O CADERNO PETURRITO
(NOVELA)
Clarice
contava já seus mais de quarenta anos naquela manhã de domingo triste e
solitária em que, logo ao amanhecer, se pegou a refletir sobre o lugar em que
sua vida a colocara, às vezes em desatenção, outras em consequência dos sonhos
e caprichos a que se impusera pelas escolhas que fizera. No bom e no mau,
concluía ela após bom tempo de contemplação ao vazio, tudo é consequência do
que fazemos e, antes disso, do que pensamos. Na verdade, é através do pensamento
sobre algo que aconteceu que damos significado a estas coisas e suas relações
com o restando do mundo, este também fruto da interpretação moldada pelos
nossos pensamentos. Sempre os pensamentos. Não seria então a própria realidade
fruto do que pensamos, uma ilusão?
Ilusão
ou não, compreendeu que já estivera ali naquele ócio contemplativo mais que o
permitido à sua condição mulher trabalhadora, que tem que bater ponto,
compromissos familiares e oferendas à ditadura da beleza e da eterna juventude,
o que era outro item que encarecia mais ainda sua necessidade de provedora da
sua pequena unidade familiar. Fazia falta não o dinheiro de outra renda, mas a
companhia de vida, por mais que a desilusão da inexistência do príncipe
encantado fizesse parte das certezas da colheita de vida, reflexão da qual
acabava de despertar. Mas era preciso sair para a lida, pois era dia de
plantão.
Levou
pouco tempo para se assear, comer, maquiar e vestir. Logo já estava em pé do
lado de fora de casa, olhando para a rua sem calçamento e toda barrenta e até
meio alagada em partes depois da noite de fina e constante chuva que fizera.
Ficou ali parada por alguns instantes calculando a rota que melhor a levaria
até o cruzamento da próxima rua, onde tomaria o ônibus. Quase no meio dessa
pequena travessia, reparou caído bem próximo a uma poça de água um caderno
pequenino com uma caneta presa a ele entre as páginas centrais por sua tampa. A
cor da capa era parda mas estranhamente sentiu como um brilho intenso
envolvendo o caderninho. Se abaixou e pegou o caderno. Passou rapidamente suas
páginas e reparou que estavam todas escritas por uma letra média bem desenhada,
típico de quem treinou caligrafia quando criança. Pôs o caderno na bolsa grande
que carregava e só se lembrou novamente dele quando já havia voltado do
trabalho e já estava banhada, alimentada e pronta para a hora do dia que mais
gostava, que era a de estar quieta em seu quarto, muitas vezes, no tédio,
distraída com programas e vídeos e outras, menos frequentes, em que se permitia
refletir sobre si mesma, suas dores, frustrações e sentimentos. Essas últimas
eram sempre tristes e, com o tempo, estavam cada vez mais frequentes, a
instigando a reconhecer que ao final desses tantos janeiros podia já concluir,
com decepção, o fracasso que foram seus desejos e sonhos, especialmente porque
lhe faltou o amor. Tinha que reconhecer a si mesma que foi o seu próprio
egoísmo que a fez renunciar ao amor, porque se impusera a si mesma a certeza de
que o amor era uma ilusão perigosa. Do amor que tivera aos outros só recebera a
mentira e a desilusão.
Foi
nesse instante que ao procurar algo na bolsa deu com o caderno e ficou curiosa
para saber que haveria nele. Receitas, anotações de trabalho ou um diário
íntimo? Um diário certamente não porque o caderno era tão pequenininho que não
poderiam caber tantos segredos assim nele. Talvez, ponderou analisando a capa
escura, sem anotações, que deveria ter talvez 10 por 5 centímetros. Não muito
mais que isso. As páginas não estavam nem molhadas, nem borradas. Parecia até
milagre ter estado tão próximo da água e se manter incólume assim. As páginas,
afinal, não eram tão poucas assim, concluía Clarice após folheá-las reparando
bem na letra uniforme e disciplinada que preenchia todas as suas folhas. A
distribuição das letras bem desenhadas ao longo das páginas dava a impressão de
ordem e senso. Era como a grafia convidasse à sua leitura. Ela não resistiu ao
convite e se pôs a ler com atenção e em ordem o texto. Cada palavra a convidava
a seguir de maneira que leu tudo de um só fôlego, quase sem paradas. O texto
vai a seguir transcrito conforme consta do caderninho que até hoje ela guarda
com a afeição que se devota às grandes relíquias.
Precisava
contar essa história, mas não antes de haver encontrado algum caderninho
pequeno. Tem que ser bem pequenininho mesmo porque essa história que tenho para
contar também é bem pequeninha. Onde começa? Em um desejo sincero e puro: o de
que há alguém que irei conhecer que antes de qualquer outra coisa seja uma
amiga; em quem confie e com quem compartilhe importantes interesses. Alguém com
quem a cumplicidade venha antes do sexo, mas que também possa se permitir
entrega serena e confiante na carne e no espírito. Se o amor é Deus, o amor
carnal também é. Alguém que acredite que esse também é o caminho para a
iluminação. Se tudo é um, matéria e espírito são a mesma coisa. A diferença
está no grau das vibrações. Novamente, se tudo é um, todos os níveis de
vibração são, na essência, a mesma vibração.
Foi
exatamente assim que desejei. Unilateralmente desejei.
Aí,
vi alguém. E desejei que fosse exatamente o alguém que desejei unilateralmente.
A questão, no fundo, está toda aí: na unilateralidade. Porque desejar
unilateralmente, quase que indiferente ao restante do mundo, beira mesmo ao
arbítrio. Daí a propensão ao fracasso dos desejos egoístas e unilaterais. Mas
como, se até faz pouco tudo se resumia ao um; e o um, por sua própria natureza
é unilateral?
Bom...
talvez essa história seja curta porque o um, sempre unilateralmente, também
seja curto. Mas a verdade é que, sendo unilateral, o meu querer não teve
respaldo no querer desse outro alguém. O que vai e não vem é necessariamente
algo curto, pequeno; quase necessariamente desimportante. Foi assim que desejei
e desapercebidamente fui ignorado pelo desejo de quem desejei.
É
essa a história que acabou desde o seu próprio começo, sem mesmo que nada
tivesse ao menos intuído sua própria desimportância. Por isso nunca e jamais
houve a menor chance de que essa história não fosse curta. Desimportantemente
curta, aliás.
Mas
é que mesmo esse curto, mínimo e desimportante caderno ainda assim consente
deixar vazias páginas logo aqui mais adiante. E eis que a brancura das páginas
logo aqui mais vindouras convidam a não deixar de desejar o que me coube em
desejar, Mesmo que reduzido ao um, o unilateral.
Pois
se não tenho uma resposta a replicar, dou poder ao meu desejo, a implicar por
meu querer.
Vasculho
as redes sociais na busca do alguém unilateralmente desejado, mas tudo o que
encontro é um inóspito deserto. Profundo, silente e sem qualquer esperança de
vida. Todas as cores e sons que desde lá emanam são ilusórios. As interações
não emanam de pessoas reais, porque não são reais nem o produto da inteligência
artificial, nem os sentimentos da minoria de pessoas que também vagueiam pelo
deserto inóspito dos bits, circuitos, chips e telas, por mais sensíveis que as
telas sejam.
Mas,
no mundo de agora, não há mais vida fora da realidade digital, que por mais que
se assemelhe a ela, realidade não é. Mas também, no mundo de agora, da mesma
forma não há vida verdadeira dentro da realidade digital, que por isso mesmo
segue não espelhando realidade alguma.
E
assim, esta miúda história que conto, segue se findando no seu próprio começo.
E as folhas do pequeno caderno, me parece, continuam se multiplicando. Com que
palavras poderia prenhá-las se o fim dessa história já se instalou antes mesmo
do seu começo?
Quando
em vez, no meio do deserto de bits das redes sociais aparecem sinais. Seriam
sinais de vida se vida houvesse nesse deserto de que falo. Nesses momentos de
interações me apego ao desejo de algum começo que não o fim em si mesmo. Porém,
o sentimento que é emanado através dos dedos rápidos de quem emite a mensagem
nunca é o mesmo dos olhos de quem recebe e lê a mensagem, quase exatamente no
mesmo instante em que é digitada.
Nas
conversas presenciais se costuma dizer que alguém fala da boca para fora quando
a pessoa a quem nos referimos não tem compromisso com a própria palavra.
Analogicamente, poderia dizer que falam da tecla para fora. São assim as
mensagens trocadas no mundo digital: palavras vazias e promessas sem
compromisso.
E
é assim que o deserto existente para fora de mim se aprofunda mais ainda. É a
história que já acabou faz tempo sequer sem conseguir ter início.
Por
detrás das tantas palavras pronunciadas ao longo do dia o que há de verdade é
um grande silêncio. É que as palavras ditas não falam e quase escondem os
sentimentos guardados lá no fundo de um quarto escuro existente dentro de mim
mesmo, onde está a minha essência. O eu de verdade.
As
palavras falam muitas coisas, mas não dizem do deserto que segue incólume a me
rodear por dentro e por fora. A solidão, ela não dissipa nem nos momentos de
convívio e troca de ideias e saberes. O que está lá, interagindo com os outros
não sou eu na minha essência. Não é nada no sentido de falta de sinceridade ou
mentira. É algo no sentido de jamais se revelar por inteiro. De existir algo
que não é compartilhado com ninguém. Mas que ao mesmo tempo deseja, quase
necessita se revelar. Não indistintamente, mas para aquela amiga tão
unilateralmente desejada.
Aqui
vem a lembrança de um dos primeiros poemas da criança que já fui escreveu já
faz tempo antigo em minha memória. Diz assim:
Estou
em casa esperando um fantasma chegar.
Mas
ele não vem mais,
Ele
esqueceu que eu existo.
Faz tempo que estou
esperando essa amiga chegar. Isso ainda é do tempo em que ela era um fantasma.
Nesse deserto, parece
mesmo que esqueceu que eu existo.
Para
conseguir ir ao mais fundo de si mesmo, é necessário sair para fora de si. Na
direção dos outros. É a conexão com o outro, através do amor incondicional e do
servir que é a chave para o verdadeiro conhecimento de si mesmo.
É
no ato de servir livre de qualquer pretensão que está o espelho fiel e perfeito
de si mesmo. Esse verdadeiro encontro se dá em silêncio e com profundo senso de
humildade. A potência de querer unilateral e arbitrariamente não anula que essa
mesma potência deseje unilateralmente que a amiga a quem, enquanto um desejo,
possa necessitar e se servir de todo bem e tudo o de bom que essa minha
potência possa humildemente oferecer. E que nisso eu possua suficiente
sabedoria para nesse servir enxergar a imagem mais fiel e completa de mim
mesmo.
No
universo efêmero de um reel vi um rosto de beleza singular e única, como singulares
e únicas são todas as belezas. Tanto quanto a simetria da figura, a beleza
também é questão de harmonia vibratória. Esse rosto de harmoniosas vibrações e
simétrica beleza dizia algo importante ao mundo através do seu profundo olhar.
Ele era triste, denunciante de cicatrizes e sofrimentos, mas também dizia de
resiliência e fé. A fé, que a despeito de toda a dor, ainda consegue manter em
parte a simetria das formas da criança que fora.
Aquele
olhar forte, quase conseguindo ser indevassável, mesmo de poderosa resiliência
ao mesmo tempo pedia ajuda; clamava por um ombro amigo e um ouvido atento. Não
só me comoveu. Aquele olhar me convenceu não apenas da veracidade dele mas
também de que eu poderia ser o ombro e o ouvido tão almejado. Para mim mesmo
alimento a necessidade em servir, porque é somente através do servir que
conseguimos enxergar a nós mesmos.
E,
assim, abri completamente o meu coração diante do olhar profundo daquele rosto
harmonioso e belo. Pronto para ouvir, para sentir e também para dar algo em
troca. Talvez mesmo a doar um amor sincero, fiel e incondicional.
Foi
tudo isso o que senti naqueles inefáveis segundos de exibição de um reel.
Naqueles segundos, tudo o que existiu no mundo fomos eu, meus sentimentos e as
verdades íntimas proferidas por aquele olhar infinito, naquele harmonioso
rosto. Ambos em diálogo profundo, franco e construtivo.
Mas
os segundos de um reel, mesmo quando inefáveis ainda assim são poucos e
efêmeros; que em poucos instantes se desmancham no vazio do deserto multicolor
e ilusórias formas das redes sociais. Por isso, creio, aquele rosto de profundo
olhar nem percebeu o amor profundo e incondicional que tenho em mim para lhe
dar. Tudo isso porque o efêmero da internet sempre tem um novo reel, com um
novo rosto de um novo olhar para nos apresentar.
“Navegar
é preciso; viver não é preciso”. Foi assim que o general Pompeu ofereceu a seus
soldados temerosos a eminência da morte. Navegar, durante poderosa tempestade
levaria os soldados ao afogamento durante a travessia ou à terrível batalha com
o inimigo que já os esperava na praia. O carisma do romano era tão grande que
os soldados foram, atravessaram a tempestade e venceram a batalha.
Afinal,
de que vale o viver se não tivermos a coragem de nos entregar às tempestades da
vida, em busca de alguma vitória na batalha da existência? Guerrear para quem,
senão para a humanidade, no propósito impessoal para a evolução da humanidade
de que fala Pessoa no seu misticismo da raça.
Já
te desejei, é inevitável. Agora, só resta navegar a tempestade do desejo, na
esperança de reencontrar a terra firme e no propósito da vitória do encontro
com o desejo que tive. Singelo; sincero, mas unilateral.
A
consciência do ciclo do viver assusta. Não há um caminho reto entre o nascer e
o morrer, mas vários caminhos circulares que se sucedem. Ter consciência dos
ciclos, sobretudo, permite compreender onde estamos no momento presente e o que
se sucederá a seguir. A vida é, enfim, o eterno retorno.
Continuo
não gostando da dor, mas tenho consciência tanto de suas razões como o que
sucederia se houvesse conseguido ao que pretendia. A consciência da realidade
cíclica das coisas ensina que é melhor sofrer a dor do agora, a da decepção do
fracasso, que depois de haver prendido e descoberto as dores ainda maiores das
consequências da tão querida conquista. O conquistar e o ter cobram preços
muitas vezes insuportáveis.
Essa
consciência, contudo, não depõem nem a dor do não ter nem a necessidade de ver
preenchido este lugar (se é que se pode chamar de lugar ao que segue), em que a
amizade verdadeira e a troca mais profunda se perfazem; onde a comunicação é
plena e aberta, sem medos.
A
dor é a própria falta disso, não a humilhação do fracasso e da recusa. Essa
parte, é mais da conta de quem não quis; é autônomo exercício da liberdade
plena a que chamamos livre arbítrio. O desejar em si não pode ser pecado.
Por
que razões e por quais processos um desejo chega a se personalizar?
Aparentemente, por um processo irracional e por razões insondáveis. Mas não.
Tudo se dá por um motivo. O meu desejo, arbitrário e unilateral, é de empatia,
cumplicidade e, sobretudo, de bondade.
Reconhecer
o bem em outro, especialmente quando dirigido sem pretensão a mim, encanta,
prende e faz nascer uma vontade quase insana de melhor conhecer e dividir a
existência. Consciente de minha própria potência de também fazer o bem.
A
bondade dessa outra pessoa, não sei se é efetiva, se ela é assim de fato ou se
foi meu desejo que também projetou no que essa outra pessoa não é.
Objetivamente, através dos sentidos físicos aliados à pura razão, não é possível
descobrir a resposta.
Mas
essa percepção, que nem mesmo sei se é verdadeira ou ilusória, fez nascer em
mim uma necessidade incontrolável de aproximação com essa outra personalidade.
Meu subconsciente e meu eu mais espiritual sabem algo que minha consciência
objetiva é incapaz de conhecer. E avisam que é algo de profundo valor e raro.
Por isso me colocam diante desse estado de necessidade urgente de alguém que
tão pouco conheço e perigosamente necessito.
Será,
então, que aquela história fadada a sequer iniciar teria enfim um começo, mesmo
que algo assim tão etéreo, sem fatos nem diálogos específicos? Mas nem me
preocupo em contar as páginas que ainda restam desse pequenino caderno, porque
esse ínfimo começo convida a inevitável fim dentro de si mesmo.
Porque
daí, o silêncio recíproco entre bondades e respeitos infinitos deixou sem
sequência os desdobramentos do incontrolável desejo de conhecer e conviver com
aquela bondade.
Como
encontrar aquilo a que desejo, se o tal desejo é irrealizável nesse mundo?
A
sensação é a de que não existe em matéria a pessoa que possua os interesses que
mirei nela. Porque essas coisas a que almejo por sua própria natureza, precisam
estar fora do grosso e cálido deserto que me rodeia.
Tudo
o que eu puder encontrar neste deserto que brota, denso, fora de mim,
necessariamente não será nem flores nem úmidas.
E
o deserto, traiçoeiro que é, se apresenta cheio de miragens; ilusões apenas.
Relações
superficiais como as únicas que esse deserto pode oferecer não serão nunca
suficientes para o nível de interações que a intimidade verdadeira exige. Nesse
deserto parece que as pessoas estão em vários lugares ao mesmo tempo, mas nunca
em um só lugar de um mesmo tempo. É o mesmo que não estar em lugar nenhum de
tempo algum.
Mas
relações exigem a exclusividade de sentimentos.
E,
com esta constatação, a miragem se desfaz fazendo reaparecer a paisagem seca e
monótona do deserto que vejo para fora de mim mesmo.
Já
cansado de não conseguir ir além de alguma tentativa de começar uma história
que não se acabe em seu próprio começo, sinto desejo de contar o número de
páginas que faltam ainda para o termo do que, em princípio, me pareceu um peturrito
caderno, bem próprio para a pretensa narração daquilo que antes do começo já
teve fim.
Mas
agora, depois de tantos não começos, todos com um fim definitivo, triste e
solitário, me parecem as páginas passadas já haverem sido bem mais que as necessárias
para nada contar mesmo já tendo dito desnecessariamente tantas palavras.
Torço,
sem querer contar as páginas restantes, é que sejam já pouquinhas. Pressinto,
em alguma espécie de intuição, que escrever as páginas em branco é uma forma de
terminar o ciclo de começos sem inícios, mas incessantemente com nebulosos fins,
que se acabará ao termo da última página escrita.
Essa
é uma forma de ter esperança no porvir. Uma maneira de tentar acreditar que
esses sucessivos ciclos de fins sem começos, assim como todas as demais coisas
do mundo também terão fim.
Fora
do deserto o que deveria haver era um mundo cheio de cores e barulhos vibrantes;
tudo isso vindo de pessoas de verdade, dessas que têm carne e cheiros,
ansiedades e quietudes e exatamente por isso possuem um âmago tão complexo e
desconfiado para se permitir revelar, assim como eu próprio; e, também como eu,
na mesma proporção desejos por se revelar para alguém em quem especificamente
confia.
Porque
é somente neste nível de intimidade e confiança que se poderá encontrar a si
mesmo no outro.
Mas
o mundo fora do deserto já está tão influenciado pelo triste azedume do
deserto, que o que se encontra fora dele passa a também parecer com o próprio
deserto. E assim, as pessoas desertificadas seguem tão superficiais e ignotas
fora do deserto quanto são quando, mesmo disfarçadas, estão no deserto mesmo.
Tudo,
assim, segue triste e pueril; a nuvem da ignomínia paira densa tanto fora
quanto dentro do deserto, impedindo a visão do nosso reflexo no outro e do
outro em nós.
Admira
o tanto de coisas que podem caber em um peturrito caderno como esse, onde
escrevo essa história tão insólita quanto agora longa e na qual cabem tantas
coisas, por mais que não tenham nem fim nem começo. As páginas simplesmente não
acabam, por poucas que sejam.
E
são tão assim sem fim essas pequenas páginas, que ao final alguém apareceu. De
nome, endereço e solidão próprios. E ali encontro o mesmo deserto, mas agora
visto pelo lado de fora. O lado da matéria. Da rotina, das cobranças. Mas, no
fundo, é o mesmo lugar em que sempre estive. Dentro ou fora de mim; espiritual
ou materialmente; tudo o quanto há é o deserto e essas raras chances de conexão
com a solidão de outros seres a quem conseguimos amar e vez em quando somos
correspondidos.
E
nem é culpa do outro não corresponder, seja no amor, seja nas expectativas.
Amar não é razão, é sentimento inconsciente. A projeção do outro é problema de
compreensão de si mesmo, nunca responsabilidade do outro.
O
fato é o deserto que subsiste sempre. Quando eu vou para fora de mim eu
encontro a mesma solidão que existe dentro de mim. Em mim eu encontro o que
está fara e fora eu encontro o que está dentro. Dentro de mim eu encontro o
mundo, no mundo, encontro a mim mesmo. Assim eu compreendo a máxima de que para
ir para dentro de si mesmo é preciso ir para fora de si.
Mas
e é preciso a dor para fazer brotar poesia? Do amor também não poderá nascer
versos e rimas, pobres ou delicadas ou até mesmo rudes e, quiçá, arrogantes? Nem
importaria a qualidade das rimas. Por pobres que fossem, do amor também não
poderiam surgir qualquer que fosse forma de poesia?
Então,
se o amor surge e é correspondido não é demais esperar que nele se mergulhe com
a despretensão da experiência, mas a intensidade de quem intui a realidade
complexa e sutil que preenche tanto o dentro quanto o fora de nós mesmos. Essa
mesma realidade que também é intuída por várias outras pessoas. Dentro desse
mundo sutil é possível nos conectarmos com quem vibra no nosso próprio nível.
Mas é preciso muita intimidade para conseguir vibrar no mesmo nível de alguém.
A qualidade das vibrações é muito sutil e por isso, a escala delas no nosso
padrão seria infinita.
Essa
possibilidade não muda em quase nada a realidade desértica da solidão de dentro
e de fora de nós mesmos. Afinal, na outra ponta está outra solidão desértica,
igual a mim mesmo. Tão desconsertada diante da incompreensível realidade da
vida quanto eu mesmo. Se bem descontada a parte do senso de grandeza do ego
humano; pudesse até dizer que compreendo algo a mais da incognoscível realidade
cósmica (que é ainda mais incognoscível que a realidade quântica).
Duas
solidões talvez nem se anulem, assim como dois desertos não se combinam para
virar uma floresta. Mas mirar o deserto que é o outro não teria algo de útil a
ensinar? Não haveria em mim, que tanto desejo conhecer a mim mesmo, ainda um
tanto de maldades e imperfeições que eu só poderia descobrir no meio da
convivência íntima com o outro? E quantos outras qualidades, renúncias e
abnegações não poderia descobrir que existe dentro de mim, através das quais
poderia ser instrumento da perfeição e glória da Grande Obra?
O
ponto da questão segue não tendo relação com as qualidades ou defeitos do
deserto do outro, mas daquilo que existe dentro do nosso próprio deserto. É por
isso que para encontrar a nós mesmos é preciso sair de nós para encontrarmos no
outro que acharemos o espelho que refletirá a nós mesmos. Esse foi o grande
erro de Narciso, que não conseguindo encontrar em si mesmo esse espelho só
conseguiu achar no lado de fora a sua imagem invertida e exatamente por isso
distorcida. Ao contrário, a imagem do nós que encontramos no outro não é
invertida e se apresente totalmente digna da realidade que existe em nós
mesmos.
Por
qual razão é sempre nos momentos de maior desesperança que as coisas mais
impossíveis acontecem, senão pelo motivo de que é exatamente nesses agoniantes
instantes que com maior ânsia desejamos a salvação? E esses momentos sempre são
solitários, como só se é solitário no deserto, seja o de dentro, seja o de fora
de nós mesmos.
Paradoxalmente,
assim, não haveria desejo mais poderoso que aquele projetado desde a solidão
desértica de si mesmo. Quanto mais desértica a solidão, mais poderosa será a
força do desejo. Será, então, da natureza serem egoístas, no sentido de que só
podem nascer das profundezas sutis e misteriosa de nós mesmos, a quem até
podemos dominar, mas que, em geral, é quem nos governa e nos limita dentro de
nossas pobres individualidades?
Fato
é que os desejos, para muito além da natureza que possam ter, têm a potência de
se realizarem. Especialmente aqueles emanados nos momentos de maior desespero
são já realidade desde o momento em que os produzimos dentro do infinito
deserto escuro da nossa egocêntrica personalidade.
A
consciência de mundo decorrente da acumulação dos anos na carne põe bem as
claras não somente o peso como a realidade inefável da solidão. O deserto de
dentro e o de fora são aparentemente intransponíveis, fazendo parecer que
jamais seria capaz de transpassar o casco bélico do outro. Por muito tempo
pareceu que do deserto do outro jamais poderia brotar alguma fonte de amor
puro, incondicional e gratuito. Nunca pareceu crível, que assim como em mim
mesmo a dor fez surgirem lágrimas de desprendimento e conformação, também no
outro pudesse perpassar o mesmo sentimento e a igual energia criadora.
Não
compreendia que até mesmo pelo calcinante deserto perpassavam as vibrações
invisíveis do amor criador, que sempre é curador; e assim, no silêncio das
noites sem vento ou nas tempestades de areia mais tórridas, sempre estará lá a
energia do amor divino a cumprir cautelosamente o seu intento, transmudando a
sequidão da areia exposta ao pino do meio-dia em borbulhante barro, cheio de
germes vitais do amanhecer das raríssimas noites de torrencial chuva.
Foi
exatamente no metafórico amanhecer úmido do meu deserto que permiti contato com
o metafórico deserto do outro. Foram das lágrimas que chorei na solidão
indevassável e opressiva do meu deserto que nasceu a rosa também metafórica que
encontrou e deu saudade de alguma coisa esquecida, mas duvidosamente preciosa
guardada lá no fundo seco do metafórico deserto do outro; tendo também
metaforicamente nascido daí as lágrimas que irrigaram o próprio deserto
metafórico do outro. Sendo que o outro de quem falo nem é metafórico, por mais
que seu deserto assim seja chamado.
Na
verdade, é necessária apenas pequena fissura na barragem limitante, sufocante e
arrogante da individualidade do outro para que a muralha vá se dissolvendo aos
poucos na umidade líquida das lágrimas. Sabendo que tudo é metafórico: o
indivíduo, a muralha e as lágrimas.
O
que haverá por dentro do outro? Se somos todos a imagem do criador é bem certo
que o outro de alguma forma se pareça conosco, dado todos sermos semelhantes ao
criador comum.
O
deserto do outro seria de que natureza e classificação? A solidão do outro
seria tão cáustica e escura quanto a nossa mesma? Existiria também no outro
aquele lugar escuro, escondido no mais profundo do seu ser, onde tal qual eu,
guardasse os sentimentos mais doridos e as saudades mais desejadas?
Desde
o leito aberto de minhas lágrimas, fui abrindo caminho através do outro,
embrenhando mais e mais em seu deserto; nisso descobrindo o quanto que os
desérticos humanos são iguais, no tanto que sentem os mesmos medos, principalmente
uns dos outros, mas também, no mesmo tanto que guardam tesouros valiosos,
cheios de purezas, incondicionalidades e divino amor. Nessa verdadeira bandeira
dos sentimentos, encontrei algum oceano interno de amor virginal, guardado num
subterrâneo mais interno ainda. Um sentimento infinito e totalmente
inexplorado, guardado pelo medo da desilusão, represado pelo sofrimento das
vivências passadas, e talvez por isso mesmo, luminoso de um brilho que somente
a pureza e a perfeição podem alcançar.
Mesmo
sem conhecer a profundidade do lago, nele entrei e me banhei, me inundando do
sentimento mais puro, do amor mais divino e da gratidão mais vibrante.
Foi
nesse dia que fui mais pleno, consciente e feliz.
É
uma imensa e profunda viagem essa de dentro de si mesmo em direção do outro,
não exatamente na busca do outro, mas do que de si mesmo, que só se pode
enxergar através do outro. E no quanto de bondade que é preciso existir no
outro para se permitir penetrar por mim, até chegar lá no mais límpido, puro e
transparente sentimento, somente onde, através do outro, nós nos revelamos a
nós mesmos.
Tudo
muda completamente, seja em nós ou fora de nós. É como se uma luz a mais da
Consciência se acendesse alumiando um cadinho mais, quase imperceptivelmente, o
mundo. Afinal, a grande lição que se pode tirar duma história que nunca tem fim
porque em instante algum de sua narrativa tem começo é que no cuidado e no bem
que podemos praticar em benefício do outro é onde mais encontramos a nossa
verdadeira essência.
Igualmente,
essa entrega verdadeira permite ver no outro sua própria humanidade, seus
próprios defeitos e imperfeições, criando compreensão e cumplicidade, ao invés
de rancores e desilusões. Nesse nível de trocas, o amor jamais poderá se
transmudar em ódio, rancor, intrigas, ciúmes nem qualquer outro sentimento
distorcido, porque o metal mais nobre não se transmuda no metal mais grosseiro.
A alquimia só acontece do metal bruto para o nobre.
Não
tivessem as folhinhas desse peturrito caderno se acabado contaria aqui mesmo a
história, esta sim, com começo, em que se deu toda essa alquimia.
Ao
final da leitura, Clarice se sentia atônita, paralisada pela sutileza das
palavras que acabara de ler. Deitada, como estava ao fazer a leitura, ficou
contemplativa procurando significar o conteúdo que acabara de ler. Não
esperava, ao iniciar a leitura, encontrar uma história de amor, se é que
realmente se poderia dizer se tratar aquela de uma história de amor. Sem nomes,
sem cenas descritas em minudências, sem os pontos de vistas de ambos os
amantes, aquela narrativa cheia de fracassos; como dizia o próprio texto, cheia
de fins sem começos, ao final conduziu o narrador ao encontro de alguém, que na
verdade seria a essência dele próprio.
Se
perguntou, afinal, quais seriam as verdadeiras razões que nos impelem a todos
nós à busca de uma companhia, de alguém com quem dividir as dores e as belezas
da vida. Por muito tempo, compreendeu ser apenas o instinto de procriação que
convencia os humanos a essa busca. Portanto, atribuía ao instinto mais
animalesco e primitivo da espécie essa necessidade. Nada tinha a ver com a
procura da alma gêmea tão inerente ao romantismo. O sentimento de embriaguez
tão próprio dos enamorados não passaria de uma reação hormonal dos corpos
ávidos do cio na busca última da procriação da espécie.
Desde
as suas reflexões compreendia que a fidelidade e a união duradoura entre os
casais não eram da natureza da espécie humana, mas uma contingência imposta
pela própria sociedade. Na sua natureza mais primitiva, tinha a convicção de
que a espécie humana não propenderia à união entre casais, mas apenas a sua
manutenção exclusivamente pelo tempo necessário à criação da prole comum. Se
lembrava perfeitamente de uma leitura que fizera já havia muitos anos sobre as
origens da família, de onde descobriu através do pensamento de Engels que as
comunidades humanas mais primitivas se organizavam indiferentes à verificação da
paternidade da prole, afinal, biologicamente existe apenas a certeza da maternidade.
Naquelas comunidades, não havia como atribuir a paternidade de um filho.
Segundo esse pensamento, com o qual sua condição feminista concordava
irrestritamente, a fidelidade surge apenas quando o varão tem a necessidade de
atribuir a sucessão de suas propriedades a seus descendentes, daí surgindo o
dever de fidelidade para a mulher e toda a histórica opressão dos homens contra
as mulheres.
Sua
experiência de vida a convencia plenamente de que não existia nem o amor
romântico nem muito menos que qualquer pessoa, sejam os homens, sejam as
mulheres, seria capaz de ser fiel. As declarações públicas de amor e
fidelidade, assim como todos os discursos e promessas nesse sentido eram para
ela ignóbil hipocrisia, nada tendo a ver com a verdadeira natureza dos seres
humanos. A verdadeira natureza humana era a de se envolver com vários parceiros
sucessiva ou concomitantemente. Era essa a razão das infidelidades das quais
incessantemente Clarice testemunhava ao longo da vida.
O
seu próprio ambiente de trabalho era assim, o que afinal era uma simples
réplica do mundo inteiro. Já se cansara de ver vários dos seus colegas de
trabalho casados se envolvendo com outros, casados ou não. Alguns sequer
intencionavam discrição nos casos que mantinham, outros agiam com maior
sutileza. Era essa a única diferença que notava porque praticamente todos
mantinham casos extraconjugais, fossem intensos e públicos, fossem discretos e
quase imperceptíveis. Nas confraternizações que eventualmente faziam todos eles
apareciam com seus cônjuges oficiais e assim conviviam socialmente com
tranquilidade enquanto reproduziam em suas falas o discurso moralista do
matrimônio perfeito.
Era
essa a verdadeira face da sociedade. Ela mesma já não acreditava nas pessoas.
Para ela todos os homens mentiam e eram absolutamente incapazes de se manterem
fiéis. Eram todos absolutamente impotentes diante da força da natureza caçadora
e animalesca do seu instinto animal. Trair e buscar satisfazer sua lasciva era
tão inevitável quanto sentir fome ou se render às necessidades fisiológicas da
vida cotidiana. Os homens eram mais afoitos e por isso se expunham mais, porém
as mulheres guardavam no silencio de sua intimidade a mesma animalidade, mais
bem disfarçada pela polida capa social do recato e da contenção femininas. Mas
as mulheres também sentiam a mesma propensão à traição que os homens, porque
mesmo oprimidas não conseguiam se libertar dessa propensão natural à satisfação
espasmódica do gozo.
A
vida lha ensinara isso. Já sentira a força do amor e por isso já se entregara como
uma inocente cordeira ao sacrifício da entrega ao outro. Já recusara a traição,
consciente da pujante dor que sua consciência a infligiria caso cedesse à
tentação carnal. Mas nunca recebera a reciprocidade porque todos os homens que
conhecera a enganaram e iludiram, causando-lhe a aflição do sofrimento causado
pelo engodo. Por vezes tão repetidas isso aconteceu que ela concluiu pela
impossibilidade ontológica da humanidade em se manter coerente aos compromissos
assumidos em matéria amorosa. Já sentiu tantas vezes essa desilusão que também
deduziu que aquela voz dentro de si que a aconselhava a se manter fiel à pureza
do amor que nutria nada mais era que a opressão social instalada em seu
inconsciente que a condicionava a se autopoliciar, porque suas leituras da
juventude também a ensinaram sobre o poder limitador e silente exercido pela
ideologia, ao final, talvez o maior de todos os vigias sociais que existem.
A
partir de certo momento de sua vida, desiludida pelos seguidos e fracassados
relacionamentos, ela também cedeu a essa verdade, acreditando que todas as
pessoas com quem cruzasse em uma calçada qualquer seriam ontologicamente infiéis
porque são todos de natureza animalesca e maléfica. Também, como eles, passou a
se comportar como se fosse duas criaturas distintas. A primeira, a criatura
social, pudica e contida em público, mas lasciva e insensível na intimidade.
Nas rodas sociais era discreta, de pouca fala. Nos contatos públicos com outros
homens era recatada e de gestos delicados, sempre amável. Mas quando estava a
sós com qualquer homem que a incendiasse os desejos se entregava aos calores
sem reservas, como fazem as fêmeas no cio diante do macho eleito, bem ciente
que no ciclo seguinte se entregaria a outro com a mesma intensidade com a qual
se rendia ao da vez.
Não
importava que os homens fossem ou não casados. O que a interessava era a
satisfação hormonal porque toda a vida humana talvez se resumisse apenas a
isso. Era preciso aproveitar o melhor que a vida pudesse oferecer, já que os
momentos de tormento viriam independente de qualquer desejo. Eram inevitáveis.
Por
mais que entre as boas coisas da existência compreendesse que era melhor viver
em família, que nas horas difíceis era importante contar com um companheiro e
que a parceria de um casal deveria ser muito mais que o sexo, apenas, as
sucessivas desilusões amorosas que tivera que enfrentar demonstravam a ilusão
dessa quimera. A verdade mesmo é que estamos sozinhos na jornada da existência
e que na família não cabia aquela parceria firme, incondicional e valiosa da
união de duas carnes em um só espírito. Isso era conversa para os padres, um
simples discurso para manter as estruturas sociais.
Por
isso, a partir dessa constatação não sentia remorsos nem em se envolver com
homens casados nem em se relacionar com mais de um parceiro ao mesmo tempo, sem
o conhecimento uns dos outros. Porque também imaginava que a mesma coisa eles faziam
com ela. Era uma vida paralela porque a hipocrisia social não lha permitiam
publicizar nem essas ideias nem muito menos essa prática. Apenas em raras
ocasiões, normalmente entorpecida pelo vinho, conversava sobre suas aventuras
com poucas amigas. Para a mãe e a filha, com quem vivia, suas eventuais saídas
eram meio que misteriosas porque jamais contava detalhes sobre o que fazia nas
noites de farra supostamente ao lado das amigas. Eram nessas ocasiões, às vezes
em viagens também com as amigas, que se entregava sem remorsos aos prazeres da
carne e do vinho. Para além disso, era a realidade dura da existência o que havia.
Acordar cedo, comparecer aos plantões em dias alternados, de acordo com a
escala de trabalho, e em casa cuidar da mãe doente e da filha já adolescente.
Em
muitas ocasiões perguntava sobre a falta que a presença masculina naquele lar
afetaria na personalidade de sua filha, que depois de tantos pareceres
negativos sobre os varões acabava por expressar perigosa antipatia por esse
gênero. Mas, como não queria que seu rebento passasse pelos mesmos
desassossegos que ela em matéria de amor, seguia firme ensinando que todos os
homens são perigosos e mentirosos.
Já
estava praticamente conformada com essa crua realidade da vida, disposta a
seguir até o final da existência carregando os fardos das responsabilidades em
troca de uma pitada de ilusão, que encontrava em beijos quentes e membros
excitados, assim como na embriaguez do deus Baco, quando encontrou o
caderninho. E mesmo estando absolutamente convicta das suas certezas, graduadas
ao longo das últimas décadas, ainda assim se encantou com o texto lido. Será
mesmo que existiria alguém assim, como o misterioso personagem que o escrevera?
Em nenhum canto do caderno havia qualquer endereço. Nenhuma pista sobre quem
seria o seu autor. Apenas deduzia da própria leitura que se tratava de um homem
aparentemente profundo e disposto a buscar e encontrar a verdadeira essência da
vida.
Era
estranho que o personagem, para compreender a si mesmo, necessitasse encontrar
no outro sua própria essência e por mais que a experiência lhe ensinasse a
falácia de todos os argumentos lançados pelo texto, ainda assim ficou encantada
com o seu conteúdo. Um desejo secreto e misterioso de viver aquele sentimento
e, assim, também encontrar a si mesma em outro alguém acendeu-se em seu âmago
de forma tão penetrante que desde esse momento não conseguia mais não replicar
esse desejo, por mais utópico que reconhecesse ser ele.
Mesmo
ainda descrente da verossimilhança da possibilidade, por um instante se
permitiu imaginar como seria diferente sua vida se possuísse um companheiro.
Alguém com quem ir ao supermercado fazer as compras semanais; pudesse ter ao
final do dia para conversar, apenas desabafar às vezes e em outras trocar
ideias e planejar como enfrentariam as dificuldades. Alguém para fazer amor
antes do sono noturno, mas que também lhe doasse desinteressado carinho na
manhã seguinte. Alguém com quem tivesse longas conversas sobre o sentido da vida;
que lhe auxiliasse a encontrar conforto espiritual na caótica rotina em que
vivia; mas que em outras vezes simplesmente a embalasse, silente, nos momentos
de relaxamento.
Ah,
como seria bom ter alguém assim. A quem não necessitasse suplicar por afeto nem
fingir o que não sentia em troca de alguns toques e beijos nem sempre tão
prazerosos. Mas logo imaginou os defeitos que esse homem supostamente teria. De
alguma forma a exploraria; por alguma maneira praticaria qualquer forma de
violência contra ela; e necessariamente mentiria sobre as amantes que manteria
em segredo. Até o fatídico dia em que ela descobria a enganação e, como aos
outros homens da sua vida, o dispensaria cheia de rancores e mais prenhe ainda
da certeza eram por sua própria natureza enganadores e traiçoeiros. Indignos de
confiança nenhuma.
Mas
não adiantava a razão convencer Clarice da impossibilidade de um encontro nos
moldes pretendidos pelo autor do caderninho. Sua convicção denunciava que nem
existiria a amiga incondicional e fiel do desejo emanado pelo misterioso
personagem, nem muito menos haveria de existir alguém disposto a doação tão
pura e entrega tão incondicional. Mais impossível ainda era encontrar a própria
essência através de outro, longe da contemplação e do isolamento dos eremitas e
místicos. Contudo, não adiantava nenhuma razão a esmagar a pobre Clarice com
essas e tantas outras certezas, ela ainda assim não conseguia mais tirar de
dentro de seu coração o desejo de conhecer àquela pessoa tão incondicionalmente
disposta à descoberta do novo; tão convictamente ciente que era possível criar através do pensamento
e que essa potência humana era tão poderosa que, da mesma forma que Deus criou
a Eva desde Adão, também essa singular criatura seria capaz de criar a pessoa
ideal para as pelejas mundanas. Mesmo estando bem contados os mais de quarenta
anos de Clarice, tão cheios de desilusões e certezas do proceder egoísta dos
homens e mulheres todos; mesmo sabendo ser ela mesma dessa natureza egoísta e
mesmo tendo ela própria já tantas e repetidas vezes sido a ignóbil criatura que
abandona e engana; apesar de tudo isso; de tão enraizadas convicções ela passou
a desejar conhecer o misterioso autor do manuscrito.
Desde
então, em todos os lugares que ia começou a ficar mais atenta aos passantes,
reparando nos detalhes dos que cruzavam seu caminho, tentando reconhecer no
olhar disperso de um; no caminhar contemplativo de outro; no sorriso enigmático
de mais outro a verdadeira identidade do autor do caderninho. Imaginava como
seria o comportamento de alguém tão focado na descoberta de si próprio através
do mergulho no outro, naquela amiga incondicional e fiel a quem imaginou
unilateralmente, de maneira egoísta, indiferente aos quereres do universo e que
mesmo assim teve fonte em poder tão magnetizante que foi capaz de encantar e
convencer o próprio cósmico para a sua realização. Não o reconheceria por
nenhuma característica física específica, mas pela energia magnetizante que o
arrodearia. Seria ela sensível o suficiente para percebê-la?
Aquela
pessoa imaginária criada em sua memória através dos sentimentos e desejos
expostos pelo texto era exatamente aquele a quem sonhou desde as ilusões da
menina que brincava de bonecas, mais tarde replicado nos calores e descobertas
da adolescência e repetidas vezes espancado em cada decepção que passou porque
era tão diferente de todos os homens que conhecera durante a vida que sua mente
racional a convenceu quase completamente se tratar de uma quimera impossível
pela sua própria definição. Mesmo sabendo impossível existir esse alguém
continuou procurando por ele em cada trajeto entre a sua casa e o ônibus; entre
o desembarque e o hospital onde trabalhava; em cada novo paciente ou
acompanhante que lhe cruzasse o caminho; no trajeto de volta para casa; no
supermercado e também nos raros domingos em que ia com a filha ao parque.
Desconhecendo completamente o rosto e as demais características físicas daquela
criatura, estava sempre atenta à sutileza das energias a seu redor, sabendo por
algum mecanismo desconhecido que reconheceria sem esforço quando o encontrasse.
Desejava
não alguém com as mesmas características do autor desconhecido do caderninho,
mas ele próprio. Estava bem ciente da parte final do texto, quando anuncia que
enfim encontrou a sua criação, mas algo lhe dizia que o manuscrito revelava o
tempo futuro, quando o autor encontraria na verdade a própria Clarice. Era dela
própria de quem as folhas miúdas do caderninho falavam porque era exatamente
esse o desejo que tivera ela mesma. Tanto quanto seu enamorado, Clarice também
o imaginava e tanto quanto ele o fazia com o poder unilateral do desejo poderoso
o suficiente para convencer o Criador da beleza e inevitabilidade de realizá-lo.
O
encontro poderia ser a qualquer momento, mas ao mesmo tempo a razão a
denunciava da igualdade rasa de todos os homens, sempre mentindo e traindo. Ela
também tinha seus fogos e quando em vez saía com um mancebo mais novo e casado,
que dera de virar seu colega de trabalho. Era normal já, nos dias de plantão e
após o expediente, saírem juntos para as misturas fluídicas e intensas do sexo.
Nessas ocasiões ela sempre voltava bem tarde para casa, o mais tarde que
conseguia segurar o mancebo longe da mulher. Mais que da companhia do outro, a
quem reconhecia como fútil e perigosa a si mesmo e aos outros a seu redor, o
que encontrava Clarice era a fuga da realidade da rotina de trabalho extenuante
e cuidados com a mãe doente e a filha adolescente. Que haveria de ser daquela
menininha perdida na inocência de não compreender nem mensurar as coisas que
lhe aconteciam, a puberdade aflorante e de sua própria natureza cheia de
dúvidas e a realidade de solidão e sentimento de abandono em que vivia?
Claro
que Clarice não hesitaria um instante quando de verdade encontrasse o personagem
buscado sensitivamente em cada lugar que estava, em cada olhar que reparava e
em tantos gestos discretos e aparentemente imperceptíveis, às vezes só
reparados por ela mesma. Ela de pronto ficaria com o seu amor, pois desde já,
mesmo sendo aquilo uma etérea, quase impura fantasia; ela sabia que aquele era
sim o seu grande amor. Era mais a imponderabilidade da fantasia se tornar real
que, ao mesmo tempo em que buscava o verdadeiro amor da sua já tão sofrida
vida, também não se envergonhava da entrega carnal que fazia regularmente, sem
culpas ou qualquer outra ponderação de nenhuma outra ordem. A mulher enganada, a
desimportância que dava ao fato do amante possuir não apenas a mulher, mas
também outras amantes; nada disso tinha importância para ela. Não acreditava
mesmo na capacidade das pessoas em serem íntegras, fiéis e corretas em suas
palavras e ações!
Isso,
até o dia em que imaginou, logo cedo ao sair de casa, o que diria ao seu amor
sobre o amante caso o encontrasse hoje mesmo. Quem sabe até no próprio hospital,
como algum paciente, um enfermeiro novato ou até um estreante na equipe de
médicos plantonistas. Imediatamente cessaria qualquer contato carnal com o
amante, disso ela não duvidava nem por um instante. Na verdade, ele não lhe
faria falta alguma. Ao contrário, sua personalidade doentia a estava já tornando
uma pessoa ainda mais impaciente e rancorosa, principalmente em casa. Seria
mesmo um alívio encontrar um motivo bem concreto para anunciar o fim das
aventuras.
A
questão mesmo era o que dizer ao seu amor. Que era dada a esse tipo de aventura
não só com aquele, mas também com outros colegas. Que não se importava se
fossem casados ou solteiros. Que com bem poucos teve desejo de manter namoro.
Que a partir de certa idade, quando percebeu definitivamente a incapacidade dos
homens em serem monogâmicos, passou a evitar que as pessoas com quem
eventualmente se relacionava conhecesse ou tivesse contato mais íntimo com sua
família. Que ela fazia tudo isso, no fundo, porque tinha medo de se machucar a
si mesma e àquelas duas criaturas a quem jurara cuidar com tudo o melhor que
tivesse dentro de si. Que era até conhecida como uma mulher fria e egoísta.
Não.
Ela não seria capaz de dizer esse tanto de coisas para alguém a quem acabara de
conhecer, por mais que confiasse na lisura de pensamentos e ações de que aquele
homem misterioso era capaz. Não fosse capaz disso; não fosse ele exatamente do
jeito que Clarice o estava imaginando agora toda essa história não poderia ser
jamais verdadeira. Ela não teria coragem de abrir ao amado toda a verdade
porque temia seriamente que, diante de sórdidas revelações não conseguiria
ficar ao lado dela, mesmo que a amasse e tivesse a grandeza de perdoar esses e
tantos outros pecados inconfessos. A pureza daquele personagem, a cada dia mais
amado ainda que persistisse não descoberto seria algo tão superior, de ares
angelicais, daquelas coisas que não conseguem permanecer muito tempo insufladas
pela impureza de sentimentos assim tão encardidos quanto os dela.
Ela
imaginou naquele dia que se o encontrasse hoje nada diria sobre o seu passado.
Se conhecia o suficiente para ter certeza da sua plena capacidade de amar
intensa e integralmente ao outro, sem nenhuma mancha, em pensamento que fosse.
Mas não se importava em dar isso aos outros, senão para aquele único e
exclusivo ser amado porque só ele era capaz de ser recíproco, firme e
incondicional. O lago de amor, no seio mais profundo do seu coração existia sim.
Estava lá puro e intocado como predizia o próprio texto e era assim não pela
falta de pretendentes, porque Clarice se tratava de belíssima mulher, de
cabelos loiro escuro, pele alva da cor da neve, corpo desenhado em forma de
violão e andar discreto, mas charmoso, que mesmo se fazendo parecer
imperceptível era por isso mesmo denunciado por todos. Era assim porque Clarice
represara os sentimentos de amor, tão castigada que foi pelo desamor desde
menina.
Seria
uma tragédia perder o amor da sua existência. Por isso ela calaria diante do
seu passado, diria que conhecer o passado não adiantaria de nada para os dois.
Qualquer pessoa com mais de quarenta anos tem um passado em que necessariamente
encontrou desamores, esperanças e desejos irracionais. Falar disso era não só
perda de tempo como motivo para se magoarem um ao outro. O amor os convidava a
olhar para a frente porque lá sim, ela lhe prometia amor, fidelidade e
confidência do mesmo tanto que ele imaginou em seu texto. Por isso não diria que
no trabalho ainda via todos os dias o antigo amante e até trocava palavras com
ele. Dava conselhos mesmo. Mas só isso. Nada de carícias, às vezes umas poucas
mensagens quase desinteressadas às quais ela não respondia ou se fazia
desinteressada no assunto e vez em quando ela até percebia algumas piscadelas
que jamais eram correspondidas. Para que falar essas coisas se ela era convicta
da sua inabalável capacidade de ser digna, ética e fiel? Porque se tudo viesse
à tona a pureza daquele homem impossível não se permitiria contaminar com a
humanidade desiludida de Clarice.
Que
Deus a protegesse de aquele peculiar ser, talvez até de natureza angelical
mesmo, fosse sensitivo também para descobrir o passado da sua amada, porque se
assim fosse ela estaria definitivamente desterrada porque além de desmascarada
em sua omissiva mentira, também teria de se ver com as consequências de suas
próprias inconsequências diante do amor dos outros e da dedicação deles paga
com a indiferença e a traição. Deus a protegesse desse desterro tão horrível e
desesperador. Porque mais terrível que viver toda a existência sem uma alma
metade era de a ter encontrado e a deixado se perder no desespero sórdido de
quem quer por todas as coisas sagradas amar, mas ao mesmo tempo se entrega a
vida inteira exclusivamente ao que é o não amor, a indiferença e às vezes até à
maldade.
A
possibilidade desse momento imaginário algum dia poder vir a acontecer levou Clarice
quase ao desespero. A partir daquele dia, o medo secreto de se encontrar de
fato com o seu amado a qualquer momento, a fez mudar atitudes. Não era mais tão
dada aos diálogos, ria menos e, de verdade, se desinteressava totalmente por
qualquer outro que não fosse o seu ser imaginário. Era uma verdadeira loucura
aquilo, ela bem sabia. Porque por mais racional que fosse a certeza da
inexistência de algum ser tão puro e íntegro quanto o que escrevera no cadernito,
ainda assim ela passou a recusar qualquer contato íntimo que não fosse do amor
verdadeiro; do ser amado e querido tanto mais quanto ele era impossível.
Desinteressada
pela aventura do mundo, retornou inteira para casa, convivendo e, sobretudo,
gostando de conviver com sua família, sem pressas, impaciências nem ressacas;
mas de forma graciosa, delicada e profunda quanto jamais lembrava de ter vivido
antes. Também permitiu que as duas vislumbrassem e também se banhassem no lago
de amor que havia dentro dela mesma, mas que só descobriu quando vislumbrou a
pureza da mensagem que lera no caderno.
Assim
foi Clarice levando a vida devagarinho, sempre aprendendo da companhia de sua
delicada família, mas feliz exatamente por isso. Quando quase nem mais
acreditava que acharia a outra metade de seu par, deu de esbarrar, uma esquina
antes do hospital, saindo do trabalho, com J. Pinto Fernandes, senhor de uns
cinco anos mais velho que ela, que pedia a direção de um museu que ficava ali
nas imediações de onde estavam. Ela não conseguiu recusar a ousadia do pedido
do contato e seguiu falando com o interlocutor, marcando encontro, beijando na
boca e conversando com prazer que, de verdade, ela jamais havia sentido em
relação nenhuma. Com os encontros, ficou sabendo que J. Pinto também gostava
das letras, sendo não somente bom em lê-las na imensa profusão de livros que
consultava, como também as escrevia em prosa e poesia. As conversas dele sempre
tiveram tudo a ver com o que estava escrito no caderninho, mas dele só falou
para o moço simpático e cativante, que falava de magia e se dizia estudante de
misticismo, já bem depois, quando estavam já em relação estável, ele
frequentava a casa dela e já se apresentavam como família. Todos se queriam e
viviam em profusa harmonia, como nas histórias de final feliz.
Mas,
sobre o caderninho, J. Pinto Fernandes guardou absoluto silêncio. Ouviu a
história fantástica que lhe contava Clarice sério e impassível, tendo ao final
dito apenas que a havia entendido muito bem. Nada, absolutamente nada disse
sobre a certeza de Clarice de que havia encontrado naquele caderninho a sua
metade, o amor de sua vida e que estava totalmente convicta ser ele mesmo, J.
Pinto, a pessoa que encontrou no escrito. Ela tão menos perguntou nada depois
dessa conversa. Para o resto da vida manteve silêncio também sobre o assunto.
Teve medo de que a resposta não dita era de que ele não havia escrito nada
daquilo e que, talvez, ele não fosse a pessoa que ela imaginava que fosse, que
pensasse bem se deveriam mesmo ficar juntos.
Como
o silêncio sobre o assunto não os importunou a nenhum, seguiram e foram felizes
como os casais às vezes conseguem ser. Humanamente, sempre.
Jorge Emicles

