de pertencer ao que lhe pareciam ser a mais inevitável das verdades: somente a ordem das casernas; apenas o poder organizado e hierarquizado poderia conduzir ao verdadeiro progresso. Coisa atingível apenas pela organização militar. Mais de trinta anos passados, já com poucos cabelos pousados sobre o couro cabeludo, quase todos alvejados pela idade; novamente passeando pelo calçadão da mesma praia, mas agora bem diferente não somente pelas seguidas reformas que ali fizeram sucessivos governos civis, como também pelo preocupante avanço do oceano Atlântico sobre a orla local; ali, naquele mesmo lugar onde antes desejou todas as mulheres formosas que lhe cruzassem; onde de tantas delas lhes fez suas amantes, já não tinha mais orgulho algum da farda que ostentou, porque o tempo lhe corroera o viço da juventude; os músculos típicos da boa forma que apresentava, mas também a própria juventude se fora. As mulheres já não olhavam com interesse para ele, muito embora fossem ainda mais bonitas que naquele longínquo tempo que lhe voltara à memória nesse dia do presente.
                   Somente agora, já vencido pelos anos; já alcançado pela velhice; já desiludido pelas quimeras se dera conta de que todas as decisões que tomou foram erradas; o conduziram à solidão tormentosa do presente; o relegaram ao esquecimento, mas ao pior deles, que é o esquecimento ainda em vida. Bem poderia ter se valido da viçosa juventude; da invejável forma física para se permitir relacionar de verdade com uma mulher, qualquer delas das talvez centenas que conhecera, fazendo-a de sua companheira e quiçá cuidadora e amiga da velhice. Poderia ter se permitido ler livros outros, que tratassem de ideias diversas das que estreitamente se permitia estudar, e quem sabe assim seria capaz de entender algo desse inóspito mundo que à sua revelia lhe chegara ao presente; um mundo estranho e temeroso, onde a sexualidade é livre, onde a censura não existe e no qual a velhice não é premiada como reconhecimento da sabedoria e do respeito dos mais jovens; onde a sua condição de idoso era somente um fardo, sem qualquer bônus que o acompanhe. Poderia ainda ter respeitado o diferente e o novo, antevendo que os oprimidos do presente serão os poderosos do futuro, e talvez assim pudesse ver beleza e esperança em todas as coisas da política moderna.
                   Porém, fizera as escolhas erradas e por isso somente as únicas coisas que lhe restavam eram a saudade do passado e a desesperança do presente. A morte chega a ser um prêmio almejado face um estado d’alma de tamanho desalento...


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SOMOS TÃO JOVENS

                   Há algo que se espraia de mim, querendo sair das entranhas; que incomoda na passagem, forçando seu desiderato; que impõe ser revelado, publicizado, escancarado aos cantos do universo visível e invisível...                   Há algo dentro de mim, que se não for espraiado se transmudará em incerto mal; que oprime, mas que tem a potência de libertar. Esse algo é o sentimento humano de incompreensão das coisas do universo.
                   Mas e o que pretender de nós essas criaturas mesquinhas, egoístas e esquisitas, se do todo nada, ou quase nada sabemos? Somos curiosos, exploradores, criativos. No sentido mais próprio da palavra, somos buscadores. Mas tão míopes buscadores que sequer ao certo compreendemos o que buscamos, do que nos apraz os sentidos, qual o objetivo concreto a ser alcançado ao final da jornada.
                   Somos tão inseguros a respeito de nós mesmos que mesmo após tantos passos na jornada do conhecimento, sequer sabemos quem ou o que somos. Há tantas vertentes para a mais primitiva e simples das dúvidas humanas... Somos filhos das estrelas, de Deus ou fruto da fortuita colisão fundamental de nada com coisa alguma? Somos a própria Potência Divina ou mesquinhos e desprezíveis seres deslembrados no canto mais esquecido, dentre todos os cantos cósmicos?
                   Nada disso ou tudo isso somos... Mas com certeza há algo que de tão pujante em nós é evidente e inquestionável: somos sentimentos. Puro e complexo sentimento. A essência da nossa verdade e do nosso ser apenas encontraremos dentro dos sentimentos. Somos o ódio, a vaidade, a inveja e o ciúme, por certo. Mas também somos amor; o mais profundo, pujante, regozijante e puro amor. E por esse sentimento essencial tudo podemos definir a nosso próprio respeito. O amor que aprisiona é paixão; o amor que eleva é desapego; o amor sem retribuição é caridade; o amor que arde em chamas é ciúme; o amor que envaidece é cobiça; o amor que engrandece é humildade; o amor que desapega é renúncia; o amor que entristece é saudade; o amor que ameaça é rancor; o amor que se supera é determinação; e o amor que diminui... esse não é amor, mas verdadeiro desamor.
                   Diante do amor, todo o conhecimento do universo de nada valerá e em nada poderá engrandecer a humanidade. Somente o amor basta para nos completar e explicar, afinal o que somos de verdade são o ror de sentimentos que nos povoam. Mas é que somos tão jovens ante a eternidade da Criação, que nada disso poderemos ainda compreender...

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto