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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 


O CADERNO PETURRITO

(NOVELA)

 

                   Clarice contava já seus mais de quarenta anos naquela manhã de domingo triste e solitária em que, logo ao amanhecer, se pegou a refletir sobre o lugar em que sua vida a colocara, às vezes em desatenção, outras em consequência dos sonhos e caprichos a que se impusera pelas escolhas que fizera. No bom e no mau, concluía ela após bom tempo de contemplação ao vazio, tudo é consequência do que fazemos e, antes disso, do que pensamos. Na verdade, é através do pensamento sobre algo que aconteceu que damos significado a estas coisas e suas relações com o restando do mundo, este também fruto da interpretação moldada pelos nossos pensamentos. Sempre os pensamentos. Não seria então a própria realidade fruto do que pensamos, uma ilusão?

                   Ilusão ou não, compreendeu que já estivera ali naquele ócio contemplativo mais que o permitido à sua condição mulher trabalhadora, que tem que bater ponto, compromissos familiares e oferendas à ditadura da beleza e da eterna juventude, o que era outro item que encarecia mais ainda sua necessidade de provedora da sua pequena unidade familiar. Fazia falta não o dinheiro de outra renda, mas a companhia de vida, por mais que a desilusão da inexistência do príncipe encantado fizesse parte das certezas da colheita de vida, reflexão da qual acabava de despertar. Mas era preciso sair para a lida, pois era dia de plantão.

                   Levou pouco tempo para se assear, comer, maquiar e vestir. Logo já estava em pé do lado de fora de casa, olhando para a rua sem calçamento e toda barrenta e até meio alagada em partes depois da noite de fina e constante chuva que fizera. Ficou ali parada por alguns instantes calculando a rota que melhor a levaria até o cruzamento da próxima rua, onde tomaria o ônibus. Quase no meio dessa pequena travessia, reparou caído bem próximo a uma poça de água um caderno pequenino com uma caneta presa a ele entre as páginas centrais por sua tampa. A cor da capa era parda mas estranhamente sentiu como um brilho intenso envolvendo o caderninho. Se abaixou e pegou o caderno. Passou rapidamente suas páginas e reparou que estavam todas escritas por uma letra média bem desenhada, típico de quem treinou caligrafia quando criança. Pôs o caderno na bolsa grande que carregava e só se lembrou novamente dele quando já havia voltado do trabalho e já estava banhada, alimentada e pronta para a hora do dia que mais gostava, que era a de estar quieta em seu quarto, muitas vezes, no tédio, distraída com programas e vídeos e outras, menos frequentes, em que se permitia refletir sobre si mesma, suas dores, frustrações e sentimentos. Essas últimas eram sempre tristes e, com o tempo, estavam cada vez mais frequentes, a instigando a reconhecer que ao final desses tantos janeiros podia já concluir, com decepção, o fracasso que foram seus desejos e sonhos, especialmente porque lhe faltou o amor. Tinha que reconhecer a si mesma que foi o seu próprio egoísmo que a fez renunciar ao amor, porque se impusera a si mesma a certeza de que o amor era uma ilusão perigosa. Do amor que tivera aos outros só recebera a mentira e a desilusão.

                   Foi nesse instante que ao procurar algo na bolsa deu com o caderno e ficou curiosa para saber que haveria nele. Receitas, anotações de trabalho ou um diário íntimo? Um diário certamente não porque o caderno era tão pequenininho que não poderiam caber tantos segredos assim nele. Talvez, ponderou analisando a capa escura, sem anotações, que deveria ter talvez 10 por 5 centímetros. Não muito mais que isso. As páginas não estavam nem molhadas, nem borradas. Parecia até milagre ter estado tão próximo da água e se manter incólume assim. As páginas, afinal, não eram tão poucas assim, concluía Clarice após folheá-las reparando bem na letra uniforme e disciplinada que preenchia todas as suas folhas. A distribuição das letras bem desenhadas ao longo das páginas dava a impressão de ordem e senso. Era como a grafia convidasse à sua leitura. Ela não resistiu ao convite e se pôs a ler com atenção e em ordem o texto. Cada palavra a convidava a seguir de maneira que leu tudo de um só fôlego, quase sem paradas. O texto vai a seguir transcrito conforme consta do caderninho que até hoje ela guarda com a afeição que se devota às grandes relíquias.

 

 

Precisava contar essa história, mas não antes de haver encontrado algum caderninho pequeno. Tem que ser bem pequenininho mesmo porque essa história que tenho para contar também é bem pequeninha. Onde começa? Em um desejo sincero e puro: o de que há alguém que irei conhecer que antes de qualquer outra coisa seja uma amiga; em quem confie e com quem compartilhe importantes interesses. Alguém com quem a cumplicidade venha antes do sexo, mas que também possa se permitir entrega serena e confiante na carne e no espírito. Se o amor é Deus, o amor carnal também é. Alguém que acredite que esse também é o caminho para a iluminação. Se tudo é um, matéria e espírito são a mesma coisa. A diferença está no grau das vibrações. Novamente, se tudo é um, todos os níveis de vibração são, na essência, a mesma vibração.

Foi exatamente assim que desejei. Unilateralmente desejei.

Aí, vi alguém. E desejei que fosse exatamente o alguém que desejei unilateralmente. A questão, no fundo, está toda aí: na unilateralidade. Porque desejar unilateralmente, quase que indiferente ao restante do mundo, beira mesmo ao arbítrio. Daí a propensão ao fracasso dos desejos egoístas e unilaterais. Mas como, se até faz pouco tudo se resumia ao um; e o um, por sua própria natureza é unilateral?

Bom... talvez essa história seja curta porque o um, sempre unilateralmente, também seja curto. Mas a verdade é que, sendo unilateral, o meu querer não teve respaldo no querer desse outro alguém. O que vai e não vem é necessariamente algo curto, pequeno; quase necessariamente desimportante. Foi assim que desejei e desapercebidamente fui ignorado pelo desejo de quem desejei.

É essa a história que acabou desde o seu próprio começo, sem mesmo que nada tivesse ao menos intuído sua própria desimportância. Por isso nunca e jamais houve a menor chance de que essa história não fosse curta. Desimportantemente curta, aliás.

Mas é que mesmo esse curto, mínimo e desimportante caderno ainda assim consente deixar vazias páginas logo aqui mais adiante. E eis que a brancura das páginas logo aqui mais vindouras convidam a não deixar de desejar o que me coube em desejar, Mesmo que reduzido ao um, o unilateral.

Pois se não tenho uma resposta a replicar, dou poder ao meu desejo, a implicar por meu querer.

 

Vasculho as redes sociais na busca do alguém unilateralmente desejado, mas tudo o que encontro é um inóspito deserto. Profundo, silente e sem qualquer esperança de vida. Todas as cores e sons que desde lá emanam são ilusórios. As interações não emanam de pessoas reais, porque não são reais nem o produto da inteligência artificial, nem os sentimentos da minoria de pessoas que também vagueiam pelo deserto inóspito dos bits, circuitos, chips e telas, por mais sensíveis que as telas sejam.

Mas, no mundo de agora, não há mais vida fora da realidade digital, que por mais que se assemelhe a ela, realidade não é. Mas também, no mundo de agora, da mesma forma não há vida verdadeira dentro da realidade digital, que por isso mesmo segue não espelhando realidade alguma.

E assim, esta miúda história que conto, segue se findando no seu próprio começo. E as folhas do pequeno caderno, me parece, continuam se multiplicando. Com que palavras poderia prenhá-las se o fim dessa história já se instalou antes mesmo do seu começo?

 

Quando em vez, no meio do deserto de bits das redes sociais aparecem sinais. Seriam sinais de vida se vida houvesse nesse deserto de que falo. Nesses momentos de interações me apego ao desejo de algum começo que não o fim em si mesmo. Porém, o sentimento que é emanado através dos dedos rápidos de quem emite a mensagem nunca é o mesmo dos olhos de quem recebe e lê a mensagem, quase exatamente no mesmo instante em que é digitada.

Nas conversas presenciais se costuma dizer que alguém fala da boca para fora quando a pessoa a quem nos referimos não tem compromisso com a própria palavra. Analogicamente, poderia dizer que falam da tecla para fora. São assim as mensagens trocadas no mundo digital: palavras vazias e promessas sem compromisso.

E é assim que o deserto existente para fora de mim se aprofunda mais ainda. É a história que já acabou faz tempo sequer sem conseguir ter início.

 

Por detrás das tantas palavras pronunciadas ao longo do dia o que há de verdade é um grande silêncio. É que as palavras ditas não falam e quase escondem os sentimentos guardados lá no fundo de um quarto escuro existente dentro de mim mesmo, onde está a minha essência. O eu de verdade.

As palavras falam muitas coisas, mas não dizem do deserto que segue incólume a me rodear por dentro e por fora. A solidão, ela não dissipa nem nos momentos de convívio e troca de ideias e saberes. O que está lá, interagindo com os outros não sou eu na minha essência. Não é nada no sentido de falta de sinceridade ou mentira. É algo no sentido de jamais se revelar por inteiro. De existir algo que não é compartilhado com ninguém. Mas que ao mesmo tempo deseja, quase necessita se revelar. Não indistintamente, mas para aquela amiga tão unilateralmente desejada.

Aqui vem a lembrança de um dos primeiros poemas da criança que já fui escreveu já faz tempo antigo em minha memória. Diz assim:

 

Estou em casa esperando um fantasma chegar.

Mas ele não vem mais,

Ele esqueceu que eu existo.

 

Faz tempo que estou esperando essa amiga chegar. Isso ainda é do tempo em que ela era um fantasma.

Nesse deserto, parece mesmo que esqueceu que eu existo.

 

Para conseguir ir ao mais fundo de si mesmo, é necessário sair para fora de si. Na direção dos outros. É a conexão com o outro, através do amor incondicional e do servir que é a chave para o verdadeiro conhecimento de si mesmo.

É no ato de servir livre de qualquer pretensão que está o espelho fiel e perfeito de si mesmo. Esse verdadeiro encontro se dá em silêncio e com profundo senso de humildade. A potência de querer unilateral e arbitrariamente não anula que essa mesma potência deseje unilateralmente que a amiga a quem, enquanto um desejo, possa necessitar e se servir de todo bem e tudo o de bom que essa minha potência possa humildemente oferecer. E que nisso eu possua suficiente sabedoria para nesse servir enxergar a imagem mais fiel e completa de mim mesmo.

 

No universo efêmero de um reel vi um rosto de beleza singular e única, como singulares e únicas são todas as belezas. Tanto quanto a simetria da figura, a beleza também é questão de harmonia vibratória. Esse rosto de harmoniosas vibrações e simétrica beleza dizia algo importante ao mundo através do seu profundo olhar. Ele era triste, denunciante de cicatrizes e sofrimentos, mas também dizia de resiliência e fé. A fé, que a despeito de toda a dor, ainda consegue manter em parte a simetria das formas da criança que fora.

Aquele olhar forte, quase conseguindo ser indevassável, mesmo de poderosa resiliência ao mesmo tempo pedia ajuda; clamava por um ombro amigo e um ouvido atento. Não só me comoveu. Aquele olhar me convenceu não apenas da veracidade dele mas também de que eu poderia ser o ombro e o ouvido tão almejado. Para mim mesmo alimento a necessidade em servir, porque é somente através do servir que conseguimos enxergar a nós mesmos.

E, assim, abri completamente o meu coração diante do olhar profundo daquele rosto harmonioso e belo. Pronto para ouvir, para sentir e também para dar algo em troca. Talvez mesmo a doar um amor sincero, fiel e incondicional.

Foi tudo isso o que senti naqueles inefáveis segundos de exibição de um reel. Naqueles segundos, tudo o que existiu no mundo fomos eu, meus sentimentos e as verdades íntimas proferidas por aquele olhar infinito, naquele harmonioso rosto. Ambos em diálogo profundo, franco e construtivo.

Mas os segundos de um reel, mesmo quando inefáveis ainda assim são poucos e efêmeros; que em poucos instantes se desmancham no vazio do deserto multicolor e ilusórias formas das redes sociais. Por isso, creio, aquele rosto de profundo olhar nem percebeu o amor profundo e incondicional que tenho em mim para lhe dar. Tudo isso porque o efêmero da internet sempre tem um novo reel, com um novo rosto de um novo olhar para nos apresentar.

 

“Navegar é preciso; viver não é preciso”. Foi assim que o general Pompeu ofereceu a seus soldados temerosos a eminência da morte. Navegar, durante poderosa tempestade levaria os soldados ao afogamento durante a travessia ou à terrível batalha com o inimigo que já os esperava na praia. O carisma do romano era tão grande que os soldados foram, atravessaram a tempestade e venceram a batalha.

Afinal, de que vale o viver se não tivermos a coragem de nos entregar às tempestades da vida, em busca de alguma vitória na batalha da existência? Guerrear para quem, senão para a humanidade, no propósito impessoal para a evolução da humanidade de que fala Pessoa no seu misticismo da raça.

Já te desejei, é inevitável. Agora, só resta navegar a tempestade do desejo, na esperança de reencontrar a terra firme e no propósito da vitória do encontro com o desejo que tive. Singelo; sincero, mas unilateral.

 

A consciência do ciclo do viver assusta. Não há um caminho reto entre o nascer e o morrer, mas vários caminhos circulares que se sucedem. Ter consciência dos ciclos, sobretudo, permite compreender onde estamos no momento presente e o que se sucederá a seguir. A vida é, enfim, o eterno retorno.

Continuo não gostando da dor, mas tenho consciência tanto de suas razões como o que sucederia se houvesse conseguido ao que pretendia. A consciência da realidade cíclica das coisas ensina que é melhor sofrer a dor do agora, a da decepção do fracasso, que depois de haver prendido e descoberto as dores ainda maiores das consequências da tão querida conquista. O conquistar e o ter cobram preços muitas vezes insuportáveis.

Essa consciência, contudo, não depõem nem a dor do não ter nem a necessidade de ver preenchido este lugar (se é que se pode chamar de lugar ao que segue), em que a amizade verdadeira e a troca mais profunda se perfazem; onde a comunicação é plena e aberta, sem medos.

A dor é a própria falta disso, não a humilhação do fracasso e da recusa. Essa parte, é mais da conta de quem não quis; é autônomo exercício da liberdade plena a que chamamos livre arbítrio. O desejar em si não pode ser pecado.

 

Por que razões e por quais processos um desejo chega a se personalizar? Aparentemente, por um processo irracional e por razões insondáveis. Mas não. Tudo se dá por um motivo. O meu desejo, arbitrário e unilateral, é de empatia, cumplicidade e, sobretudo, de bondade.

Reconhecer o bem em outro, especialmente quando dirigido sem pretensão a mim, encanta, prende e faz nascer uma vontade quase insana de melhor conhecer e dividir a existência. Consciente de minha própria potência de também fazer o bem.

A bondade dessa outra pessoa, não sei se é efetiva, se ela é assim de fato ou se foi meu desejo que também projetou no que essa outra pessoa não é. Objetivamente, através dos sentidos físicos aliados à pura razão, não é possível descobrir a resposta.

Mas essa percepção, que nem mesmo sei se é verdadeira ou ilusória, fez nascer em mim uma necessidade incontrolável de aproximação com essa outra personalidade. Meu subconsciente e meu eu mais espiritual sabem algo que minha consciência objetiva é incapaz de conhecer. E avisam que é algo de profundo valor e raro. Por isso me colocam diante desse estado de necessidade urgente de alguém que tão pouco conheço e perigosamente necessito.

Será, então, que aquela história fadada a sequer iniciar teria enfim um começo, mesmo que algo assim tão etéreo, sem fatos nem diálogos específicos? Mas nem me preocupo em contar as páginas que ainda restam desse pequenino caderno, porque esse ínfimo começo convida a inevitável fim dentro de si mesmo.

Porque daí, o silêncio recíproco entre bondades e respeitos infinitos deixou sem sequência os desdobramentos do incontrolável desejo de conhecer e conviver com aquela bondade.

 

Como encontrar aquilo a que desejo, se o tal desejo é irrealizável nesse mundo?

A sensação é a de que não existe em matéria a pessoa que possua os interesses que mirei nela. Porque essas coisas a que almejo por sua própria natureza, precisam estar fora do grosso e cálido deserto que me rodeia.

Tudo o que eu puder encontrar neste deserto que brota, denso, fora de mim, necessariamente não será nem flores nem úmidas.

 

E o deserto, traiçoeiro que é, se apresenta cheio de miragens; ilusões apenas.

Relações superficiais como as únicas que esse deserto pode oferecer não serão nunca suficientes para o nível de interações que a intimidade verdadeira exige. Nesse deserto parece que as pessoas estão em vários lugares ao mesmo tempo, mas nunca em um só lugar de um mesmo tempo. É o mesmo que não estar em lugar nenhum de tempo algum.

Mas relações exigem a exclusividade de sentimentos.

E, com esta constatação, a miragem se desfaz fazendo reaparecer a paisagem seca e monótona do deserto que vejo para fora de mim mesmo.

 

Já cansado de não conseguir ir além de alguma tentativa de começar uma história que não se acabe em seu próprio começo, sinto desejo de contar o número de páginas que faltam ainda para o termo do que, em princípio, me pareceu um peturrito caderno, bem próprio para a pretensa narração daquilo que antes do começo já teve fim.

Mas agora, depois de tantos não começos, todos com um fim definitivo, triste e solitário, me parecem as páginas passadas já haverem sido bem mais que as necessárias para nada contar mesmo já tendo dito desnecessariamente tantas palavras.

Torço, sem querer contar as páginas restantes, é que sejam já pouquinhas. Pressinto, em alguma espécie de intuição, que escrever as páginas em branco é uma forma de terminar o ciclo de começos sem inícios, mas incessantemente com nebulosos fins, que se acabará ao termo da última página escrita.

Essa é uma forma de ter esperança no porvir. Uma maneira de tentar acreditar que esses sucessivos ciclos de fins sem começos, assim como todas as demais coisas do mundo também terão fim.

 

Fora do deserto o que deveria haver era um mundo cheio de cores e barulhos vibrantes; tudo isso vindo de pessoas de verdade, dessas que têm carne e cheiros, ansiedades e quietudes e exatamente por isso possuem um âmago tão complexo e desconfiado para se permitir revelar, assim como eu próprio; e, também como eu, na mesma proporção desejos por se revelar para alguém em quem especificamente confia.

Porque é somente neste nível de intimidade e confiança que se poderá encontrar a si mesmo no outro.

Mas o mundo fora do deserto já está tão influenciado pelo triste azedume do deserto, que o que se encontra fora dele passa a também parecer com o próprio deserto. E assim, as pessoas desertificadas seguem tão superficiais e ignotas fora do deserto quanto são quando, mesmo disfarçadas, estão no deserto mesmo.

Tudo, assim, segue triste e pueril; a nuvem da ignomínia paira densa tanto fora quanto dentro do deserto, impedindo a visão do nosso reflexo no outro e do outro em nós.

 

Admira o tanto de coisas que podem caber em um peturrito caderno como esse, onde escrevo essa história tão insólita quanto agora longa e na qual cabem tantas coisas, por mais que não tenham nem fim nem começo. As páginas simplesmente não acabam, por poucas que sejam.

E são tão assim sem fim essas pequenas páginas, que ao final alguém apareceu. De nome, endereço e solidão próprios. E ali encontro o mesmo deserto, mas agora visto pelo lado de fora. O lado da matéria. Da rotina, das cobranças. Mas, no fundo, é o mesmo lugar em que sempre estive. Dentro ou fora de mim; espiritual ou materialmente; tudo o quanto há é o deserto e essas raras chances de conexão com a solidão de outros seres a quem conseguimos amar e vez em quando somos correspondidos.

E nem é culpa do outro não corresponder, seja no amor, seja nas expectativas. Amar não é razão, é sentimento inconsciente. A projeção do outro é problema de compreensão de si mesmo, nunca responsabilidade do outro.

O fato é o deserto que subsiste sempre. Quando eu vou para fora de mim eu encontro a mesma solidão que existe dentro de mim. Em mim eu encontro o que está fara e fora eu encontro o que está dentro. Dentro de mim eu encontro o mundo, no mundo, encontro a mim mesmo. Assim eu compreendo a máxima de que para ir para dentro de si mesmo é preciso ir para fora de si.

 

Mas e é preciso a dor para fazer brotar poesia? Do amor também não poderá nascer versos e rimas, pobres ou delicadas ou até mesmo rudes e, quiçá, arrogantes? Nem importaria a qualidade das rimas. Por pobres que fossem, do amor também não poderiam surgir qualquer que fosse forma de poesia?

Então, se o amor surge e é correspondido não é demais esperar que nele se mergulhe com a despretensão da experiência, mas a intensidade de quem intui a realidade complexa e sutil que preenche tanto o dentro quanto o fora de nós mesmos. Essa mesma realidade que também é intuída por várias outras pessoas. Dentro desse mundo sutil é possível nos conectarmos com quem vibra no nosso próprio nível. Mas é preciso muita intimidade para conseguir vibrar no mesmo nível de alguém. A qualidade das vibrações é muito sutil e por isso, a escala delas no nosso padrão seria infinita.

Essa possibilidade não muda em quase nada a realidade desértica da solidão de dentro e de fora de nós mesmos. Afinal, na outra ponta está outra solidão desértica, igual a mim mesmo. Tão desconsertada diante da incompreensível realidade da vida quanto eu mesmo. Se bem descontada a parte do senso de grandeza do ego humano; pudesse até dizer que compreendo algo a mais da incognoscível realidade cósmica (que é ainda mais incognoscível que a realidade quântica).

Duas solidões talvez nem se anulem, assim como dois desertos não se combinam para virar uma floresta. Mas mirar o deserto que é o outro não teria algo de útil a ensinar? Não haveria em mim, que tanto desejo conhecer a mim mesmo, ainda um tanto de maldades e imperfeições que eu só poderia descobrir no meio da convivência íntima com o outro? E quantos outras qualidades, renúncias e abnegações não poderia descobrir que existe dentro de mim, através das quais poderia ser instrumento da perfeição e glória da Grande Obra?

O ponto da questão segue não tendo relação com as qualidades ou defeitos do deserto do outro, mas daquilo que existe dentro do nosso próprio deserto. É por isso que para encontrar a nós mesmos é preciso sair de nós para encontrarmos no outro que acharemos o espelho que refletirá a nós mesmos. Esse foi o grande erro de Narciso, que não conseguindo encontrar em si mesmo esse espelho só conseguiu achar no lado de fora a sua imagem invertida e exatamente por isso distorcida. Ao contrário, a imagem do nós que encontramos no outro não é invertida e se apresente totalmente digna da realidade que existe em nós mesmos.

 

Por qual razão é sempre nos momentos de maior desesperança que as coisas mais impossíveis acontecem, senão pelo motivo de que é exatamente nesses agoniantes instantes que com maior ânsia desejamos a salvação? E esses momentos sempre são solitários, como só se é solitário no deserto, seja o de dentro, seja o de fora de nós mesmos.

Paradoxalmente, assim, não haveria desejo mais poderoso que aquele projetado desde a solidão desértica de si mesmo. Quanto mais desértica a solidão, mais poderosa será a força do desejo. Será, então, da natureza serem egoístas, no sentido de que só podem nascer das profundezas sutis e misteriosa de nós mesmos, a quem até podemos dominar, mas que, em geral, é quem nos governa e nos limita dentro de nossas pobres individualidades?

Fato é que os desejos, para muito além da natureza que possam ter, têm a potência de se realizarem. Especialmente aqueles emanados nos momentos de maior desespero são já realidade desde o momento em que os produzimos dentro do infinito deserto escuro da nossa egocêntrica personalidade.

 

A consciência de mundo decorrente da acumulação dos anos na carne põe bem as claras não somente o peso como a realidade inefável da solidão. O deserto de dentro e o de fora são aparentemente intransponíveis, fazendo parecer que jamais seria capaz de transpassar o casco bélico do outro. Por muito tempo pareceu que do deserto do outro jamais poderia brotar alguma fonte de amor puro, incondicional e gratuito. Nunca pareceu crível, que assim como em mim mesmo a dor fez surgirem lágrimas de desprendimento e conformação, também no outro pudesse perpassar o mesmo sentimento e a igual energia criadora.

Não compreendia que até mesmo pelo calcinante deserto perpassavam as vibrações invisíveis do amor criador, que sempre é curador; e assim, no silêncio das noites sem vento ou nas tempestades de areia mais tórridas, sempre estará lá a energia do amor divino a cumprir cautelosamente o seu intento, transmudando a sequidão da areia exposta ao pino do meio-dia em borbulhante barro, cheio de germes vitais do amanhecer das raríssimas noites de torrencial chuva.

Foi exatamente no metafórico amanhecer úmido do meu deserto que permiti contato com o metafórico deserto do outro. Foram das lágrimas que chorei na solidão indevassável e opressiva do meu deserto que nasceu a rosa também metafórica que encontrou e deu saudade de alguma coisa esquecida, mas duvidosamente preciosa guardada lá no fundo seco do metafórico deserto do outro; tendo também metaforicamente nascido daí as lágrimas que irrigaram o próprio deserto metafórico do outro. Sendo que o outro de quem falo nem é metafórico, por mais que seu deserto assim seja chamado.

Na verdade, é necessária apenas pequena fissura na barragem limitante, sufocante e arrogante da individualidade do outro para que a muralha vá se dissolvendo aos poucos na umidade líquida das lágrimas. Sabendo que tudo é metafórico: o indivíduo, a muralha e as lágrimas.

 

O que haverá por dentro do outro? Se somos todos a imagem do criador é bem certo que o outro de alguma forma se pareça conosco, dado todos sermos semelhantes ao criador comum.

O deserto do outro seria de que natureza e classificação? A solidão do outro seria tão cáustica e escura quanto a nossa mesma? Existiria também no outro aquele lugar escuro, escondido no mais profundo do seu ser, onde tal qual eu, guardasse os sentimentos mais doridos e as saudades mais desejadas?

Desde o leito aberto de minhas lágrimas, fui abrindo caminho através do outro, embrenhando mais e mais em seu deserto; nisso descobrindo o quanto que os desérticos humanos são iguais, no tanto que sentem os mesmos medos, principalmente uns dos outros, mas também, no mesmo tanto que guardam tesouros valiosos, cheios de purezas, incondicionalidades e divino amor. Nessa verdadeira bandeira dos sentimentos, encontrei algum oceano interno de amor virginal, guardado num subterrâneo mais interno ainda. Um sentimento infinito e totalmente inexplorado, guardado pelo medo da desilusão, represado pelo sofrimento das vivências passadas, e talvez por isso mesmo, luminoso de um brilho que somente a pureza e a perfeição podem alcançar.

Mesmo sem conhecer a profundidade do lago, nele entrei e me banhei, me inundando do sentimento mais puro, do amor mais divino e da gratidão mais vibrante.

Foi nesse dia que fui mais pleno, consciente e feliz.

 

É uma imensa e profunda viagem essa de dentro de si mesmo em direção do outro, não exatamente na busca do outro, mas do que de si mesmo, que só se pode enxergar através do outro. E no quanto de bondade que é preciso existir no outro para se permitir penetrar por mim, até chegar lá no mais límpido, puro e transparente sentimento, somente onde, através do outro, nós nos revelamos a nós mesmos.

Tudo muda completamente, seja em nós ou fora de nós. É como se uma luz a mais da Consciência se acendesse alumiando um cadinho mais, quase imperceptivelmente, o mundo. Afinal, a grande lição que se pode tirar duma história que nunca tem fim porque em instante algum de sua narrativa tem começo é que no cuidado e no bem que podemos praticar em benefício do outro é onde mais encontramos a nossa verdadeira essência.

Igualmente, essa entrega verdadeira permite ver no outro sua própria humanidade, seus próprios defeitos e imperfeições, criando compreensão e cumplicidade, ao invés de rancores e desilusões. Nesse nível de trocas, o amor jamais poderá se transmudar em ódio, rancor, intrigas, ciúmes nem qualquer outro sentimento distorcido, porque o metal mais nobre não se transmuda no metal mais grosseiro. A alquimia só acontece do metal bruto para o nobre.

Não tivessem as folhinhas desse peturrito caderno se acabado contaria aqui mesmo a história, esta sim, com começo, em que se deu toda essa alquimia.

 

                   Ao final da leitura, Clarice se sentia atônita, paralisada pela sutileza das palavras que acabara de ler. Deitada, como estava ao fazer a leitura, ficou contemplativa procurando significar o conteúdo que acabara de ler. Não esperava, ao iniciar a leitura, encontrar uma história de amor, se é que realmente se poderia dizer se tratar aquela de uma história de amor. Sem nomes, sem cenas descritas em minudências, sem os pontos de vistas de ambos os amantes, aquela narrativa cheia de fracassos; como dizia o próprio texto, cheia de fins sem começos, ao final conduziu o narrador ao encontro de alguém, que na verdade seria a essência dele próprio.

                   Se perguntou, afinal, quais seriam as verdadeiras razões que nos impelem a todos nós à busca de uma companhia, de alguém com quem dividir as dores e as belezas da vida. Por muito tempo, compreendeu ser apenas o instinto de procriação que convencia os humanos a essa busca. Portanto, atribuía ao instinto mais animalesco e primitivo da espécie essa necessidade. Nada tinha a ver com a procura da alma gêmea tão inerente ao romantismo. O sentimento de embriaguez tão próprio dos enamorados não passaria de uma reação hormonal dos corpos ávidos do cio na busca última da procriação da espécie.

                   Desde as suas reflexões compreendia que a fidelidade e a união duradoura entre os casais não eram da natureza da espécie humana, mas uma contingência imposta pela própria sociedade. Na sua natureza mais primitiva, tinha a convicção de que a espécie humana não propenderia à união entre casais, mas apenas a sua manutenção exclusivamente pelo tempo necessário à criação da prole comum. Se lembrava perfeitamente de uma leitura que fizera já havia muitos anos sobre as origens da família, de onde descobriu através do pensamento de Engels que as comunidades humanas mais primitivas se organizavam indiferentes à verificação da paternidade da prole, afinal, biologicamente existe apenas a certeza da maternidade. Naquelas comunidades, não havia como atribuir a paternidade de um filho. Segundo esse pensamento, com o qual sua condição feminista concordava irrestritamente, a fidelidade surge apenas quando o varão tem a necessidade de atribuir a sucessão de suas propriedades a seus descendentes, daí surgindo o dever de fidelidade para a mulher e toda a histórica opressão dos homens contra as mulheres.

                   Sua experiência de vida a convencia plenamente de que não existia nem o amor romântico nem muito menos que qualquer pessoa, sejam os homens, sejam as mulheres, seria capaz de ser fiel. As declarações públicas de amor e fidelidade, assim como todos os discursos e promessas nesse sentido eram para ela ignóbil hipocrisia, nada tendo a ver com a verdadeira natureza dos seres humanos. A verdadeira natureza humana era a de se envolver com vários parceiros sucessiva ou concomitantemente. Era essa a razão das infidelidades das quais incessantemente Clarice testemunhava ao longo da vida.

                   O seu próprio ambiente de trabalho era assim, o que afinal era uma simples réplica do mundo inteiro. Já se cansara de ver vários dos seus colegas de trabalho casados se envolvendo com outros, casados ou não. Alguns sequer intencionavam discrição nos casos que mantinham, outros agiam com maior sutileza. Era essa a única diferença que notava porque praticamente todos mantinham casos extraconjugais, fossem intensos e públicos, fossem discretos e quase imperceptíveis. Nas confraternizações que eventualmente faziam todos eles apareciam com seus cônjuges oficiais e assim conviviam socialmente com tranquilidade enquanto reproduziam em suas falas o discurso moralista do matrimônio perfeito.

                   Era essa a verdadeira face da sociedade. Ela mesma já não acreditava nas pessoas. Para ela todos os homens mentiam e eram absolutamente incapazes de se manterem fiéis. Eram todos absolutamente impotentes diante da força da natureza caçadora e animalesca do seu instinto animal. Trair e buscar satisfazer sua lasciva era tão inevitável quanto sentir fome ou se render às necessidades fisiológicas da vida cotidiana. Os homens eram mais afoitos e por isso se expunham mais, porém as mulheres guardavam no silencio de sua intimidade a mesma animalidade, mais bem disfarçada pela polida capa social do recato e da contenção femininas. Mas as mulheres também sentiam a mesma propensão à traição que os homens, porque mesmo oprimidas não conseguiam se libertar dessa propensão natural à satisfação espasmódica do gozo.

                   A vida lha ensinara isso. Já sentira a força do amor e por isso já se entregara como uma inocente cordeira ao sacrifício da entrega ao outro. Já recusara a traição, consciente da pujante dor que sua consciência a infligiria caso cedesse à tentação carnal. Mas nunca recebera a reciprocidade porque todos os homens que conhecera a enganaram e iludiram, causando-lhe a aflição do sofrimento causado pelo engodo. Por vezes tão repetidas isso aconteceu que ela concluiu pela impossibilidade ontológica da humanidade em se manter coerente aos compromissos assumidos em matéria amorosa. Já sentiu tantas vezes essa desilusão que também deduziu que aquela voz dentro de si que a aconselhava a se manter fiel à pureza do amor que nutria nada mais era que a opressão social instalada em seu inconsciente que a condicionava a se autopoliciar, porque suas leituras da juventude também a ensinaram sobre o poder limitador e silente exercido pela ideologia, ao final, talvez o maior de todos os vigias sociais que existem.

                   A partir de certo momento de sua vida, desiludida pelos seguidos e fracassados relacionamentos, ela também cedeu a essa verdade, acreditando que todas as pessoas com quem cruzasse em uma calçada qualquer seriam ontologicamente infiéis porque são todos de natureza animalesca e maléfica. Também, como eles, passou a se comportar como se fosse duas criaturas distintas. A primeira, a criatura social, pudica e contida em público, mas lasciva e insensível na intimidade. Nas rodas sociais era discreta, de pouca fala. Nos contatos públicos com outros homens era recatada e de gestos delicados, sempre amável. Mas quando estava a sós com qualquer homem que a incendiasse os desejos se entregava aos calores sem reservas, como fazem as fêmeas no cio diante do macho eleito, bem ciente que no ciclo seguinte se entregaria a outro com a mesma intensidade com a qual se rendia ao da vez.

                   Não importava que os homens fossem ou não casados. O que a interessava era a satisfação hormonal porque toda a vida humana talvez se resumisse apenas a isso. Era preciso aproveitar o melhor que a vida pudesse oferecer, já que os momentos de tormento viriam independente de qualquer desejo. Eram inevitáveis.

                   Por mais que entre as boas coisas da existência compreendesse que era melhor viver em família, que nas horas difíceis era importante contar com um companheiro e que a parceria de um casal deveria ser muito mais que o sexo, apenas, as sucessivas desilusões amorosas que tivera que enfrentar demonstravam a ilusão dessa quimera. A verdade mesmo é que estamos sozinhos na jornada da existência e que na família não cabia aquela parceria firme, incondicional e valiosa da união de duas carnes em um só espírito. Isso era conversa para os padres, um simples discurso para manter as estruturas sociais.

                   Por isso, a partir dessa constatação não sentia remorsos nem em se envolver com homens casados nem em se relacionar com mais de um parceiro ao mesmo tempo, sem o conhecimento uns dos outros. Porque também imaginava que a mesma coisa eles faziam com ela. Era uma vida paralela porque a hipocrisia social não lha permitiam publicizar nem essas ideias nem muito menos essa prática. Apenas em raras ocasiões, normalmente entorpecida pelo vinho, conversava sobre suas aventuras com poucas amigas. Para a mãe e a filha, com quem vivia, suas eventuais saídas eram meio que misteriosas porque jamais contava detalhes sobre o que fazia nas noites de farra supostamente ao lado das amigas. Eram nessas ocasiões, às vezes em viagens também com as amigas, que se entregava sem remorsos aos prazeres da carne e do vinho. Para além disso, era a realidade dura da existência o que havia. Acordar cedo, comparecer aos plantões em dias alternados, de acordo com a escala de trabalho, e em casa cuidar da mãe doente e da filha já adolescente.

                   Em muitas ocasiões perguntava sobre a falta que a presença masculina naquele lar afetaria na personalidade de sua filha, que depois de tantos pareceres negativos sobre os varões acabava por expressar perigosa antipatia por esse gênero. Mas, como não queria que seu rebento passasse pelos mesmos desassossegos que ela em matéria de amor, seguia firme ensinando que todos os homens são perigosos e mentirosos.

                   Já estava praticamente conformada com essa crua realidade da vida, disposta a seguir até o final da existência carregando os fardos das responsabilidades em troca de uma pitada de ilusão, que encontrava em beijos quentes e membros excitados, assim como na embriaguez do deus Baco, quando encontrou o caderninho. E mesmo estando absolutamente convicta das suas certezas, graduadas ao longo das últimas décadas, ainda assim se encantou com o texto lido. Será mesmo que existiria alguém assim, como o misterioso personagem que o escrevera? Em nenhum canto do caderno havia qualquer endereço. Nenhuma pista sobre quem seria o seu autor. Apenas deduzia da própria leitura que se tratava de um homem aparentemente profundo e disposto a buscar e encontrar a verdadeira essência da vida.

                   Era estranho que o personagem, para compreender a si mesmo, necessitasse encontrar no outro sua própria essência e por mais que a experiência lhe ensinasse a falácia de todos os argumentos lançados pelo texto, ainda assim ficou encantada com o seu conteúdo. Um desejo secreto e misterioso de viver aquele sentimento e, assim, também encontrar a si mesma em outro alguém acendeu-se em seu âmago de forma tão penetrante que desde esse momento não conseguia mais não replicar esse desejo, por mais utópico que reconhecesse ser ele.

                   Mesmo ainda descrente da verossimilhança da possibilidade, por um instante se permitiu imaginar como seria diferente sua vida se possuísse um companheiro. Alguém com quem ir ao supermercado fazer as compras semanais; pudesse ter ao final do dia para conversar, apenas desabafar às vezes e em outras trocar ideias e planejar como enfrentariam as dificuldades. Alguém para fazer amor antes do sono noturno, mas que também lhe doasse desinteressado carinho na manhã seguinte. Alguém com quem tivesse longas conversas sobre o sentido da vida; que lhe auxiliasse a encontrar conforto espiritual na caótica rotina em que vivia; mas que em outras vezes simplesmente a embalasse, silente, nos momentos de relaxamento.

                   Ah, como seria bom ter alguém assim. A quem não necessitasse suplicar por afeto nem fingir o que não sentia em troca de alguns toques e beijos nem sempre tão prazerosos. Mas logo imaginou os defeitos que esse homem supostamente teria. De alguma forma a exploraria; por alguma maneira praticaria qualquer forma de violência contra ela; e necessariamente mentiria sobre as amantes que manteria em segredo. Até o fatídico dia em que ela descobria a enganação e, como aos outros homens da sua vida, o dispensaria cheia de rancores e mais prenhe ainda da certeza eram por sua própria natureza enganadores e traiçoeiros. Indignos de confiança nenhuma.

                   Mas não adiantava a razão convencer Clarice da impossibilidade de um encontro nos moldes pretendidos pelo autor do caderninho. Sua convicção denunciava que nem existiria a amiga incondicional e fiel do desejo emanado pelo misterioso personagem, nem muito menos haveria de existir alguém disposto a doação tão pura e entrega tão incondicional. Mais impossível ainda era encontrar a própria essência através de outro, longe da contemplação e do isolamento dos eremitas e místicos. Contudo, não adiantava nenhuma razão a esmagar a pobre Clarice com essas e tantas outras certezas, ela ainda assim não conseguia mais tirar de dentro de seu coração o desejo de conhecer àquela pessoa tão incondicionalmente disposta à descoberta do novo; tão convictamente ciente  que era possível criar através do pensamento e que essa potência humana era tão poderosa que, da mesma forma que Deus criou a Eva desde Adão, também essa singular criatura seria capaz de criar a pessoa ideal para as pelejas mundanas. Mesmo estando bem contados os mais de quarenta anos de Clarice, tão cheios de desilusões e certezas do proceder egoísta dos homens e mulheres todos; mesmo sabendo ser ela mesma dessa natureza egoísta e mesmo tendo ela própria já tantas e repetidas vezes sido a ignóbil criatura que abandona e engana; apesar de tudo isso; de tão enraizadas convicções ela passou a desejar conhecer o misterioso autor do manuscrito.

                   Desde então, em todos os lugares que ia começou a ficar mais atenta aos passantes, reparando nos detalhes dos que cruzavam seu caminho, tentando reconhecer no olhar disperso de um; no caminhar contemplativo de outro; no sorriso enigmático de mais outro a verdadeira identidade do autor do caderninho. Imaginava como seria o comportamento de alguém tão focado na descoberta de si próprio através do mergulho no outro, naquela amiga incondicional e fiel a quem imaginou unilateralmente, de maneira egoísta, indiferente aos quereres do universo e que mesmo assim teve fonte em poder tão magnetizante que foi capaz de encantar e convencer o próprio cósmico para a sua realização. Não o reconheceria por nenhuma característica física específica, mas pela energia magnetizante que o arrodearia. Seria ela sensível o suficiente para percebê-la?

                   Aquela pessoa imaginária criada em sua memória através dos sentimentos e desejos expostos pelo texto era exatamente aquele a quem sonhou desde as ilusões da menina que brincava de bonecas, mais tarde replicado nos calores e descobertas da adolescência e repetidas vezes espancado em cada decepção que passou porque era tão diferente de todos os homens que conhecera durante a vida que sua mente racional a convenceu quase completamente se tratar de uma quimera impossível pela sua própria definição. Mesmo sabendo impossível existir esse alguém continuou procurando por ele em cada trajeto entre a sua casa e o ônibus; entre o desembarque e o hospital onde trabalhava; em cada novo paciente ou acompanhante que lhe cruzasse o caminho; no trajeto de volta para casa; no supermercado e também nos raros domingos em que ia com a filha ao parque. Desconhecendo completamente o rosto e as demais características físicas daquela criatura, estava sempre atenta à sutileza das energias a seu redor, sabendo por algum mecanismo desconhecido que reconheceria sem esforço quando o encontrasse.

                   Desejava não alguém com as mesmas características do autor desconhecido do caderninho, mas ele próprio. Estava bem ciente da parte final do texto, quando anuncia que enfim encontrou a sua criação, mas algo lhe dizia que o manuscrito revelava o tempo futuro, quando o autor encontraria na verdade a própria Clarice. Era dela própria de quem as folhas miúdas do caderninho falavam porque era exatamente esse o desejo que tivera ela mesma. Tanto quanto seu enamorado, Clarice também o imaginava e tanto quanto ele o fazia com o poder unilateral do desejo poderoso o suficiente para convencer o Criador da beleza e inevitabilidade de realizá-lo.

                   O encontro poderia ser a qualquer momento, mas ao mesmo tempo a razão a denunciava da igualdade rasa de todos os homens, sempre mentindo e traindo. Ela também tinha seus fogos e quando em vez saía com um mancebo mais novo e casado, que dera de virar seu colega de trabalho. Era normal já, nos dias de plantão e após o expediente, saírem juntos para as misturas fluídicas e intensas do sexo. Nessas ocasiões ela sempre voltava bem tarde para casa, o mais tarde que conseguia segurar o mancebo longe da mulher. Mais que da companhia do outro, a quem reconhecia como fútil e perigosa a si mesmo e aos outros a seu redor, o que encontrava Clarice era a fuga da realidade da rotina de trabalho extenuante e cuidados com a mãe doente e a filha adolescente. Que haveria de ser daquela menininha perdida na inocência de não compreender nem mensurar as coisas que lhe aconteciam, a puberdade aflorante e de sua própria natureza cheia de dúvidas e a realidade de solidão e sentimento de abandono em que vivia?

                   Claro que Clarice não hesitaria um instante quando de verdade encontrasse o personagem buscado sensitivamente em cada lugar que estava, em cada olhar que reparava e em tantos gestos discretos e aparentemente imperceptíveis, às vezes só reparados por ela mesma. Ela de pronto ficaria com o seu amor, pois desde já, mesmo sendo aquilo uma etérea, quase impura fantasia; ela sabia que aquele era sim o seu grande amor. Era mais a imponderabilidade da fantasia se tornar real que, ao mesmo tempo em que buscava o verdadeiro amor da sua já tão sofrida vida, também não se envergonhava da entrega carnal que fazia regularmente, sem culpas ou qualquer outra ponderação de nenhuma outra ordem. A mulher enganada, a desimportância que dava ao fato do amante possuir não apenas a mulher, mas também outras amantes; nada disso tinha importância para ela. Não acreditava mesmo na capacidade das pessoas em serem íntegras, fiéis e corretas em suas palavras e ações!

 

                   Isso, até o dia em que imaginou, logo cedo ao sair de casa, o que diria ao seu amor sobre o amante caso o encontrasse hoje mesmo. Quem sabe até no próprio hospital, como algum paciente, um enfermeiro novato ou até um estreante na equipe de médicos plantonistas. Imediatamente cessaria qualquer contato carnal com o amante, disso ela não duvidava nem por um instante. Na verdade, ele não lhe faria falta alguma. Ao contrário, sua personalidade doentia a estava já tornando uma pessoa ainda mais impaciente e rancorosa, principalmente em casa. Seria mesmo um alívio encontrar um motivo bem concreto para anunciar o fim das aventuras.

                   A questão mesmo era o que dizer ao seu amor. Que era dada a esse tipo de aventura não só com aquele, mas também com outros colegas. Que não se importava se fossem casados ou solteiros. Que com bem poucos teve desejo de manter namoro. Que a partir de certa idade, quando percebeu definitivamente a incapacidade dos homens em serem monogâmicos, passou a evitar que as pessoas com quem eventualmente se relacionava conhecesse ou tivesse contato mais íntimo com sua família. Que ela fazia tudo isso, no fundo, porque tinha medo de se machucar a si mesma e àquelas duas criaturas a quem jurara cuidar com tudo o melhor que tivesse dentro de si. Que era até conhecida como uma mulher fria e egoísta.

                   Não. Ela não seria capaz de dizer esse tanto de coisas para alguém a quem acabara de conhecer, por mais que confiasse na lisura de pensamentos e ações de que aquele homem misterioso era capaz. Não fosse capaz disso; não fosse ele exatamente do jeito que Clarice o estava imaginando agora toda essa história não poderia ser jamais verdadeira. Ela não teria coragem de abrir ao amado toda a verdade porque temia seriamente que, diante de sórdidas revelações não conseguiria ficar ao lado dela, mesmo que a amasse e tivesse a grandeza de perdoar esses e tantos outros pecados inconfessos. A pureza daquele personagem, a cada dia mais amado ainda que persistisse não descoberto seria algo tão superior, de ares angelicais, daquelas coisas que não conseguem permanecer muito tempo insufladas pela impureza de sentimentos assim tão encardidos quanto os dela.

                   Ela imaginou naquele dia que se o encontrasse hoje nada diria sobre o seu passado. Se conhecia o suficiente para ter certeza da sua plena capacidade de amar intensa e integralmente ao outro, sem nenhuma mancha, em pensamento que fosse. Mas não se importava em dar isso aos outros, senão para aquele único e exclusivo ser amado porque só ele era capaz de ser recíproco, firme e incondicional. O lago de amor, no seio mais profundo do seu coração existia sim. Estava lá puro e intocado como predizia o próprio texto e era assim não pela falta de pretendentes, porque Clarice se tratava de belíssima mulher, de cabelos loiro escuro, pele alva da cor da neve, corpo desenhado em forma de violão e andar discreto, mas charmoso, que mesmo se fazendo parecer imperceptível era por isso mesmo denunciado por todos. Era assim porque Clarice represara os sentimentos de amor, tão castigada que foi pelo desamor desde menina.

                   Seria uma tragédia perder o amor da sua existência. Por isso ela calaria diante do seu passado, diria que conhecer o passado não adiantaria de nada para os dois. Qualquer pessoa com mais de quarenta anos tem um passado em que necessariamente encontrou desamores, esperanças e desejos irracionais. Falar disso era não só perda de tempo como motivo para se magoarem um ao outro. O amor os convidava a olhar para a frente porque lá sim, ela lhe prometia amor, fidelidade e confidência do mesmo tanto que ele imaginou em seu texto. Por isso não diria que no trabalho ainda via todos os dias o antigo amante e até trocava palavras com ele. Dava conselhos mesmo. Mas só isso. Nada de carícias, às vezes umas poucas mensagens quase desinteressadas às quais ela não respondia ou se fazia desinteressada no assunto e vez em quando ela até percebia algumas piscadelas que jamais eram correspondidas. Para que falar essas coisas se ela era convicta da sua inabalável capacidade de ser digna, ética e fiel? Porque se tudo viesse à tona a pureza daquele homem impossível não se permitiria contaminar com a humanidade desiludida de Clarice.

                   Que Deus a protegesse de aquele peculiar ser, talvez até de natureza angelical mesmo, fosse sensitivo também para descobrir o passado da sua amada, porque se assim fosse ela estaria definitivamente desterrada porque além de desmascarada em sua omissiva mentira, também teria de se ver com as consequências de suas próprias inconsequências diante do amor dos outros e da dedicação deles paga com a indiferença e a traição. Deus a protegesse desse desterro tão horrível e desesperador. Porque mais terrível que viver toda a existência sem uma alma metade era de a ter encontrado e a deixado se perder no desespero sórdido de quem quer por todas as coisas sagradas amar, mas ao mesmo tempo se entrega a vida inteira exclusivamente ao que é o não amor, a indiferença e às vezes até à maldade.

 

                   A possibilidade desse momento imaginário algum dia poder vir a acontecer levou Clarice quase ao desespero. A partir daquele dia, o medo secreto de se encontrar de fato com o seu amado a qualquer momento, a fez mudar atitudes. Não era mais tão dada aos diálogos, ria menos e, de verdade, se desinteressava totalmente por qualquer outro que não fosse o seu ser imaginário. Era uma verdadeira loucura aquilo, ela bem sabia. Porque por mais racional que fosse a certeza da inexistência de algum ser tão puro e íntegro quanto o que escrevera no cadernito, ainda assim ela passou a recusar qualquer contato íntimo que não fosse do amor verdadeiro; do ser amado e querido tanto mais quanto ele era impossível.

                   Desinteressada pela aventura do mundo, retornou inteira para casa, convivendo e, sobretudo, gostando de conviver com sua família, sem pressas, impaciências nem ressacas; mas de forma graciosa, delicada e profunda quanto jamais lembrava de ter vivido antes. Também permitiu que as duas vislumbrassem e também se banhassem no lago de amor que havia dentro dela mesma, mas que só descobriu quando vislumbrou a pureza da mensagem que lera no caderno.

                   Assim foi Clarice levando a vida devagarinho, sempre aprendendo da companhia de sua delicada família, mas feliz exatamente por isso. Quando quase nem mais acreditava que acharia a outra metade de seu par, deu de esbarrar, uma esquina antes do hospital, saindo do trabalho, com J. Pinto Fernandes, senhor de uns cinco anos mais velho que ela, que pedia a direção de um museu que ficava ali nas imediações de onde estavam. Ela não conseguiu recusar a ousadia do pedido do contato e seguiu falando com o interlocutor, marcando encontro, beijando na boca e conversando com prazer que, de verdade, ela jamais havia sentido em relação nenhuma. Com os encontros, ficou sabendo que J. Pinto também gostava das letras, sendo não somente bom em lê-las na imensa profusão de livros que consultava, como também as escrevia em prosa e poesia. As conversas dele sempre tiveram tudo a ver com o que estava escrito no caderninho, mas dele só falou para o moço simpático e cativante, que falava de magia e se dizia estudante de misticismo, já bem depois, quando estavam já em relação estável, ele frequentava a casa dela e já se apresentavam como família. Todos se queriam e viviam em profusa harmonia, como nas histórias de final feliz.

                   Mas, sobre o caderninho, J. Pinto Fernandes guardou absoluto silêncio. Ouviu a história fantástica que lhe contava Clarice sério e impassível, tendo ao final dito apenas que a havia entendido muito bem. Nada, absolutamente nada disse sobre a certeza de Clarice de que havia encontrado naquele caderninho a sua metade, o amor de sua vida e que estava totalmente convicta ser ele mesmo, J. Pinto, a pessoa que encontrou no escrito. Ela tão menos perguntou nada depois dessa conversa. Para o resto da vida manteve silêncio também sobre o assunto. Teve medo de que a resposta não dita era de que ele não havia escrito nada daquilo e que, talvez, ele não fosse a pessoa que ela imaginava que fosse, que pensasse bem se deveriam mesmo ficar juntos.

                   Como o silêncio sobre o assunto não os importunou a nenhum, seguiram e foram felizes como os casais às vezes conseguem ser. Humanamente, sempre.

 

Jorge Emicles

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

 



PARIS É UMA FESTA!





 

Nem adiantam as fotos, nem adiantam os vídeos. Não há meios de registrar a sensação de andar pelas ruas de Paris, senão pisando nas suas calçadas; entrando nos túneis às vezes escuros de seu metrô, adivinhando o subterrâneo ainda mais profundo, obscuro e belo que existe logo ali para além das paredes grossas de pedra, adiante poucos centímetros da janela do vagão do metrô em que se está andando, quase incrédulo diante da constatação da dimensão profunda a que se pode chegar uma civilização. Se o subterrâneo de galerias, que formam um labirinto indecifrável, construído desde séculos esquecidos da origem medieval da cidade já deslumbram por si mesmos, imagina então a beleza que não se descobre ao sair desses túneis subterrâneos que cortam e recortam a cidade fazem já muito mais anos que os da invenção da locomotiva, aquela besta quase humana que inspirou os carros do metrô parisiense antigos e modernos.

O que se descobre é uma cidade fascinante, que apesar de imensa e magnânima não chega a ser intimidadora; que de alguma forma age como uma esfinge que se convida a ser decifrada sob pena de devorar o viajante incauto; mas que também seduz não exatamente por sua beleza, mas, sobretudo, pela grandeza que essa beleza assume nos seus lugares. Tudo lá é em proporções desconcertantes. Do céu, já se avista a torre Eiffel, da torre se observa não somente as cúpulas magnânimas do Palácio dos Inválidos, da igreja Sacré-Couer, como também as incríveis proporções do Campos de Marte e da ponte Alexandre III.

É essa a mesma torre que, à noite, aponta o seu canhão de luz para todas as outras direções, apresentando em todos os cantos beleza e mistérios ainda mais fascinantes. Ao mesmo tempo em que os parisienses cantam as glórias da revolução francesa, fazendo memória a Rousseau em seu Panteão, também guardam reverente silêncio à antiga presença da guilhotina na praça da revolução, hoje rebatizada por Restauração. Essa mesma que viu, entre tantos, cair a cabeça de Luiz XVI, Maria Antonieta, Danton e Robespierre. Mas logo ali, onde a vista ainda alcança, estão os portões do jardim das Tulherias. Para um pouco mais além já está o palácio do Louvre, cujas dimensões só podem ser compreendidas caminhando pelos seus deslumbrantes corredores e salas, em si mesmos um museu de indizível perfeição estética, mas que ainda assim são ornados das artes mais sedutoras, cheias de perfeição e detalhes emocionantes. Através das inesgotáveis alas se passeia da arte egípcia mais misteriosa, cheia de detalhes indecifráveis até aos mitos, deuses e senso de perfeição dos gregos, chegando ao esmero das pinturas renascentistas e todas as escolas de arte fundadas ali desde as luzes do iluminismo.

Tudo isso prova a grandeza intelectual a que a espécie humana é capaz de chegar, talvez nunca repetida na história da humanidade, se por acaso não forem verdadeiras as mitológicas tradições de Atlanta, tão estranhamente repetidas pelo próprio Platão em seu opúsculo de despedida. Se há ou houveram civilizações mais elevadas intelectualmente que a greco-ocidental se desconhece, e isso só é razão suficiente para o mergulho em seu âmago mais profundo; e esse mergulho é bem facilitado através do passeio destemido pelas ruas de histórias já quase sem memórias, de tantas e tão antigas que são as da cidade de Paris, porque é ali onde melhor se encontra os símbolos de grandeza dessa civilização. Mesmo que, da mesma forma que o esplendor, Paris também reflete a miséria humana do egoísmo, da exploração e da maldade que são tão típicos dessa civilização, para muitos, o próprio motor da sua existência; mas nem assim se apaga o opressor sentimento de grandeza que só se sente ao se percorrer a pé os infinitos jardins de Versailles. Tão bem pareados com a grandeza e opulência não apenas do palácio, mas igualmente as do grande e pequeno Trianon.

Nada disso mesmo se poderá captar por fotos ou vídeos!

 

 

Jorge Emicles