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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015


QUIMERA


                   Sentimento lancinante,
                   Dor que corroe sem cortar
                   Alvo e límpido mosaico de esperança e sonhos
                   Que devo esperar de ti, oh ilusionária quimera?


                   O mundo, o que seria não fossem as infinidades de sentimentos que fazemos repousar sobre ele? Ser etéreo, estéril e inútil, por certo. Não é que alimentemos de sonhos os nossos dias; é que criamos os dias, as noites e o tempo inteiro desde a capacidade que temos de produzir sonhos, objetivos, necessidades, possíveis ou impossíveis, mas realizáveis todas e sempre.
                   O mundo não é de ilusão. É a ilusão mesma. Não há a solidez das rochas que se levantam em uma montanha. Há sim um infinito vazio entre os elementos atômicos da mais sólida matéria. Não há a densidade do cósmico a se expandir dentro de si mesmo, mas sim um vácuo profundo e aparentemente inútil a separar as peças gigantescas do quebra cabeça da criação. Não há o mundo tal qual secamente se nos revela; há a interpretação que dermos às suas coisas.
                   A dor tem o tamanho da importância que damos ao sofrimento.
                   Sem nós o mundo não existiria, pois não há aquilo de que não se tem consciência. Somos nós que damos densidade a tudo na existência e é essa consciência de nossa própria consciência que nos aprisiona nas armadilhas da egolatria, da importância que insanamente emprestamos a nós mesmos, pois definitivamente sem nossa consciência do mundo o mundo não existiria. Não, pelo menos, para nós.
                   Fora de nós e de nossos preconceitos até pareceria que nada poderia existir. Por isso, talvez, precisemos ser eternos, pois a nossa eternidade pressupõe a manutenção da consciência de mundo e dela, a do mundo mesmo.
                   Se fora de nós não há o mundo, dentre de nós ele é infinito, porém ainda mais indevassável que o pequeno universo que se apresenta para além de nossas fronteiras. Parece ser bem mais fácil desenvolver a mais inimaginável das tecnologias; povoar todos os planetas habitáveis do cosmo e expandir ao infinito a civilização humana que desvendar para nós mesmos algum insólito sentimento que nos povoe, atormentando nossa existência e impingindo-nos, secretamente, a buscar a insípida, impossível por natureza, imortalidade na carne.
                   Ainda assim não valerá jamais a pena viver sem o sonho do impossível.


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

sábado, 27 de dezembro de 2014


ADEUS, PAI!
                   Aquela, sem dúvidas, foi a viagem mais adiada; a menos pretendida. Em uma palavra, o mais medonho de todos os traslados. A verdade dos fatos se tornava cada vez mais indeclinável, mesmo assim o quanto pude adiei aquele derradeiro encontro. Nós bem que não precisávamos dele! Para que a despedida final; o que poderia nos legar momento tão contumaz, quase sem sentido na nossa existência. O que vale é o que foi, o que se fez, aquilo que se desejou e cumpriu. Não vale a inércia da morte e a saudade do que não foi dito nem feito, por mais que tenha sido desejado.
                   Foi assim, nessa fuga do inevitável que recebi a triste notícia de tua partida. Serena, rodeada dos maiores amores, dos que souberam como ninguém honrar a tua vida e eternizarão a tua memória. Que partida feliz, cheia de graça e plena de esperança! Ao final, desmentiste a lenda de que é sempre triste, feia e ignóbil a morte. A tua não merecia ser e definitivamente não foi assim. Partiste em paz e em paz deixaste os teus. Não há de ter partida mais reconfortante que esta, a tua. Prova do grande merecimento que construíste em vida.
                   Aprendi a te amar mais, te vendo tão amado; a querer te homenagear mais, te vendo tão homenageado; de memória tão concorrida. Algo que preciso eu mesmo construir em minha vida!
                   Quais deveriam ser minhas últimas palavras a ti? De que adeuses; de que senões; de que poréns deveria me ocupar? Sinceramente, de nenhum. A singeleza de tua partida igualmente prova que o silêncio na maioria das vezes prova e demonstra mais coisas que as mais contundentes das palavras. Não duvido do poder das palavras, mas a tua lição se encontra na pujança do silêncio. Pois as últimas palavras que tinha a ti eram exatamente aquela mirada silenciosa; aqueles pensamentos intensos; e o filme de lembranças que passou em minha conturbada mente. Não haveria resposta possível àqueles intensos sentimentos.
                   Então o silencio foi nosso melhor diálogo, e nesse silêncio guardarei para sempre o encantamento daquele instante. No coração, de onde nem pela morte me desapegarei dele!
                   E se mágoas houveram; carências existiram; dores se plantaram; e se faltaram algumas revelações; se não sonhamos os mesmos sonhos em algum instante; nada disso tem importância, pois restou tudo apagado no turbilhão de cinzas que um dia foi teu corpo. Ao pó sempre retornaremos. Tudo isso já passou. Eternas são as boas lembranças; imortal é o espírito e o amor que plantamos.
                   Fica em paz, PAI, na eternidade da minha memória e no infinito do Cósmico!

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014




REMINISCÊNCIAS

                            Há uma noite a menos na cúpula de minha insólita existência. As horas são lentas, às vezes tão letárgicas e incalculáveis que nos enfadam e iludem pretendendo-se infinitas. Mas cada hora a mais representa o mesmo tempo a menos da existência e cada missão adiada significa a renúncia a algum afazer, tantas vezes tolo e banal, outras porém imprescindível à pretendida eternidade.
                            A verdade mesma; a cruenta, insensível e pernóstica verdade, é que apenas descobriremos o quanto é insignificante a pueril história de nossa existência pessoal quando ela já tiver se esgotado totalmente. Há um completo abandono de si mesmo e em si mesmo, pois o que queremos da vida não é nada. Ela nada significaria não fosse finita, inútil, frívolo e impossível desejo de imortalidade.
                            Nossas mães estrelas, entretanto, são tão inalcançáveis pela vastidão do Universo, que nem nossa galopante imaginação jamais será capaz de presumir o confim mais distante e desassossegado do cosmo. Nada existirá para além da nossa consciência? E em reverso, tudo o que pensamos há? Há então, aquele mundo paralelo, de luz pujante, sabedoria incomparável e beleza indescritível que alicerço em minha podre mente? Não há mais o pernóstico sentimento de sofrimento que decreto seja extirpado de minhas entranhas tão despoticamente quanto o mais vulgar dos tiranos decreta a morte de seus conselheiros mais temíveis?
                            Decreto vão; ignóbil este, pois não se invalida o que se emprenha na própria essência. Que horror, pois segue existindo dentro de mim o que dentro de mim suicidei. Não se nega o sentimento mais legítimo, tanto quanto não se omite a maré da irresistível força gravitacional da charmosa lua.
                            Ah, aquela lua! Redonda, bela, prateada que boia na vastidão da noite pululada por um ror incontável de estrelas. As estrelas, todas elas, são presumidamente maiores que a lua. Da nossa perspectiva, no entanto, é a lua que não passa indiferente diante da nossa acabrunhada vista. É a lua, a pequena filha das estrelas (tal como nós), não a mãe de toda a matéria cósmica, quem é imprescindível aos enamorados; irresistível às águas e ao próprio ciclo de vida do nosso pequeno planeta.
                            Vês, assim, como é míope a nossa visão do mundo e da vida?


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

segunda-feira, 17 de novembro de 2014




ELES NÃO ME REPRESENTAM

                   Os vinte e oito anos da URCA são anos de lutas, conquistas e vitórias, todas imprescindíveis à difícil afirmação de um centro de educação no interior do Nordeste brasileiro, que pratica a política de levar à população abrangida pela Universidade um ensino público, gratuito e de qualidade; razão pela qual renunciou à vencida política de instituir cursos de graduação não gratuitos. Há um preço impostergável a ser pago por ações desta grandeza, notadamente quanto ao fato de ser mantida exclusivamente com os recursos do orçamento do Estado do Ceará, que é o mesmo que dizer da imposição de uma série de limites e amarras no que se refere à gestão e limite desses recursos. A decantada autonomia universitária afirmada expressamente na própria Constituição Federal sofre severas barreiras diante de um orçamento decidido pela Assembleia Legislativa do Estado. A eleição das políticas a serem executadas pela instituição igualmente são contingenciadas por essa mesma realidade. Entretanto, essa tal realidade que aflige a toda a comunidade acadêmica da URCA é lugar comum a toda e qualquer Universidade pública deste país. Que o digam as outras Universidades do Estado do Ceará; que o confirme a realidade precária das Universidades Federais país afora.
                   Falar das dificuldades, no entanto, não é igual a negar os avanços e conquistas de vinte e oito anos de história. Aquela insipiente instituição precariamente fundada no longínquo ano de 1986, que oferecia cursos exclusivamente noturnos, que possuía um quadro de professores doutores e mestres quase nulo, não tinha laboratórios e qualquer renome, seja regional, seja nacional, hoje se apresenta em pleno desenvolvimento da política de formação de seus docentes, que possuem regimentalmente o direito de se licenciar por até quatro anos para cursar mestrados e doutorados país e mundo afora, sem prejuízo de sua remuneração; agora é referência mundial em matéria de paleontologia, sendo detentora material de importante museu dedicado a este estudo e, mais ainda, possui em seus quadros alguns dos mais respeitados pesquisadores na matéria (que batizaram, inclusive, espécimes inéditos no mundo); modernamente tem em pleno funcionamento um restaurante universitário, uma residência universitária, um ginásio poliesportivo, um biotério, renovou sua frota de carros; sem dizer que iniciou já várias pós-graduações, entre doutorados, mestrados e especializações; sem mencionar ainda que tem trabalhos de seus professores publicados em periódicos dos mais consagrados, além de ela mesma patrocinar outras publicações por sua conta. É todo esse conjunto de ações que a fazem estar entre as cem melhores universidades do Brasil, tendo seus cursos bem avaliados pelos padrões tanto do MEC quanto de instituições privadas (como é o caso da Editora Abril).
                   É paradoxal, mas nem parece que estamos falando da mesma Universidade que foi execrada em praça pública, pela condução em procissão de seu féretro e inumação de seu cadáver (pasmem, juntamente com o anúncio da morte prematura de pelo menos três dezenas de seus professores – que vergonha o sindicato da categoria agourar mal tão nefasto a seus próprios filiados). Para além do mau gosto da manifestação, é salutar destacar que apregoam meias verdades, pois no mesmo passo que existe carência de professores na instituição, fato grave e que merece pronto socorro do Governo do Estado, não são todos os departamentos da instituição que sofrem dessa dificuldade. Há uma inadiável e delicada discussão que necessita ser travada no âmbito da Universidade, que diz respeito à adequada distribuição da carga horária dos seus docentes. A classe dos professores não se permite ser massacrada no cumprimento de sua carga horária; não pode abrir mão de horas dedicadas ao planejamento, à pesquisa e à extensão, é verdade. Muito menos, porém, poderá se comprazer com o fato de que alguns de seus docentes com carga horária máxima e recebendo gratificação de Dedicação Exclusiva se dediquem exclusivamente oito horas à sala de aula; não prestem contas adequadamente de suas atividades e produções acadêmicas e mesmo mantenham vínculo com outras instituições da região nas ocasiões em que são legalmente proibidos de tanto.
                   Não é responsável uma greve que dura já quase seis meses (três meses entre 2013 e 2014 e mais de dois a partir de setembro do presente ano). É de se ponderar o terrível prejuízo que vem sofrendo os discentes da instituição, privados sumariamente de seus sonhos e planos para o futuro, pois o fato lhes compromete não somente a qualidade do aprendizado, como notadamente o prazo de sua formação. Já se fala no cancelamento pura e simplesmente do semestre letivo, fazendo atrasar em pelo menos seis meses a graduação de todos os seus alunos. Menos ainda se pondera o prejuízo financeiro desses alunos, alguns, os que moram fora, obrigados a sustentar a habitação local sem dela fazerem uso; outros submetidos ao constrangimento de não poderem colar grau, pois o semestre letivo tende a ser cancelado ou pelo menos postergado, mesmo que tenham tantos alunos já galgado a meritosa posição de haverem sido aprovados em concursos públicos, mestrados, exame da OAB, entre outros. Tudo, sem falar do impacto à já cambaleante economia caririense causado pela ausência de mais de dez mil alunos diariamente, a de alguma forma impulsionar a economia local.
                   Não é responsável muito menos uma greve deflagrada em pleno processo eleitoral, quando sabidamente o governador retirante não pode se comprometer para o ano civil seguinte, conforme expressamente veta a vigente Lei de Responsabilidade Fiscal. Muito menos, o eleito tem poder legal para fazer avançar qualquer compromisso com o qual tenha se empenhado. Para quem serviria uma greve deflagrada em momento jurídico-político tão inapropriado, da qual antecedentemente já se sabia que nada de concreto poderia ser conquistado, senão os enviesados, espúrios e vergonhosos dividendos políticos? Mas é legítimo e ético a deflagração de uma greve em circunstâncias tais exclusivamente com o objetivo de construir uma candidatura de oposição à Reitoria da URCA, por meio da instrumentalização do sindicato dos docentes por um partido político? Não estar-se-ia a praticar a autofagia dentro da própria instituição? Se a greve é um direito consagrado no texto da nossa Constituição, como qualquer dos outros ali também afirmados, é de ser exercida dentro dos parâmetros da responsabilidade, consciência coletiva e defesa das instituições democráticas (em uma palavra, com razoabilidade), não da maneira distorcida com a qual vem se transmudando atualmente. Nessa conjuntura, não estaria havendo abuso do direito de greve? Afinal, é o exercício responsável dos direitos, não o seu abuso, que contribui verdadeiramente para o amadurecimento das instituições democráticas.
                   As pessoas de bem já se fartaram, advirta-se, da deflagração de uma greve que faz povoar os corredores da Universidade (antes cheios de alunos, professores, aulas e sobretudo sonhos de um futuro mais promissor a todos) da desértica solidão não somente de pessoal, mas sobretudo, de propósitos e seriedade na boa condução da luta proposta. É preciso se repovoar os corredores e salas de aula da URCA, sob pena de parecer à sociedade local e ao próprio Governo que deveras de pouco ou quase nada serve o vultoso investimento que anualmente os cofres do Estado do Ceará lega à fatigada Universidade Regional do Cariri. É pela produção dos nossos docentes; é pela dedicação dos nossos alunos que provaremos a necessidade e importância para a Região do Cariri e mesmo para todo o Estado do Ceará e alhures, da sua honrosa Universidade.

                   É neste campo em que se deveria travar a verdadeira batalha, não nos corredores tristes e desertos em que a transformaram!

terça-feira, 28 de outubro de 2014


PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

                   Passados os calores da campanha eleitoral, talvez seja o momento oportuno para se fazer algumas reflexões, que até o domingo último certamente seriam vistas como propaganda direta ou indireta para ou contra algum dos candidatos. O que precisamos verdadeiramente em matéria de política não é elegermos salvadores da pátria, nem verdades absolutas e muito menos encetarmos no debate político qualquer visão maniqueísta e excessivamente simplista da vida. O momento presente exige uma análise séria e realista da realidade, porque por mais que se afirme que a democracia brasileira esteja consolidada, a manutenção de um regime de liberdade sempre será tênue e exigirá perpétua vigilância. Acima das cores partidárias, deverá estar a defesa de valores essenciais a todos coletiva e individualmente considerados, no que ressaltamos as liberdades em geral e a dignidade da pessoa humana em particular. Não se trata de admoestar o leitor com qualquer discurso constitucionalista, mas na verdade de sobrelevar esses valores como acima de qualquer ciência, de qualquer ideologia ou mesmo de qualquer oportunismo eleitoral.
                   Em junho de 2013, alguns maravilhados outros temerosos, todos testemunhamos a tomada das ruas das principais cidades do país por uma massa disforme e pujante de manifestantes que essencialmente propugnavam mudanças, não se sentiam representados nem pelos políticos nem pelos partidos do presente. Não era somente os trinta centavos do aumento pretendido das tarifas públicas de transporte, mas a indignação contra a corrupção que invade todos os rincões de poder país adentro; a falta de compromisso dos parlamentares com as verdadeiras causas populares; o engodo ao qual a cada dois anos todos os nacionais se submetem em cada eleição, sejam as locais, sejam as nacionais ou regionais. Havia uma patente insatisfação não somente com os políticos e partidos que os aglomeravam, mas antes disso com o próprio sistema político estruturado a partir da Constituição Federal brasileira. Pouco mais de um ano depois, as urnas nos informam que aquele sentimento de renovação deu lugar a um incompreensivo continuísmo de todas as forças políticas estabelecidas antes daquele histórico marco. Se a presidência da República continua sob o jugo do PT, o governo do estado mais rico e populoso do país segue entregue ao PSDB. No Rio de Janeiro, se reelege o Governador que não por acaso era o vice daquele a quem exigiam a imediata renúncia. No Ceará, assim como findou sendo a regra em quase todo o Nordeste, é eleito o ungido do Governador de plantão. Será que mudamos tanto e tão profundamente que acabamos igual ao que éramos antes? Que lições tirar das manifestações de junho em comparação ao resultado das eleições de outubro?
                   Muitos tratados haverão ainda de serem escritos sobre esse tema. Os cursos relacionados às ciências sociais terão muito material sobre o qual se debruçar e esmiuçar suas detidas vistas, por meio dos quais certamente sacarão dezenas de mirabolantes teorias. Para nós, preliminarmente nos parece certo que os manifestantes de junho não mudaram de ideia nesse pouco mais de um ano, para se sentirem magicamente representados pelos mesmos governantes de antes. Seguem não estando representados pelo Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Executivo tanto quanto antes. A conclusão primeira que nos parece advir das urnas é a da falência do sistema que por detrás do discurso de que somente por intermédio da democracia se conquistarão todas as liberdades, exclui espuriamente desse mesmo sistema representativo uma significativa massa de estudantes, intelectuais, artistas e vanguardistas de diversas espécies, que foram aqueles que saíram às ruas em protesto mas que nada de positivo obtiveram como resposta das urnas. Estranhamente, a democracia brasileira exclui do efetivo poder decisório as melhores cabeças e os mais ávidos a dar cabo das desigualdades e injustiças sociais reinantes. Se observarmos bem, a constatação é ainda mais tenebrosa, pois não é somente a democracia brasileira que exclui seus melhores quadros da participatividade, mas a democracia mundial, pois é inevitável aferir que a democracia europeia, por exemplo, também padece do mesmo e talvez irremediável mal de não representar os verdadeiros interesses da sociedade. Em seu Ensaio Sobre a Lucidez, o prêmio Nobel de Literatura, o português José Saramago nos impinge tenebroso alerta: o inimigo dos tempos modernos é o próprio governo democraticamente eleito.
                   A democracia por si mesma não nos representa, pois os eleitos são paridos das práticas das dezenas de espécies de abuso. A democracia, ensina por exemplo o sábio eleitoralista Fávila Ribeiro, pressupõe uma completa igualdade entre os competidores, pois que do contrário, ela não espelhará uma decisão soberana. No Brasil é cediço o conhecimento no sentido de que aqueles que não abusarem do poder, jamais serão eleitos. E o abuso por si só desequilibra a igualdade da competição. Logo, outra conclusão se impõe quanto a todos os eleitos do presente processo eleitoral (talvez quase sem exceção), que é a de que só lograram vitória no pleito graças à prática de alguma espécie de abuso de poder. Nesse sentido, lembramos que abusar do poder não significa exclusivamente a compra direta de votos, mas também o uso da máquina pública em favor de candidaturas, a maquiagem falaciosa do marketing político, e às vezes até a superioridade cultural de uns sobre os outros, além de tantas outras espécies. Assim, a mazela da nossa democracia está antes de tudo na miséria do nosso povo. Se é importante dar comida aos famintos, como fazem os programas sociais da atualidade, mais ainda é instruir e dignificar os miseráveis, pois somente a educação libertará verdadeiramente o homem, tornando-o em definitivo igual aos demais membros da mesma sociedade. E a educação, convenhamos, é o tema sobre o qual pouco se debate e muito menos ainda se estabelecem práticas efetivas para a sua concretização. O Plano Nacional de Educação fala em dez por cento do PIB para a educação nacional, porém é de se indagar a porcentagem desse valor que será destinada ao aparelhamento estatal dos partidos políticos, tomada a efeito por intermédio da corrupção, a exemplo do que se vem acontecendo com a Petrobras. É triste, mas nos parece óbvio que os prometidos recursos do pré-sal não ficarão imunes a esta nefasta realidade.

                   Não se tratará jamais de defender o fim da democracia, mas de chamar a sociedade nacional à responsabilidade e consciência no sentido de que para nos afirmarmos como uma nação verdadeiramente livre e democrática, precisamos muito mais que simplesmente comparecermos às urnas a cada dois anos. O sufrágio praticado da forma pela qual fazemos no Brasil longe está de espelhar uma verdadeira democracia, pois uma democracia sem liberdade, sem a possibilidade de verdadeira participação, sem se permitir representar os milhares de brasileiros que acorreram, indignados, às ruas em junho do ano pretérito, definitivamente não espelha nenhuma liberdade. Democracia sem liberdade não é democracia, mas um engodo dela. Cuidado para não transformarmos nossa sociedade em uma democracia de falácias, onde no discurso da televisão somos livres e nas práticas da mídia e do governo escravos. Se somente a educação conscientiza e liberta verdadeiramente, somente poderemos nos declarar uma democracia efetiva desde quando toda a nossa população venha a ter acesso a uma educação plena, integral e libertadora. Chega de testemunharmos eleições onde a miséria do povo seja o fator decisório do sufrágio.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014


QUEM PODERÁ NOS DEFENDER?

                   Etimologicamente, candidato vem do latim candidatus, que significa cândido, alvo. Para simbolizar sua pureza, na antiguidade, aqueles que pretendiam concorrer a algum cargo público se vestiam de branco, enquanto símbolo da pureza que deveriam ostentar enquanto condição para a ascensão ao honorífico cargo que pretendiam. Atualmente, a moderna campanha presidencial literalmente jogou na podre lama do esquecimento a nobre origem dessa palavra. Basta observarmos em torno de que assuntos giram os debates entre os incândidos candidatos presidenciais. No final das contas, parece que deveremos escolher entre o menos corrupto, o menos omisso ou o menos cúmplice, porque as denúncias de corrupção grassam por sobre todos igualando-os nefastamente pelos valores que não deveriam possuir.
                   Para além das cores ideológicas das preferências partidárias, nos parece revelado pela propaganda eleitoral a inglória verdade de que a corrupção é uma realidade comum a todos os partidos, de todas as tendências. Não se trata de um mal da direita nem da esquerda, mas da própria política. A indesejável lição talvez seja a de que onde houver o Estado e a digladiadora luta pela política, ali os homens se corromperão. Talvez não seja o caso de concordar com Aristóteles para quem a democracia tende a se transformar em uma demagogia, pois de todos os modelos de governo a liberdade segue sendo melhor assegurada pela participação popular direta. Ainda assim, é certo que a nossa democracia se encontra em séria crise de representatividade. Os candidatos, atolados todos em denúncias de corrupção, que quando não sejam diretamente indicados como partícipes ou cúmplices, pecam indelevelmente ao menos pela omissão de não controlar, mandar apurar e advogar a pronta punição dos corruptos, certamente não representam o cidadão mediano, honesto por instinto e por criação, que tem nos valores da verdade, honestidade, boa fé e respeito ao que seja correto os alicerces maiores de sua existência. Nem eu, nem esse cidadão nacional mediano (o bom pai de família dos tempos da antiga Roma) nos sentimos representados pelas candidaturas postas, todas por uma maneira ou outra associados à má administração da coisa pública, com obras paradas, mau executadas ou caras em excesso; com os desmandos da máquina administrativa, onde pessoas sem cargos mandam mais que os que tenham sido regularmente nomeados; onde o futuro ocupante do cargo mais importante da nação é chamado de mentiroso em cadeia nacional de televisão e permanece silente, como se não fosse com ele o ocorrido; onde os candidatos não falam o que pensam verdadeiramente, mas aquilo que seus marqueteiros lhes mandam dizer, transmudando-se, todos, em mercadorias a serem consumidas pelo incauto eleitor, não pelo conteúdo que possuam, mas pela bela embalagem com a qual se apresentam.
                   Precisamos de pessoas sérias de verdade, não das que simplesmente se travistam dessa capa pelos recursos da mídia. Precisamos de governantes éticos e honestos de fato, não dos que finjam não saber por intermédio de que meios ilícitos conseguem aportar recursos financeiros à sua campanha. Necessitamos de candidatos limpos e puros efetivamente, não dos que afirmam uma coisa e praticam outra totalmente diferente. Em uma palavra, é de coerência e respeito do que mais a nossa fragilizada democracia precisa. Mas e de quem poderemos esperar esses sublimes e imprescindíveis valores?

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

quinta-feira, 2 de outubro de 2014


SOLITUDE


                   Enquanto espécie, somos (nós, a humanidade) um disforme conglomerado de seres, tão parecidos e ao mesmo tempo tão díspares uns dos outros. Sobretudo, o que somos mesmo é unidades solitárias de consciência em busca de dar algum sentido para a vida nossa e do grupo coletivo. Mutuamente, nós e a coletividade em que nos instalamos, estabelecemos perigosas relações de comutação, onde ao tempo em que somos explorados igualmente exploramos a outra parte da relação.
                   É talvez o medo da solidão que nos impulsiona instintivamente à vida grupal, que ao mesmo tempo nos incomoda pelas amarras sociais que nos são impostas enquanto condição do convívio. Mas também é o desejo insano à imortalidade que nos impele a tal convívio, pois a única maneira de vencermos a mortalidade da existência terrena é pela lembrança dos que deixamos. Nesse ângulo, tudo o que a humanidade produziu ou vier a produzir é fruto dessa ignóbil luta, fruto do pueril desejo de sobrevivermos aos processos orgânicos do nosso corpo. A sociedade como um conjunto descende desse desejo; as grandes obras da arte concretizam, às vezes por séculos a imortalidade de ditos personagens; assim como o culto aos mortos, a estrutura da família e, em uma palavra, tudo do que se ocupou o homem por tantos e incontáveis milênios.
                   Porém, a verdade central da existência segue sendo a mesma, por mais cegos que todos nós estejamos a ela: enquanto unidades de consciência somos solitários. A maior e mais insuperável de todas as marcas da existência humana segue sendo a solitude dos homens. Por mais congestionadas de pessoas que estejam as grandes cidades; por mais numerosas que sejam as famílias; por mais relacionamentos que se estabeleçam nas redes sociais é essa danada da solidão quem nos devora pouco a pouco, arrefecendo a esperança, cada vez mais tênue, de darmos cabo àquele surdo sentimento que nos povoa a todos e que combatemos incansavelmente por todos os vãos instantes da nossa existência e do qual tão poucos sabem propriamente de que se trata.
                   Pior que isso, é não enxergarmos a bonança e a necessidade mesmo da solidão. É por meio dela que chegamos e deixamos a existência material. É por seu intermédio que recebemos as maiores bênçãos e as mais importantes inspirações em nossa existência. Nossa intuição nos fala à consciência pelo silêncio e através da solidão. Sobretudo, é por seu meio que seremos capazes de enxergar, compreender e nos integrar ao próprio Deus.
                   Que benção, então é a solidão. Que ela nos seja útil, pois.


Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto