PARIS É UMA FESTA!
Nem adiantam as fotos, nem adiantam os
vídeos. Não há meios de registrar a sensação de andar pelas ruas de Paris,
senão pisando nas suas calçadas; entrando nos túneis às vezes escuros de seu
metrô, adivinhando o subterrâneo ainda mais profundo, obscuro e belo que existe
logo ali para além das paredes grossas de pedra, adiante poucos centímetros da
janela do vagão do metrô em que se está andando, quase incrédulo diante da
constatação da dimensão profunda a que se pode chegar uma civilização. Se o
subterrâneo de galerias, que formam um labirinto indecifrável, construído desde
séculos esquecidos da origem medieval da cidade já deslumbram por si mesmos,
imagina então a beleza que não se descobre ao sair desses túneis subterrâneos
que cortam e recortam a cidade fazem já muito mais anos que os da invenção da
locomotiva, aquela besta quase humana que inspirou os carros do metrô
parisiense antigos e modernos.
O que se descobre é uma cidade fascinante,
que apesar de imensa e magnânima não chega a ser intimidadora; que de alguma
forma age como uma esfinge que se convida a ser decifrada sob pena de devorar o
viajante incauto; mas que também seduz não exatamente por sua beleza, mas,
sobretudo, pela grandeza que essa beleza assume nos seus lugares. Tudo lá é em
proporções desconcertantes. Do céu, já se avista a torre Eiffel, da torre se
observa não somente as cúpulas magnânimas do Palácio dos Inválidos, da igreja Sacré-Couer,
como também as incríveis proporções do Campos de Marte e da ponte Alexandre
III.
É essa a mesma torre que, à noite, aponta
o seu canhão de luz para todas as outras direções, apresentando em todos os
cantos beleza e mistérios ainda mais fascinantes. Ao mesmo tempo em que os
parisienses cantam as glórias da revolução francesa, fazendo memória a Rousseau
em seu Panteão, também guardam reverente silêncio à antiga presença da
guilhotina na praça da revolução, hoje rebatizada por Restauração. Essa mesma que
viu, entre tantos, cair a cabeça de Luiz XVI, Maria Antonieta, Danton e
Robespierre. Mas logo ali, onde a vista ainda alcança, estão os portões do
jardim das Tulherias. Para um pouco mais além já está o palácio do Louvre,
cujas dimensões só podem ser compreendidas caminhando pelos seus deslumbrantes
corredores e salas, em si mesmos um museu de indizível perfeição estética, mas
que ainda assim são ornados das artes mais sedutoras, cheias de perfeição e
detalhes emocionantes. Através das inesgotáveis alas se passeia da arte egípcia
mais misteriosa, cheia de detalhes indecifráveis até aos mitos, deuses e senso
de perfeição dos gregos, chegando ao esmero das pinturas renascentistas e todas
as escolas de arte fundadas ali desde as luzes do iluminismo.
Tudo isso prova a grandeza intelectual a
que a espécie humana é capaz de chegar, talvez nunca repetida na história da
humanidade, se por acaso não forem verdadeiras as mitológicas tradições de
Atlanta, tão estranhamente repetidas pelo próprio Platão em seu opúsculo de
despedida. Se há ou houveram civilizações mais elevadas intelectualmente que a
greco-ocidental se desconhece, e isso só é razão suficiente para o mergulho em
seu âmago mais profundo; e esse mergulho é bem facilitado através do passeio
destemido pelas ruas de histórias já quase sem memórias, de tantas e tão
antigas que são as da cidade de Paris, porque é ali onde melhor se encontra os
símbolos de grandeza dessa civilização. Mesmo que, da mesma forma que o
esplendor, Paris também reflete a miséria humana do egoísmo, da exploração e da
maldade que são tão típicos dessa civilização, para muitos, o próprio motor da
sua existência; mas nem assim se apaga o opressor sentimento de grandeza que só
se sente ao se percorrer a pé os infinitos jardins de Versailles. Tão bem
pareados com a grandeza e opulência não apenas do palácio, mas igualmente as do
grande e pequeno Trianon.
Nada disso mesmo se poderá captar por
fotos ou vídeos!
Jorge Emicles

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