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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

RÉPLICA DO MOVIMENTO PELA REFUNDAÇÃO DO CRATO
ou
PELA VERDADE


                   Não nos utilizaremos dos dois tomos dos quais valeu-se o velho Rui Barbosa para rechaçar as detratações contra si lançadas quando fora senador da República. Mas algo é preciso ser dito sobre as reações a nosso artigo, que pela instigação da consciência cívica dos cratenses, finda propugnando a necessidade de refundação desta heroica terra, enquanto única saída ao presente descalabro.
                   De 1903 a 1904, na célebre questão em que o coronel Antônio Luiz deu por terra, a bala, no Crato, com o chefe político José Belém de Figueiredo, foi a Farmácia Central o laboratório em que, durante meses, se processou a conspiração contra o temeroso potentato, é assim que descreve o ilustre Irineu Pinheiro a tomada a força do poder pelo Cel. Antônio Luiz. O Crato e as articulações engendradas em farmácias... nos parece algo comum ao passado e ao presente dessa terra, não sendo mera coincidências, portanto, os acontecimentos contemporâneos. Segundo o festejado Raimundo de Oliveira Borges, o Cel. Belém foi um injustiçado, porém a máxima de que quem com ferro fere, com ferro será ferido, também fez sua justiça, quando anos depois, a prefeitura do Crato fora invadida e tomada pelas forças governistas, tomando-a das mãos do arrogante Antônio Luiz.
                   Este episódio se trata de um símbolo marcante de como pensam as elites locais, que egocentricamente pensam exclusivamente em seu próprio bem estar, esquecendo-se do progresso da sua terra e de sua gente. Foi graças a essa visão miúda de mundo que o centro de comércio da região central do Nordeste se transmudou na miúda economia dos tempos atuais. Darcy Ribeiro, em sua obra fundamental sobre antropologia brasileira, em diversas passagens cita o Crato e sua importância geopolítica e econômica, que tinha como símbolo o largo da Rede Viação Cearense (atualmente REFFESA), de onde partiam e chegavam as riquezas que alimentavam toda a região. Hoje, após longos e lastimáveis anos de abandono, temos ali um espaço cultural, infelizmente subutilizado face a ausência de apoio do poder público a atividades culturais. Como seríamos a capital da cultura sem o inevitável apoio das verbas públicas?
                   O Crato é dos municípios mais antigos do interior cearense, e possui a primeira Comarca do interior do Estado, fundada ainda nos idos do reinado de D. João VI. Uma Comarca que até o final dos anos noventa não possuía sede própria, funcionando precariamente em um minúsculo prédio, no centro da cidade, e que hoje funciona quase tão precariamente quanto antes em um prédio de dimensões insuficientes à sua importância (nem acesso a deficientes possui, pasmem os ativistas do século XXI!). Os prédios históricos da cidade foram quase que totalmente destruídos, fazendo esta terra renunciar ao título de possuir uma das mais robustas e belas arquiteturas histórica do país. Ainda hoje, os prédios que arrodeiam a Praça da Sé são demolidos diante do contemplativo descaso da grande maioria da nossa população. A Casa de Bárbara de Alencar foi destruída. A casa onde nasceu o Padre Cícero também. O simbólico prédio da Cinelândia (onde tínhamos o nosso orgulhoso senadinho) não teve destino diferente. Os poucos prédios antigos que ainda resistem são escondidos pelas placas do comércio local. Eis o triste retrato de uma terra sem memória, que abdicou a seu passado pela aplasia de toda a sociedade.
                   Nas Constituições de 1946 e de 1988 (as duas Constituições mais democráticas e libertárias da história desse país) o Crato orgulhosamente teve representantes nas respectivas Assembleias Constituintes. Hoje não possuímos sequer um Deputado Federal, Senador ou membro do primeiro escalão, seja do Governo Federal, seja do Governo Estadual. Nos últimos dez anos, o crescimento populacional da cidade foi abaixo do nacional. Já tivemos algumas importantes indústrias da região, sendo o polo da atividade industrial local. Hoje, vivemos sob a marca de escândalo de doações irregulares de terrenos pelo poder público a empresários. E quantos órgãos públicos já não cerraram suas portas em nosso município, seja pela falta de atrativos, seja pela ineficiência de seus gestores? Modernamente, o prédio do SESI se nos apresenta como uma importante marca deste movimento histórico que esvazia, dia a dia, a nossa cidade, transformando-a em uma simples e desimportante cidade dormitório.
                   Assim poderíamos discorrer por tomos inteiros, descrevendo o tanto que o Crato teve e o tanto que deixou de ter. O cratinha...
                   Vendo as coisas por esse ângulo; andando pelas ruas da cidade e averiguando in loco a tristeza e o descaso que povoam todas as suas ruas; a falta de esperança que inunda a alma de seus cidadãos mais honestos, não conseguimos, definitivamente não conseguimos enxergar a cidade próspera, pujante e feliz decantada em certos artigos que nos pousam a vista. E a quem deveríamos atribuir a culpa pelo fracasso histórico dessa orgulhosa terra senão a sua elite, a quem sempre coube administrá-la? Nunca é demais lembrar que o sistema eleitoral brasileiro não permite que se chegue ao governo sem se abusar do poder, seja o econômico, seja o político, seja o cultural ou outros mais. Todos os prefeitos dessa terra, em todos os tempos (presentemente inclusive) foram eleitos com o apoio de parcela da elite local. Sem esse apoio ninguém jamais conseguiria galgar ao poder. Não há cidadãos independentes e conscientes que chegaram ao poder. Há castas sociais que apoiam e elegem candidatos. Portanto, desde a sangrenta derrubada do Cel. Belém do poder, todos os mandatários locais tiveram sim a cumplicidade das nossas elites. E se é a estes maus administradores a quem devemos o nosso descalabro, também é à elite que os elegeu, solicitou-lhes favores não republicanos e os manteve no poder. É esta a realidade de toda e qualquer sociedade, seja ela democrática ou não, pois não se pode governar sem parcela importante das elites.
                   Não é o pessimismo, mas fruto de atenta e científica análise sociológica da nossa terra que nos convence haver uma única esperança para a que um dia foi a imponente Cidade do Crato, Cabeça de Comarca (que formam os quatro “C”, do seu brasão). É preciso refunda-la. Tudo o mais é discurso apartado do sentido histórico da realidade.
                   As pessoas que amam verdadeiramente o Crato precisam reconstruí-la.

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

MOVIMENTO PELA REFUNDAÇÃO DO CRATO


                   Era uma sexta feira, vinte e três de janeiro de 1914. Reunidos em frente à casa do patriarca de Juazeiro toda uma tropa de romeiros estava pronta para a mais ousada de todas as investidas que tiveram vez na revolução daquele ano que culminaria com a deposição do Presidente do Estado do Ceará, o Coronel Franco Rabelo. Naquela ocasião, jagunços transmudados em beatos, armas depostas e face de êxtase aguardavam as sacras palavras do velho padrinho Cícero. Por sua vez o sacerdote ao tempo em que dava a ordem para a invasão da vizinha cidade de Crato, pontificava:
O Crato é minha terra, meu torrão natal. Só permito um combate como esse para tanger de lá os meus inimigos, de uma vez por todas. Eles querem cortar minha cabeça, acabar com os romeiros e destruir o Juazeiro, esta terra santa de Nossa Senhora das Dores. Vão. Não bebam cachaça, para não fazerem besteira. Não atirem à toa, pois todos sabem que não dispomos de muita munição. Chegando na entrada da rua do Crato, não queiram penetrar logo na cidade, demorem um pouco, dando tempo para as famílias se retirarem. Deixem fugir também os soldados que não quiserem guerrear. Não persigam, de maneira nenhuma, os fugitivos. Deixem livres os caminhos do seminário e da casa de caridade. Não importunem quem quiser se refugiar lá dentro. Respeitem a casa do vigário Quintino e qualquer pessoa que vá se esconder nela. Não destruam as residências e muito menos matem pessoas que não estejam em combate.
                   Partida a tropa para o cumprimento da missão, quedou-se o velho sacerdote trancafiado em seu quarto, em desassossego, empunhando um crucifixo em direção a sua terra natal, traçando com ele largos gestos, como se desenhasse várias cruzes no ar. Segundo o relato de um cratense, o médico Irineu Pinheiro, o Crato possuía superioridade em armas e homens. Mesmo assim, graças à coragem destemida dos romeiros, mas, sobretudo à covardia incompetente dos governistas, os mais fracos venceram. É o mesmo Irineu Pinheiro que atesta, sobre as forças defensivas de Crato, que
pode dizer-se sem risco de erro que da falta absoluta de capacidade de direção da gente do governo resultou a queda fácil do Crato, principal centro de resistência governista no sul do Estado. Poderia defende-lo vantajosamente a guarnição da cidade e se, por ventura, fosse excepcionalmente vigorosa a pressão dos atacantes, inda assim, seria eficientíssimo o auxílio de Barbalha, onde se achavam centenas de homens da polícia.
                   Por isso, continua o culto cratense, vencera a tenacidade, a coragem dos romeiros que, com escassos tiros em suas cartucheiras, obrigados, portanto, a poupá-los não desanimaram e fizeram recuar e correr diante de si o inimigo bem municiado, abrigado em sacos de algodão, ou protegido pelos muros das casas.
                   Antropologicamente, pode-se dizer que é desta invasão, hoje centenária, que nasce o rancor que as elites cratenses ainda hoje alimentam contra a metropolitana Juazeiro do Norte. Mas historicamente, resta fincada a data da extinção do Crato, seja como cidade, como centro de cultura ou polo de comércio. Portanto, comemoramos modernamente os cem anos da extinção do Crato, que na última centúria permaneceu viva somente no soberbo orgulho e na míope visão de sua incompetente elite. Eis as razões remotas da decadência e irrecorrível declínio da ciosa terra de Bárbara de Alencar. Eis a razão porque a memória viva das datas histórias desta terra, Huberto Cabral, não bradou aos quatro cantos a histórica data do centenário da queda do Crato.
                   De lá para cá, o Crato assiste enciumado o engrandecimento de Juazeiro do Norte, ao mesmo tempo em que lamenta os investimentos e as instituições que paulatinamente vem perdendo, mas também os muitos que deixou de ganhar. Os escândalos que povoam modernamente a vida do Legislativo e Executivo local, são meros reflexos deste já longo movimento histórico, que apenas culminam a marca da insensatez e incompetência de nossas elites. É a ela, a inglória, arrogante e medíocre elite cratense, a quem se deve o malogro histórico desta terra. E deste malogro, não há mais saída, pois o bonde da história já passou, deixando para trás, choramingando pelo desprezo, todo um povo, que em certo e remoto dia, já foi a capital da cultura e do folclore, centro de conhecimento e relevante polo de comércio do nordeste brasileiro. Agora é vergonhoso foco de denúncias de corrupção e desmandos da coisa pública.
                   A única solução possível para esta malsinada terra é a sua refundação. Esqueçamos o brado de José Martiniano, que primeiro proclamou a república, pois junto com aquele grito, pusemos no poder local o egocentrismo do bacamarte e a mesquinhez do pensamento politiqueiro mais energúmeno, o mesmo que ainda hoje povoa as rodas palacianas. Deixemos de lado o título de capital da cultura, pois ele nada mais é senão o símbolo de que já há cem anos, toda esta terra encontra-se paralisada no tempo, renunciando ao desenvolvimento sustentável e a uma economia saldável. Abandonemos o inútil culto aos gloriosos nomes da nossa elite, pois são eles, exatamente eles, os grandes responsáveis pela nossa derrocada. As ilustres famílias desta terra são na verdade seus mais terríveis algozes, os culpados históricos pela nossa opróbia queda.
                   Comecemos do nada, da estaca zero. Cultivemos os valores da ética, da honestidade e da verdade, ao invés da mesquinhez, arrogância, prepotência e covardia que preenchem vergonhosamente as páginas dos últimos cem anos de história do Crato. Refundemos esta cidade, pois esta é a única esperança de transmudar o caos do presente em esperança e prosperidade, abandonando de vez a vergonhosa história que nos precede!

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

domingo, 22 de dezembro de 2013

OLHAR PARA TRÁS


                   Até que ponto devemos olhar para trás ao curso da penosa caminhada que é a existência humana? Sem estas pausas de reflexiva e profunda contemplação é certo que não seríamos capazes de avaliar se estamos ou não realmente no caminho certo. Quantas dúvidas nos trazem as experiências diárias, mas também quantas certezas. Se olharmos bem, a vida possui mais erros que acertos, mas dificuldades e misérias que beleza, mas desencontros que regozijos. Ainda assim, é importante olhar para trás, porque é esta mirada, se reflexiva a contento, que indicará valiosas lições. Ao menos assim saberemos o que não fazer. Mas também há de nos revelar boas ações, pois por mais corrupto que seja o nosso praticar, ainda assim haverá uma centelha divina a nos habitar, mesmo que seja no mais profundo e escondido recôndito do nosso coração. Algo de bom também necessariamente haverá de ter sido praticado ao curso da jornada. Olhar para trás, portanto, é mote de imprescindível meditação; de valiosos ensinamentos.
                   Mas olhar para trás não é trazer para o presente o que deve estar bem guardado no espectro do passado. São as lições do pretérito que devemos garimpar, não o que se deu propriamente, seja o bom, seja o ruim. O que causou dor deverá permanecer encoberto pelo sábio manto do tempo, para que as feridas não se reabram e inaugurem desnecessariamente dolorosa sangria, pois não há mais o que se aprender do que não é mais. O que proporcionou prazer também não poderá ser remoçado, pois é certa a provisoriedade de todos os momentos. A contemplação do que passou serve na verdade para alimentar o futuro, como um mestre veemente que nos ensina a mágica fórmula de como construir a sabedoria, harmonia e paz interior mesmo diante da caótica e eterna mutação da matéria; de como ser feliz ainda que diante do mundo de expiações e sofrimentos em que vivemos; de como transformar a dor em poesia, o sofrimento em vontade de vencer. O futuro sim é um livro aberto, por ser escrito, onde tudo poderemos ser e tudo seremos capazes de construir. O passado, logo o que está dentro de nós mesmos, é o mais sábio de todos os mestres. É nele, neste pecaminoso passado que nos habita, onde seremos capazes de encontrar o caminho mais luminoso que possa existir.
                   E se repararmos bem, cutucando estes velhos e tantas vezes esquecidos escombros do que já fomos, do que pensamos, do que quisemos ser e nunca o fomos, por mais distintas que tenham sido, como de fato são, as vidas uns dos outros, necessariamente haveremos de chegar a uma verdade comum, a de que todas as coisas que nos habitam são indeléveis ilusões, que nos aprisionam, enganam, nos desviam do caminho da sabedoria, nos impingem preconceitos, mas também indizíveis sofrimentos. Nada delas, enfim, nos revelam o que somos, o que queremos e no que deveremos nos transformar com a experiência da vida. De tudo isso, que se olharmos bem repararemos que não é nada, somente poderemos descobrir uma única e irrenunciável coisa que por sua pujante força é capaz das mais imprevisíveis mutações; de tudo perdoar e transformar. De todas as coisas que fomos ou poderemos vir a ser, só o amor é real. Este sim, o único capaz de descortinar a harmonia por detrás do nefasto caos que nos rodeia.

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013


CAMINHO DA ILUMINAÇÃO

Sentado confortavelmente em uma cadeira de anatomia apropriada, daquelas que permitem relaxar e quiçá, até dormir, firme no propósito inicial, o primeiro pensamento que veio à mente foi o da noite anterior, quando no escuro breu em que se encontrava, permitiu-se contemplar longamente o firmamento; onde após longo e imperceptível tempo teve um lampejo rápido, mas profundo do significado da infinitude que é o universo. E pensar que ali, naquela vista que tinha, estava apenas uma ínfima, desprezível até, fração do sem fim cósmico. Diante daquela imagem, observando bem, era inevitável não acreditar em uma energia criadora, que a tudo dominava e de tudo sabia. Mas e qual seria a natureza, a forma e os propósitos desta energia criadora? Era inevitável a pergunta. Foi no âmago desta contemplação, que ao termo percebeu haver durado pelo menos um par de horas, que lembrou-se de certa técnica de meditação a qual havia estudado, mediante a promessa de revelações profundas.
                   A verdade mais sublime e perfeita está dentro de nós mesmos; somos o mais sábio de todos os mestres; o conhecimento de tudo resta encerrado dentro de nós. Eis os princípios desta antiga técnica de meditação, fundada no conhecimento de esquecidos mestres. De Hermes Trimegistro, veio a Tábua de Esmeralda, que avocava a verdade superior de que “tudo o que está em cima, é como o que está embaixo”. De Tales de Mileto a máxima concitando a todos a conhecerem a si mesmos, pois assim conhecerão também ao universo e seus mistérios. O homem é pequeno demais para devassar as longínquas entranhas das estrelas, mas é de tamanho suficiente para explorar seu próprio eu interior, por mais infinito que seja. Portanto, para conhecer as estrelas, percebeu, deve-se fazer a profícua viagem de si para si mesmo. Neste percurso estarão encerradas todas as verdades da criação, o próprio criador, inclusive.
                   O som da música, inspiradora e suave já se fazia ouvir em volume que induzia ao silêncio e meditação. O cheiro do incenso era também presente, fazendo por si mesmo a impressão de se estar em outro ambiente. Em frente à cadeira em que se postava estava uma pequena mesa, com um espelho acoplado à parede, que permitia refletir a imagem do seu busto e rosto. O escuro seria total, não fossem duas velas acesas, uma em cada extremidade do espelho. Este ambiente permitia a serenidade, mas também a possibilidade de suave contemplação de sua própria face. Na imagem refletida estava sossegado, dando a impressão de paz e harmonia. O ambiente em si mesmo induzia a tal estado, de maneira que as dores e lutas do mundo exterior não conseguiam atingi-lo naquele lugar. É como se fosse sagrado o espaço em que estava. Este específico pensamento o fez sentir uma suave energia, a qual mentalmente visualizou como uma luz branca que arrodeava a tudo, alijando-o dos pensamentos negativos, dos problemas, arrependimentos e dificuldades que o perseguiam no mundo exterior ao que estava, sendo que o mundo interior no qual adentrava não era o do ambiente propriamente, mas do âmago de seu próprio ser. Era a egrégora que o envolvia, o protegendo e conduzindo na jornada que ali tinha início.
                   Fechou os olhos, mas ao reverso do que acontece quando se está simplesmente relaxando, isso fez saltar-lhe dezenas de imagens, de início conturbadas, apresentando mais cores que formas propriamente, mas aos poucos serenadas, iniciando a fazer algum tipo de sentido, notadamente porque acompanhadas de sentimentos. Uma calma indescritível o dominou pouco a pouco. Foi quando iniciou a fazer respirações profundas e lentas, inspirando lentamente, até encher totalmente os pulmões de ar fresco, mantendo-os cheios o máximo de tempo que conseguia, sem lhe causar desconforto. Então, lentamente expirava até secar totalmente o órgão, permanecendo também um tempo seco, até iniciar novamente todo o processo.
                   Enquanto respirava, foi tomando consciência de si mesmo, inicialmente pelas partes, mas depois de todo o seu ser. Concentrou-se primeiro nos pés, sentindo e ao mesmo tempo visualizando-os em seus pedaços e depois em seu conjunto, tanto por fora, verificando a pele, as unhas, as cicatrizes existentes na sola, mas depois percebendo também o que estava por dentro, como os vasos sanguíneos, a carne encharcada de linfa, os músculos e os ossos. Pressentiu também que algo mais havia além daquilo que já é conhecido da anatomia, como uma essência imaterial presente em todos nós. O processo repetiu-se por todas as demais partes e órgãos do corpo. Dos pés, subiu para as pernas e joelhos, vendo e sentindo-os por fora, por dentro e pela essência imaterial que possuíam. Após o sexo, onde percebeu esta tal energia imaterial bem mais pujante que antes, seguindo pelo tórax, abdome, vendo e sentido todos os órgãos interiores um a um. Quando concentrou-se no coração teve consciência da energia percorrendo todas as veias e artérias, pela graça do amor divino. Nos pulmões sentiu a própria vida entrando pelas narinas e sendo distribuída também para todo o corpo. Chegou à cabeça, e após concentrar-se na boca, narina, ouvidos e olhos, sentiu uma estupenda força irradiar-se a partir de seu cérebro, fazendo-o pulsar fortemente a partir de seu centro, bem onde visualizou uma glândula em intensa atividade. Era a consciência divina lhe iluminando.
                   Neste momento, sentiu todo o corpo vibrar intensamente, numa vibração que, sabia, não era a da matéria. Havia algo mais em si que não poderia ser detectado pela ciência, mas que de tão pujante, tinha convicção de que existia e o dominava a partir de então totalmente. Foi aí que sentiu um empuxo forte, que o fez levantar-se repentinamente e, não sabe como, começar a voar. Deslumbrado, viu o teto se aproximando de si e olhando para baixo, percebeu pasmado que seu corpo permanecia quieto, ainda sentado na mesma cadeira, como que adormecido, no que pese sua consciência o observasse de longe. Estranhamente não sentiu medo nem qualquer desconforto. Simplesmente deixou-se guiar por uma mão invisível que o conduzia não sabia para onde. Elevou-se acima da construção em que estava, onde pôde ver a cidade a sua volta, cheia de luzes e movimentos frenéticos. Mas não se deteve aí. Seguiu elevando-se até perceber o próprio planeta azul e pequenino do qual se distanciava pouco a pouco. Viu outras estreles, com outros sistemas solares, mas também galáxias inteiras. De longe avistou pequenos focos de luz que não lhe pareceram ser de estrelas, mas de outros espíritos, que como ele se elevavam na infinitude do cosmo. Não se deteve com nada disso. Sem qualquer temor continuou se deixando levar por aquela força misteriosa, que presumia sábia e boa, mas apenas presumia, posto que nada lhe dizia, apenas guiava-o não sabia para onde.
                   Continuou elevando-se a planos onde não existia mais a matéria, apenas uma energia sutil que imaginou ser a própria essência do criador, senão ele propriamente. Foi então que avistou uma enorme catedral, em dimensões tais que sabia não existira jamais no planeta de onde provinha. Suas torres altas e majestosas, as luzes que dela emanavam e notadamente a paz profunda que irradiavam de si eram tamanhas, que palavras jamais seriam suficientes para descrevê-la. Apenas apreendeu que era a mais bela, pujante e vibrante construção que já pudera observar, se bem estivesse ciente de não ser propriamente nenhuma construção, nos moldes que os espíritos humanos compreendem por este termo. Foi conduzido até o imenso portão de entrada. Nas suas laterais observou estranhos desenhos que lhe lembraram vagamente temas egípcios, com escritas que não pôde compreender o significado. Defronte a si, estava um homem de vestes compridas, capô sobre a cabeça, toda amarela. Sem dizer palavra, o estranho se disse o guardião daquele lugar, que seria a catedral da alma, lugar onde todo o conhecimento do universo estava guardado, mas que somente os puros de espírito teriam acesso a ele.
                   Examinando sua própria consciência, se declarou puro, pois o que buscava era a saberia, e cônscio estava que a verdadeira sabedoria somente poderia ter um único e indeclinável propósito: servir à evolução da humanidade. De pronto, o guardião lhe franqueou a passagem, dizendo-lhe mentalmente que aquele era profundo merecimento, pois segundo a sabedoria antiga, “muitos eram os chamados, poucos os escolhidos”. O lugar que se descortinou depois do portal era ainda mais majestoso que a fachada que avistara antes. Era um salão quase infinito cheio de misteriosas inscrições em todos os cantos. Não é possível na linguagem humana descrever lugar tão único. Começou a andar lentamente olhando vagarosamente para todas as maravilhas que caíam sobre seus olhos. Tudo era absolutamente encantador e singular.
                   Foi então que esbarrou em uma certa palavra. Uma palavra que não existia em nenhuma língua, de nenhuma cultura que já houvesse povoado a terra. Soube ao observá-la que ali naquele lugar estava grafada a palavra da qual se utilizou Deus para criar o mundo material e imaterial. Foi por ela que se deu o início de toda a criação. É ela o verdadeiro big bang; a fagulha que a tudo deu origem. A palavra perdida de que tantas culturas falam; a que tantas religiões se reportam. Como é bela esta palavra, pensou. Impronunciável aos impuros. Tão poderosa que tem a força de criar e revelar a essência de tudo o que exista ou possa vir a existir. Eis o arquétipo da criação. Aquele que conhecer esta palavra, de logo soube ele, terá poderes infinitos, força indevassável, sabedoria insuperável. A sua simples lembrança tem um poder criador invencível.
                   Postou-se então diante da palavra perdida, contemplando-a por um tempo que lhe pareceu infinito. E desde esta simples observação pôde ter reveladas todas as chaves para as verdades mais profundas e inimagináveis que povoam o universo. Como somos tolos, nós homens... foi o pensamento que teve ao final desta infindável meditação...
Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

                   

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013


VERDADE
                   Há uma verdade intricada dentro de mim, que em estando dentro do meu ser revela na verdade ele mesmo. Como não sou uma ilha no meio de uma vastidão oceânica, (muito embora em tantas ocasiões tenha desejado ser assim e em outras lutado bravamente para transpor a infinitude de água que me separa dos meus pares) esta minha verdade tem algo que ver com o que é de fato o mundo e a existência.
                   Sou uma alma, é dizer, uma centelha de consciência na vastidão do universo. Sou eu, enquanto consciência, quem dá razão ao mundo. Sem mim e sem as outras milhões de consciências que povoam este mundo e ele simplesmente não existiria, não seria nada. Que seria de Deus sem suas criaturas? O Incriado, ao final, necessita de suas criaturas para existir, pois é o nosso existir que, em lhe dando consciência de si mesmo, dão sentido, cores e razões para toda a sua Obra, a começar pelo próprio Criador.
                   Mas esta verdade que me povoa não é nem jamais será igual à verdade que povoa o mundo fora de mim, muito embora fora de mim o mundo não exista. Eu sou uma criação e uma criatura em mim mesmo. Tudo me povoa e tudo é por mim povoado. Eu sou...
                   E esta verdade, o que revela de superior ciência, senão a relativização de meu próprio ser? Sou criador de mundo infinito, que mesmo dentro de mim tem inefáveis limites, a começar pela pequenez sórdida de meu próprio ser. Minha criação tem meus limites, meus defeitos, minhas angústias... Oh, não, há dores demais dentro de mim para povoar o mundo! Este mundo há de ser terrível, posto a terrível angústia que me habita: a angústia de ser humano, finito na matéria, nos poderes, mas infinito no pensamento e nas quimeras.
                   Esta minha verdade é, com a mesma convicção que eu próprio sou. Eu sou... algo terrível e genial ao mesmo tempo, capaz de infinitos sacrifícios, tormentosas renúncias e desgastantes apegos. Às vezes é desesperador ser humano, finito e infinito ao mesmo tempo; tendo de se reconhecer humilde e tão pujante, ao mesmo tempo que o próprio Criador. Sendo, afinal, criador do próprio mundo, infinito-finito; pobre-rico; sábio-tolo como cada uma das células que habitam as minhas vastas entranhas, que cagam, bebem e se regozijam dos prazeres mundanos, tanto quanto todos os meus infinitos e iguais irmãos.

                   É a dor de viver, que quando em vez se transmuda na alegria de existir...
Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A GAIOLA DAS HIENAS



                  A notícia do ano já explodiu nos quatro cantos da cidade: há corrupção na Câmara de Vereadores de Crato; cobra-se, por cabeça uma quantia já divulgada pelo voto do edil contra o ex-governante; o Presidente da Casa nada sabe a respeito; muito menos o atual mandante do executivo local. Há realmente algo de novo entre o céu e a terra? Pois a ladainha é a mesma que aconteceu em Brasília no ano de 2005, quando o Presidente da República, tez afrontada, cara de bom moço veio em cadeia nacional dizer a exata e mesma coisa: eu? Nada sei sobre a roubalheira que fazem em meu santo nome, sob os honestos fios de minha barba grisalha. E os cratenses, como os bons brasileiros haverão de reeleger os mesmos desalmados para novo mandato, como fizeram com o próprio Presidente de então e até com mensaleiros, afinal cabe a pergunta: onde estão José Genoíno e João Paulo Cunha, senão no pleno exercício de mandatos eletivos?
                   A história infelizmente nos convence de que o mensalão do Crato tem um fim certo, que é a manutenção no poder dos seus mentores. Com Samuel Araripe fora do páreo, quem terá envergadura política e financeira para fazer frente ao atual grupo de poder no Crato nas próximas eleições? Se não foram os mentores do ardil, é porque são ingênuos, honestos e éticos acima de todos os mesquinhos valores que alimentam a política aqui e alhures. Acreditemos, pois, na boa fé de nossos políticos, afinal de contas foram eleitos pela flâmula dos seus discursos, sem a menor que seja utilização do criminoso abuso de poder econômico, político e de mídia. Não gastaram mais dinheiro que seus adversários; não compraram votos; não se utilizaram de propaganda mais elaborada que seus pobres opositores... como então não acreditar na pura verdade que apresentam por detrás de seus olhos brilhantes de cândida honestidade, claramente melhorados pela maquiagem midiática de que se utilizam?
                   Como não acreditar que um vereador com quase trinta anos de repetidos mandatos, que até trinta e um de dezembro era o melhor amigo do ex-gestor, que por razões inexplicáveis (claro que não foi por empregos na Prefeitura!) tornou-se agora o melhor amigo do atual gestor? Como não acreditar que na reunião que aconteceu às vésperas da votação das contas do ex-Prefeito, na residência do atual, ninguém sequer tocou no assunto da próxima reunião da Casa dos Edis; que o atual Prefeito é pessoa desprendida dos doces sabores palacianos, a ponto de não preocupar-se com o principal opositor, pelo menos, nas duas próximas eleições? Claro que não trataram do assunto, pois pensar o contrário é fruto da mais absurda maldade da oposição! Claro que o Prefeito é neutro (sempre e eternamente, como cabe aos chefes do poder executivo, compreensivo que são na superior doutrina de Montesqueiu, quem ensinou da independência e harmonia suprema entre os poderes do Estado, e avesso supremo a tudo o que ensinou Maquiavel, em seus impertinentes conselhos ao Príncipe). Óbvio que o Presidente da Câmara não saiu por derradeiro da casa do Prefeito porque planejava os meandros dos engenhos regimentais às minúcias, avocando os fundamentos jurídicos necessários para indeferir pedido formulado pelo acusado de adiamento da sessão em homenagem ao sagrado e Constitucional direito do contraditório e da ampla defesa (claro que foi coincidência que o tal pedido de adiamento efetivamente tenha ocorrido, pois é maldade pensar que cidadão tão alvo e puro de propósitos pudesse sequer imaginar ação tão ardilosa). Esqueçamos de que o edil em questão é advogado, pois como ele mesmo afirmou, é cônscio dos deveres inerentes à sua atuação parlamentar que irá tomar a efeito todas as ações como Chefe do Poder Legislativo local. É a inveja de seus adversários que faz imaginar maldosamente que ele leve em conta o fato de ser o maior aliado do atual Prefeito, defensor maior na Câmara de seus interesses; que jamais tenha recebido ou trocado favores políticos com o mesmo, posto que em verdade se recusa veementemente a receber as benécies inerentes ao cargo conquistado com mais de três mil votos conscientes do superior eleitorado cratense. Que estas coisas aconteçam em Brasília, talvez; no Cratinho de Açúcar jamais!
                   Como duvidar do conteúdo da denúncia formulado contra o ex-Prefeito? É inconteste a ausência de atenção dos técnicos do Tribunal de Contas (que tamanha ingenuidade a deles, terem sugerido a aprovação das contas!), que distraidamente avaliaram com descuido os terríveis fatos afirmados anteriormente junto à Corte de Contas. É muito trabalho para eles! Pois graças ao bom Deus temos valiosos Vereadores, que sem cobrar qualquer quantia ao Prefeito, conscientemente vislumbraram as irregularidades praticadas pelo antigo gestor, confirmaram a gravidade de seu conteúdo, e com absoluta isenção cassaram-lhe os direitos políticos por longos oito anos. É mera coincidência (não maldemos, senhores leitores, pois a maldade é ardil do coisa ruim!) que os vereadores com superior consciência foram os da bancada governista e os energúmenos que não conseguiram enxergar a clara verdade por detrás das denúncias foram os da oposição. É outra ardilosa artimanha da oposição dizer que o conteúdo destas denúncias não foram sequer divulgados; as provas de suas ocorrências jamais chegaram ao conhecimento do público e que o ex-Prefeito não pôde defender-se de maneira apropriada. Causa repugnância pensar que no Crato existam pessoas desta extirpe, desta que duvida da serena e superior consciência de nossos Vereadores, cientes que são de todas as coisas; postos, como ao próprio Deus, acima do bem e do mal!
                   Pior é pensar que o Prefeito Municipal, empresário sério, cidadão honesto, seria capaz de desapegar-se de valiosa quantia para fazer parte em artimanha de tão ignóbil grandeza. Muito menos que estes valores nem precisariam sair de seu atento bolso mercantil, mas de fraudes em processos de licitação (não se pode imaginar que existam fraudes em licitações em Crato, pois todos os certames são fruto da mais isenta e justa escolha, consequência natural da aplicação dos sapientes princípios que norteiam as licitações país afora. Ora, como no Brasil não há fraudes em licitação, é induvidoso que por aqui estas inexistam!). Pelo amor aos santos, que não passe pela cabeça doentia do leitor que o Prefeito seja capaz de trocar funções temporárias e cargos em comissão por apoio político dos vereadores (nunca, nem em campanha prometeu qualquer emprego em troca de votos!); que tenha autorizado contratos fora dos estritos padrões legais, pois tal não há nem nunca houve no Crato de Frei Carlos Maria de Ferrara, seu incorruptível fundador! Muito menos que as elites locais tenham algo que ver com o processo de degredo desta nossa cidade, tão corrompida quanto o sítio histórico já demolido diante do torpe silêncio de nossas autoridades.
                   Louco, sim, é este pobre cronista, que ousa lançar pensamentos tão vis sobre questões tão sérias; esquecendo da sua pequenez diante do poder local, do sentido de vingança que alimenta as nossas elites; de tantos, como José Marrocos, que aqui foram torturados moralmente porque ousaram afirmar em desfavor dos de sangue nobre, detentores supremos das verdades, do poder e das tradições locais; eles mesmos que pela sua soberba, ao mesmo tempo em que vilipendiaram a honra dos verdadeiros heróis cratenses, hoje totalmente esquecidos da nossa população, os soterraram com os escombros produzidos pelas suas seguidas e irresponsáveis ações, no final matando a todos, eles próprios e a orgulhosa Vila Real do Crato. Pois que me perdoe esta gloriosa elite por estas palavras de fraqueza; pelo título impertinente; pelos questionamentos inapropriados. Pois o certo é que estas coisas até podem acontecer em Brasília. No Crato, da heroína Bárbara, do honesto Felício e do valente Tristão, não!
                   A gaiola das hienas, daquelas feras terríveis que parecem rir ao atacar e devorar suas vítimas não fica na Câmara Municipal de Crato, mas talvez na fictícia cidade de Matozinho, lugar comum a todos os interiores do nordeste.

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

BRASIL, NUNCA MAIS?


                   Uma das notícias que marcou a semana foi a de que foram presos policiais militares acusados de envolvimento na prisão arbitrária, tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo. Segundo se relata na imprensa nacional, o caso se deu por ordem do então comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, local onde residia o ajudante de pedreiro. Também conforme o relato noticioso, o móvel da ação seria a estratégia de investigação utilizada pelos policiais de torturarem pessoas da comunidade que tivesse algum tipo de ligação com o tráfico de drogas, objetivando obter informações privilegiadas que levassem aos grandes criminosos cariocas. É dizer, trata-se na espécie de fragoroso caso de tortura e morte de um inocente visando a apuração de fatos criminosos, fazendo inevitável a pergunta: quem são os piores bandidos, os traficantes ou os militares?
                   Nos anos setenta da década passada, vieram a tona uma série de publicações, levadas a efeito em plena ditadura militar, capitaneadas pelo livro “Brasil: Nuca Mais”, editado sob os auspícios da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, através das quais se denunciavam escabrosos casos de tortura outra vez patrocinada pelos militares brasileiros, que ganhando relevante espaço na mídia internacional, serviu para alavancar importantes pressões externas, as quais findaram com a queda progressiva da ditadura militar brasileira, cujo marco final é a eleição indireta de Tancredo Neves para a presidência. Daí em diante, passou-se a falsa notícia de que a tortura havia acabado no Brasil, fato claramente desmentido pelo caso Amarildo.
                   A experiência da advocacia e mesmo pesquisas e até a vivência empírica nos revela a verdade que não deve ficar calada por trás deste caso: a tortura sempre existiu no Brasil, mesmo após a queda da ditadura miliar. A diferença é que naqueles idos torturavam-se também pessoas da classe média, o que serviu de motivo para a preocupação da CNBB e outras instituições (como é o caso da OAB), que capitanearam a tarefa de denunciar os abusos. Agora, encerrado o período de exceção, mesmo estando em vigor uma Constituição Federal que afirma a tortura como crime hediondo e insuscetível de anistia, graça ou indulto, ainda existe este abuso na realidade policial. A tortura persiste sendo uma regular técnica de investigação, tal qual faziam na Idade Média. A diferença é que atualmente somente os pobres e favelados são vítimas de suas práticas, por isto o incômodo silêncio dos bispos e advogados. O que não é verdade é que a tortura tenha algum dia deixado de ser praticada neste país.

                   O caso do ajudante de pedreiro Amarildo, ao contrário do que possam fazer dizer na mídia, não é um caso isolado e atípico, mas uma prática da polícia carioca e de outros estados, do Ceará inclusive. Seus responsáveis também não são apenas os policiais que foram ou vierem a ser presos, mas o próprio Estado, o qual mesmo que pela omissão, tolera quando não incentiva tais práticas investigativas, pois o que de fato lhes importa é as estatísticas que apresentarão ao eleitor nas próximas eleições, não o número de cadáveres que estejam soterrados sob elas. As torturas que se praticam hoje são tão criminosas e desumanas quanto as do tempo da ditadura militar, com a única diferença de que suas vítimas hoje não possuem suficiente importância social para terem seus casos denunciados pela mídia.
Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto