Páginas

sexta-feira, 16 de maio de 2025

 


O QUE VI NO INSTAGRAM

 

Eu vi aqui no Instagram

Ror de povo preocupado

Sem saber que comentário

Daria algum bom resultado

Depois de algo tão disparatado

Haver sido outra vez postado.

 

Isso é coisa de energúmeno proletário,

Foi logo o primeiro algoz dizendo,

Pois é ato de quem é sedento,

Que tem a vida em perigoso tormento,

Foi o que, com firmeza e de pronto,

Em caixa alto bradou, um segundo solitário.

 

Mas pra que tanta confusão

De tão tormentosa disputa;

Que resultado não dará

As feridas de refrega tão astuta!

Até tentou ponderar

Algum sensato em contramão.

 

Mas é inútil a tal nobre prevenção

Pois nunca haverá nenhum senso

Onde, sem esforço e conhecimento,

Todos querem impor seu dissenso

Pela força dizendo algum argumento

Sem esmero, apuro e nenhuma atenção.

 

Jorge Emicles

 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

 



HABEMUS PAPAM

 

Habemus Papam

Mas, teremos luz

Nesse mundo onde crispam

Farfalhos de cruz?

 

Habemus Papam

Mas, haverá algum rumo

Onde todos solapam

Esse planeta moribundo?

 

Habemus Papam

Mas, poderia sobrar

Aqueles que acoplam

Ao viver o amar?

 

Habemus Papam

Mas poderá existir

Corajosos que topam

A verdade bramir?

 

Mas... Habemus papam.

 

Jorge Emicles

domingo, 4 de maio de 2025

 


TENS NOME?

 

Miro um olhar cansado

E me sinto convidado

A a ti dar só cuidado.

 

Desculpa, se sou assim tão ousado!

 

Mas é o teu jeito educado

De tez firme e formosa compostura

De quem sempre concentrada

Segue reta, mirando pro futuro.

 

Te admiro, pelo tanto que dás duro!

 

A ti dedico esses versos,

Mas sem dizer por quais sucessos

Me deparei com teu rico universo.

Teu nome, só a você revelo

No dia que me disser: te quero!

 

É Nesse dia que tudo vira eterno!


Jorge Emicles

sábado, 11 de janeiro de 2025




O SILÊNCIO DE MIM MESMO

(poesia em prosa)

 

 

                   Ensimesmado, no seio mais profundo do silêncio de mim mesmo, indaguei meio assim a ermo, do porquê dessa solidão pimenta, rabugenta, que só inventa desculpas birrentas para ficar assim como estou, no seio mais profundo de mim mesmo. E só isso mesmo.

                   Nesse instante vi bichinhos bem peludos, me arrodeando felpudos, alguns até barrigudos, felizes abanando seus rabos sortudos. É a força desse silêncio do profundo de mim mesmo que atrai os caninos e bichanos, pois, sensitivos, são compreensivos da energia difundida e por eles recebida. Amor silente de todos é o amor mais potente, insipiente, vai profundo e contente ao sentimento inconsciente, mas em todos presente, do Deus Onipotente, Onipresente e Onisciente. O do coração, de quem todos somos crentes.

                   O caminho é solitário, precário e arbitrário, mas é sempre necessário esse trabalho missionário, de muito esmero e às vezes mário, de ter a si mesmo explorado e tudo seu a si, inteiro, revelado. É desde aí que vem o fruto destinado, que passou do que era desejado até o efetivamente realizado. É essa a força que sente tudo o que é alado. Em todos está presente e pode ser potente a quem for revelado a fonte do conhecimento desde o estudo e o ensinamento. Basta querer, não é preciso ser sortudo. Em você também está presente o Tudo.

                   O segredo de tão grande arvoredo, que desde si pode ser canal brotando, se constrói no dia a dia, às más coisas silenciando e às boas praticando, porque o praticado é o arado do que de verdade é sagrado. O contrário só traz o desagrado. A descoberta de si pode parecer deserta, mas se ficar alerta chegará na descoberta de que a sabedoria, em si, pode ser aberta. Essa verdade é certa. Não perca essa oferta!

                   Naquele tórrido momento em que o vazio sentimento de só e só o desalento em que tentarem nos despir de todo e qualquer portento, nosso dever é praticar o desprendimento. Sem rancor e livre de qualquer tormento. Abra mão do argumento, renuncie ao julgamento e silente se afaste de todo infeliz procedimento. Tudo isso sem nenhum lamento. Não se iluda com o adiamento, pois feliz só quem praticar esse raiz entendimento.

 

Jorge Emicles

https://youtu.be/MvkkvjzjIaA?si=6RNypHedv20Qw8Er




segunda-feira, 11 de novembro de 2024

 

 

INEVITÁVEL (CONTO)

 

                  



    A morte é inevitável porque houve um dia em que teve de ser inevitável o nascer. Foi assim que aquele portenho já avançado nos anos iniciou seu inesperado relato sobre o sentido e as descobertas de sua própria existência. Era ele um mago a quem, após anos de pesquisas e buscas insondáveis, houvera encontrado por um suposto, mas muito feliz acaso. Entre os bruxos, contudo, nunca haverá encontros ao acaso, conforme ele mesmo insinuou logo às preliminares da conversa. Por isso mesmo, não por acaso resolveu ele que eu teria o necessário discernimento para apreender a ímpar lição extraível da história que iniciaria a contar. Era talvez uma espécie de parábola da busca da sabedoria. Uma lição de vida pelo exemplo da prática, quem sabe. Não sei explicar.

    O conhecia como a uma lenda, enquanto misterioso mago que aprendera os segredos da alquimia espiritual, ou a arte de desvelar a paz e a harmonia mais profundas mesmo em meio aos maiores tumultos da existência, através do que era capaz de se manter o equilíbrio e a evolução pacífica rumo ao caminho de volta da tortuosa estrada humana.  Na verdade, ele era mesmo um raro iluminado. Vê-lo pessoalmente, compreender que de fato era um ser de existência corpórea; era um espírito em carne de verdade; e que, mesmo tendo vencido memoráveis obstáculos continuava sendo um ser humano, em essência, absolutamente idêntico a todos os outros da espécie. Com as mesmas necessidades básicas de todos. Tudo isso me pôs profundamente reflexivo, confesso.

    As rugas do seu rosto e o cansaço de sua tez denotavam os sacrifícios e tormentos que tivera que se submeter para chegar ao que me parecia um estado de graça. O olhar calmo e a mansidão da fala davam a certeza da pujante verdade contida em suas sempre serenas palavras, ditas no ritmo de quem só as pronunciava quando estava convicto não somente das verdades que expressavam, mas, sobretudo, do merecimento do receptor em poder ouvi-las. Foi assim que disse:

 

 

§ 1º

 

    A história que vou te contar, começou a dizer o velho sábio, tem início no momento de maior desterro de minha vida; quando, condenado já à morte iminente, isolado e cheio de culpas e mágoas só pude me valer da fé e pedi com a potência do meu querer a cura e a misericórdia de poder servir à causa do Criador. Nessa noite, eu tive um sonho tão vívido que realidade nenhuma poderia ser mais concreta que aquela. Nele, recebi a notícia da cura e a missão de cuidar da minha própria alma gêmea, que tanto amava desde imemoráveis outras vidas. De fato, no sonho estava intimamente agasalhado nos braços de uma mulher. Não reconheci os traços do rosto dela, mas pela intensidade da energia que senti emanar daquele ser era induvidoso saber se tratar de beleza superior. Esse sentimento ficou tão impregnado em minhas entranhas, quase incomodando, que escrevi uma carta a essa mulher e, convicto, a guardei para entregar no tempo correto.

    Pois eis que foi no momento do maior medo e da mais completa solidão que emanei ao Cósmico o desejo mais sincero e, por isso, mais potente de minha existência. O Universo é mental, existe desde a Mente infinita do Incriado. O pedinte sincero, quando se põe em harmonia com a Mente Divina é capaz de criar também. Todas as possibilidades têm início na vontade e a mente humana, quando adequadamente utilizada, é capaz sim de criar coisas.

 

§ 2º

 

    As vibrações se entranham em todas as coisas e são, na realidade, a verdadeira essência delas. Só o que há são as vibrações emanadas do Pensamento Divino. Elas se harmonizam conforme o seu grau de emanação, mais rápido e puro próximo à divindade ou lento e grosseiro no âmago da matéria. Mas tudo são graus diferentes da mesma vibração. Por isso ela também havia tido um sonho e sentido o mesmo desejo e a idêntica energia, de maneira que as vibrações por mim emanadas chegaram até ela. Era o mesmo desejo, a união plena do mesmo sentimento.

    A partir desse instante se tornou absolutamente inevitável o encontro carnal do que já estava faz muito unido em espírito. Como tudo é movimento, era inevitável que ambos se pusessem em ação na intuitiva busca um do outro. Em silêncio, mas nunca desatentos, saímos a percorrer o mundo, cada qual partindo de seu canto sem saber para onde, nem em busca de quem, mas convictos de que era mesmo inevitável o encontro.

 

§ 3º

 

    O novo só se cria a partir da união dos gêneros. É essa a fagulha gerativa, regenerativa e criadora do Universo. Como é inevitável o surgimento do novo, foi igualmente inevitável o encontro desse casal. Por maior que seja a Criação sempre foi impossível o não encontro. Com naturalidade nos reconhecemos e seguimos no propósito de construção da caminhada em conjunto rumo ao que nos parecia o propósito comum.

    Eu a reconheci na carta que havia escrito antes de vê-la pela primeira vez, e ela se reconheceu nos sentimentos expressos e nas cenas narradas na missiva. Era uma prova da existência de uma história anterior a nós mesmos; uma inquestionável evidência de que todas as coisas se interligam e conspiram umas com as outras. Não fosse Divina essa orquestração seria inimaginável. Mas, como tudo no Universo, aquilo também era inevitável.

 

§ 4º

 

    Quando é verdadeiro e incondicional o amor é inevitável sentir dor. O Universo se expande e se contrai em um ritmo cíclico, contínuo e perpétuo. Funciona como um pêndulo despendendo sempre a mesma energia para ir e vir, na mesma velocidade e em idêntico movimento cíclico de ir e vir. A força do amor chama a provações e necessidades e, após o primeiro momento de êxtase do casal, nos defrontamos com as dificuldades em constância cada vez mais intensa e grave.

    As igualdades em perseverança e a aguerrividade das duas personalidades, foram os primeiros motes para os desacertos, que viraram brigas, que viraram mágoas, que viraram silêncios, que viraram distanciamento. O mesmo sentimento que atraía no início agora era o motivo do afastamento. As duas coisas na mesma intensidade. A imaturidade, tão própria daqueles jovens que éramos, nos arrastou para a incompreensão mútua porque não éramos capazes de compreender que as provações são a contraparte da dádiva do encontro de almas tão afins. Sem um não pode haver o outro, pois o tanto que vem é o tanto que vai. Por isso a música do Universo é tão rítmica e bela!

 

§ 5º

 

    O efeito é inevitável diante da causa, e os maus pensamentos e ações nos separaram com a mesma intensidade que os bons desejos nos fizeram correr o mundo, de desencontro em desencontro, até o único encontro que valeu realmente a pena. Mas o Universo flui sempre no ritmo e em consonância com suas leis, de tal forma que as mesmas sutis vibrações que uniram fizeram-nos repulsar um ao outro. A culpa é de nenhum porque sempre foi inevitável a necessidade de que sentíssemos a dor da perda do amor verdadeiro e do vazio da busca em outros de algo só encontrável no verdadeiro amor, aquele encontro raro, que poucos conseguem ter e que é irrepetível com qualquer outro. É como se realmente existissem almas gêmeas que se buscariam eternamente em vida e em pós vida, num ciclo quase sem fim, até o estado de nirvana.

    Se eram terríveis os assombros das conversas repetitivas, sem fim e sem sentido dos momentos de virulenta discussão, o silêncio e a calmaria da ausência eram mais morrediços ainda. Não havia paz nem em estarmos juntos nem distanciados. Nenhum dos dois conseguia se apegar a outras pessoas, por mais que se dedicasse a isso. Era inevitável tanto a dor da solidão quanto a da desassossegada convivência. Era uma incógnita lição que o Universo nos apresentava.

 

§ 6º

 

    Mas afinal, e qual será a diferença entre o infinito da solidão e a clausura da vida sociável? Não seriam polos distinto em grau, mas idênticos em essência, assim como são a luz e a treva; o quente e o frio ou o amor e o ódio? Afinal, tudo não é mesmo duplo; tem o seu par que é ao mesmo tempo semelhante e dessemelhante, mudando apenas em intensidade? Da mesma forma que o amor de nós dois se transmudou em ódio irracível; que o desejo não somente da companhia, mas também da carne do outro virou instinto de separação e que a necessidade do afeto e da empatia se transformou na busca consciente da solidão. Apesar do paradoxo, sempre vivemos eu e ela o mesmo sentimento um pelo outro e fomos firmes no propósito de sinceridade na apresentação das nossas verdades, umas vezes opostas, outras idênticas, mas tantas outras vezes distantes e indiferentes, apenas. Talvez em nada tenhamos sido diferentes dos outros casais.

    Quando a convivência vira dor, é hora de separar. Não se pode machucar o belo nem atentar contra qualquer dignidade. Era inevitável aprender a viver sozinho.

 

§ 7º

 

    E só porque fui sozinho, pude me dedicar às ciências ocultas e me tornar herdeiro dos alquimistas de Atlantida. Desde uma tradição nunca interrompida. Eu tenho a chave que tu buscas e poderei te revelar em outro momento. Antes, terás ainda algumas provações.

 

 

    Era uma pequena praça de Buenos Aires, próxima ao Obelisco. Eu, passante sempre curioso quis descobrir a praça que Borges costumava passear e, achando aquela praça, sentei-me em um dos bancos, para descansar um pouco e contemplar a energia do local. Dali a pouco chegou o velho e simplesmente se sentou ao meu lado, aguardando minha reação. Mesmo reconhecendo de quem se tratava por conta de uma cicatriz marcante na mão esquerda, que ele deixou bem evidente, duvidei de início ser realmente ele. Disse uma palavra de passe e ele respondeu sem titubeio. Não havia como duvidar que era ele! Exato na oportunidade que eu menos esperava.

    Quando teve certeza de que eu o havia reconhecido, foi falando sem que seu olhar magnético me permitisse interrompê-lo. Disse tudo pausadamente, para ter certeza que eu me lembraria de todas as coisas. Logo que acabou de falar se levantou e foi embora, sem olhar mais para trás. Eu fiquei sem ação, deixei-o ir passivamente. Passei bom tempo estático, quase que alheio a tudo que se passava a minha volta. Tentando entender que coisa estranha, única e ao mesmo tempo verdadeira havia acabado de vivenciar. Como se aquele lugar fosse mágico. Depois de muito contemplar aquele insólito, me levantei e continuei o meu passeio, sempre olhando bem para os lados, tentando sem sucesso reencontrar o velho.

    A lição que ele tinha a apresentar era que a sabedoria mais profunda só é possível aos solitários. Será mesmo que é preciso renunciar ao amor? Não haveria como alcançar a sabedoria e o amor na mesma vida? Não restaria algum vazio perpétuo pela falta do amor verdadeiro, por isso espontâneo e contante? Será mesmo que no fundo de seu espírito, mesmo após todos os sofrimentos que passou, o velho não desejaria reencontrar sua alma gêmea em outra vida, que, afinal, dada a idade com que já contava, não deveria estar tão distante?

    Se é inevitável o amor, não seria assim?

 

Jorge Emicles

terça-feira, 5 de novembro de 2024

 



SONETO DO ETERNO RETORNO


 

Se a mudança é necessária

E tudo no mundo chama o novo

Fico numa situação precária

Vendo o novo vindo de novo.

 

Se o que houve não tem volta,

Se o passado nos derrota

Como pode o que já foi

Outra vez nos dar um oi?

 

Pois eis que a vida é de retorno

Nosso esforço desmedido

Para além do repetido

 

Nos oferece como estorno

A chance de repetir de novo

O que até tínhamos esquecido.

 

Jorge Emicles

domingo, 24 de dezembro de 2023

 


  

O NORO

 

 

                   Zé Perrelo era cabra dos matos, nascido no tórrido chão do sertão do Ceará, na fazendo onde eram moradores os seus pais e, antes deles, seus avós. Teve a típica formação dos sertanejos, solto nas veredas da caatinga, desde cedo acostumado à lida do gado e da roça. Nas horas de folga, caçava passarinho e veado nas matas, tomava banho no açude da fazendo, frequentava as noites de samba que quando em vez aconteciam nas casas da redondeza.

                   Nesse típico exemplo de vida sertaneja cresceu menino, se pôs jovem, enamorou-se de Rosa, filha do vizinho Agostinho e ali mesmo, na dura realidade das longas secas intercaladas por raros anos de chuvada e fartura, na mesma fazendo onde nascera e crescera, também formou sua própria família. Rosa, sua mulher, era até estudada para seu nível de formação, tanto que passara alguns anos estudando na cidade, que na verdade era um pequeno povoado distante algumas léguas da fazenda. Lá, no distrito conhecido por Ferreiro, em memória esquecida da profissão de um antigo morador, era a única referência que tinha de urbe. Na verdade, era um pequeno aglomerado de casas, capaz de formar apenas duas pequenas e estreitas ruas, com uma pracinha e uma igreja, quase capela, ao centro. Cidade grande mesmo, cheia de arranha céus e veículos engarrafados não sabia como seria e, se visse, morreria de pânico.

                   Já era pai dos três meninos que lhe dera Rosa quando o governo trouxe a energia elétrica para a fazenda. E daí, junto a um tanto de benefícios, veio não somente a geladeira e os bicos de luz para clarear as noites, mas também a televisão, sintonizada através de uma enorme antena parabólica instalada no pobre telhado de sua residência. Sempre achou discrepante aquela imagem vista de longe: uma casa de taipa sem pintura, marrom da cor do barro batido para encher as fendas da madeira entrelaçada na estrutura interna da construção; a cara da pobreza e abandono do sertanejo e, paradoxalmente, aquela estrutura prateada e de geografia circular perfeita no teto da morada.

                   Não combinava nada, afinal, o colorido da modernidade com a secura cinzenta da vida no sertão que, no máximo, permitia se enverdejar nos raros anos de chuva. Lhe parecia antinatural a realidade apresentada na tela do aparelho, cheia de cidades superpovoadas, com vizinhos que dividiam a mesma parede, o mesmo chão e o mesmo teto dos minúsculos apartamentos dos enormes arranha céus; diferente da vida em espaços largos do sertão, onde no correr do dia se encontrava com pouquíssimos viventes, em geral, conhecidos de quem se sabia a ascendência e a descendência. Especialmente lhe causava estranheza o estilo de vida daquelas pessoas urbanizadas, indiferentes uns aos outros e de hábitos bem questionáveis. Era àquela cultura propagada com furor e alegria através do aparelho de televisão a quem atribuía seu desgosto.

                   Foi o filho caçula de Zé Perrelo o mais influenciado pelo universo paralelo apresentado pela televisão. Entendia o matuto que tudo era fruto da má influência das novelas e filmes apresentados através da telinha, ensinando costumes e valores bem diferentes dos que aprendeu dos pais e ensinou aos filhos. O fato é que, enquanto os dois filhos mais velhos logo jovens se iniciaram nas artes dos amantes, namorando as moças das redondezas, o mais novo sempre se mostrou muito ensimesmado, cheio de timidez, avesse às danças e aos demais eventos sociais da comunidade. Sempre preferiu ficar em casa, assistindo à programação que não cessava nunca até alta madrugada, quando já todos da casa grassavam em sono profundo. Por isso, achava Zé, Vicente, o Lôrim, como o chamavam os de casa, nunca se interessou por namoro.

                   Já contava com vinte e cinco anos o rapaz quando Zé estranhou uma amizade excessiva de Lôrim com o filho de Joaquim, um vizinho próximo. Fato é que os dois rapazes sempre estavam juntos, se encontravam diariamente, saíam para tomar banho no açude sempre em par, preferiam evitar outras companhias. Não se tocavam em público, mas houve certa ocasião em que Zé os flagrou no meio do mato, fazendo não sabe bem o quê. A cara de desconfiança dos dois não deixou muitas dúvidas sobre que artes andariam a fazer os jovens.

                   Transtornado com a descoberta, foi ter com Rosa, que, ao final, disse já saber de tudo e que ele não se metesse a besta porque hoje as pessoas eram livres, poderiam ser e se relacionar como bem entendessem. Até o papa já dissera que não havia nada de pecado nessas coisas e se nem Deus se opunha e esse estilo de vida, não haveria de ser o ignoto Zé quem se atreveria a dizer nada. Tratasse de se conformar com os gostos do filho e ai dele se dissesse um “a” que fosse contra o filho. Isso não o tornava nem melhor nem pior que os outros. Tudo isso estava na televisão. Todos são iguais, não importa a cor, o gênero ou as preferências. Era crime ter preconceito contra o filho e ela mesma o denunciaria por qualquer mau trato. Vergonha mesmo, alertou por fim Rosa, era os filhos terem seu pai preso.

                   As palavras da mulher foram tão contundentes que, por mais que não aceitasse o estilo de vida do filho, não teve jeito a dar. Se fosse o seu pai, sabia, encheria de sarrafo o lombo do menino até ele se arrepender. Mas, com a mulher que tinha, bem sabia que não poderia jamais fazer algo desse tipo. Depois, por mais que reprovasse aqueles gostos, não conseguia deslembrar que Vicente sempre foi o seu mais querido e apegado filho. Nada daquilo, no fundo, lhe atenuava o amor que sentia ao descendente.

                   Por tudo isso, trancou dentro de si a agonia que toda aquela situação lhe causava. E, nesse silêncio, amaldiçoou o quanto pode a chegada da televisão em sua pobre morada. Mesmo assim, não perdeu o hábito de assistir ao jornal nacional, já sempre trôpego de sono, todas as noites.

                   Aos poucos foi se acostumando com a presença de Vicente e seu amigo íntimo em todas as ocasiões da família. Nos aniversários, na semana santa, nos finais de semana, não importava. Sempre estavam lá os dois juntos, com as noras e, com o tempo, os netos, filhos dos seus outros dois filhos. Era impossível não se habituar àquele casal. Com o tempo, o próprio Zé já tratava com naturalidade o parceiro do filho. Lhe incomodava mesmo, no entanto, eram os olhares e risinhos cheios de sarcasmo dos vizinhos, escarnecendo às escondidas com o drama do pobre sertanejo.

                   Das brincadeiras que lhe faziam, a que mais incomodava era quando perguntavam o que, afinal, o filho do Joaquim era seu e de seu filho, porque até parecia gente da família, dono de uma intimidade que só mesmo os de casa tinham. Foi em uma dessas vezes, numa véspera de Natal, que Antônio de Deda, outro vizinho, entabulou a pergunta de quem seriam os seus convidados para a ceia de Natal, ao que Zé Perrelo respondeu que lá estariam seus três filhos, as esposas e Luiz, o filho de Joaquim. Não podendo perder a deixa, de pronto Antônio indaga: mas e, afinal, compadre, que diacho esse Luiz é seu, afinal toda reunião de família ele tá sempre, não é mesmo?

                   Engolindo a vergonha, Zé Perrelo decidiu acabar de vez com a chacota. De pronto disse então: é meu “noro”, hora. E tu num já sabe! Deixa os meninos em paz!

 

 

Jorge Emicles